Memória descritiva: a Cartilha Maternal

Aprendi a ler com quatro anos. A minha mãe encarregou-se de me resolver esse problema, utilizando um método que, na altura já tinha muitas dezenas de anos, mas então (como agora) continua a funcionar – o método de João de Deus e da sua «Cartilha Maternal». Dizia ela, que aprendera a ler vinte anos antes pela «Cartilha», que não havia melhor sistema. Não sei se havia ou não, mas os meus dois filhos frequentaram desde os três anos um Jardim-Escola João de Deus e aprenderam a ler, também muito cedo, pelo mesmo método pelo qual a minha mãe e eu aprendêramos.

A «Cartilha», segue um processo semelhante ao que, 25 anos antes, outro poeta, António Feliciano de Castilho lançara. Além das aquisições do «método Castilho», integrava outras experiências, tais como os trabalhos dos pedagogos Johann Heinrich Pestalozzi e Friedrich Wilhelm August Fröbel. Na versão de João de Deus, o método é mais abrangente, pois, ao contrário daqueles especificamente direccionados para o ensino de crianças, provou-se ser eficaz para todas as idades. João de Deus complementou o seu método publicando uma tradução adaptada da obra de Theodore-Henri Barraus, «Des devoirs des enfants envers leurs parents». Uma série de instruções práticas para os professores poderem tirar o máximo proveito do novo sistema pedagógico, foi também publicada pelo autor de «Campo de Flores».

António Feliciano de Castilho tinha-se batido contra os métodos de repetição e soletração ritmada (e a tabuada cantada). Porém, o professorado mostrara enorme relutância em adoptar a sua metodologia. Apesar de ter conseguido que em 1853 fosse criada, na Escola Normal de Lisboa, uma aula de ensaio do sistema, aula que se manteve até 1858, o sistema não pegou. A sua morte em 1875 ditou um maior apagamento da sua inovadora proposta educativa. Porém, apesar deste aparente insucesso, estava aberto o caminho para as cartilhas.

Ao contrário do que sucedera com o sistema ideado por Castilho, foi recebido com entusiasmo e considerado revolucionário, útil e mesmo genial. Alexandre Herculano esteve entre os que, com a sua aprovação, facilitaram a aceitação da «Cartilha Maternal» que foi aprovada como o método nacional de aprendizagem da escrita da língua portuguesa. Como prémio, João de Deus recebeu uma nomeação vitalícia de Comissário Geral da Leitura, com uma pensão anual de 900$000 réis (importância muito considerável na época). A partir de 1877, começou a difundir-se o «método João de Deus» e em 1882, por decisão parlamentar, foi decretado o uso generalizado da «Cartilha Maternal» nas escolas portuguesas, mantido até 1903, quando a metodologia se tornou facultativa. Tornou-se rapidamente no sistema de iniciação à leitura preferido pelos professores A «Cartilha Maternal» foi precursora de um aluvião de outras cartilhas,. Até ao final dos anos de 1930 foram dos livros com maior tiragem em Portugal e no Brasil, sendo ainda hoje reeditados.

Ainda hoje, numa era de novas tecnologias, o sistema pedagógico de João de Deus funciona perfeitamente, o que confirma que, por vezes, as inovações não substituem o que já existe – presente e passado podem coexistir e, até, complementar-se (já algum pedagogo terá tentado criar um software que permita aproveitar a eficácia do método de João de Deus, colocando-o em suporte informático?).

Na época em que foi publicada a «Cartilha» (1876), mais de 80% dos portugueses não sabia ler nem escrever, pelo que, mais do que o «Magalhães» relativamente aos nossos dias, a «Cartilha» veio ajudar a resolver um dos maiores problemas nacionais. Um livrito pequeno e barato que foi uma das obras mais vezes reimpressas em Portugal, tendo sido usada nas escolas portuguesas por quase meio século (até 1921).

Além da excelência pedagógica do livrinho, o seu grafismo não terá sido estranho ao êxito obtido. Não foi por acaso que João de Deus escolheu, ou foi aconselhado a escolher, o alfabeto Clarendon, da família das egípcias, apresentado em 1845 por R. Beley & Co, e que se caracterizava pela forma redonda dos caracteres, com um contraste de espessura quase inexistente, e com patilhas ou serifas, permitindo uma leitura contínua e fácil – a obra destinava-se a crianças e a adultos analfabetos. Um elevado grau de legibilidade e de «higiene de leitura», contribuiu para a disseminação do método, ainda hoje aplicado nos jardins-escola João de Deus. Nestes 134 anos quantos milhares de crianças e de adultos analfabetos dele terão beneficiado?

Um pequeno livrinho que, a seguir à merenda, a minha mãe trazia para a mesa e, sílaba a sílaba, ia metendo na minha cabeça pequenas poções da magia que me dava acesso a um universo de prodígios. Uma janela abriu-se para mim, uma janela que deitava para um mundo maravilhoso e ao mesmo tempo tenebroso, habitado por magos e duendes, donzelas e megeras, heróis e sinistros vilões… O mundo real, afinal de contas.

Uma magia que uma jovem chamada Judite com a ajuda de um velho poeta chamado João criaram expressamente para um miúdo chamado Carlos. Numa salinha de um quinto andar pombalino, vendo por detrás do rosto de minha mãe o Castelo de São Jorge sobressaindo, como um orgulhoso navio, num oceano de telhados vermelhos, a chave que me iria dar acesso ao ilimitado mundo das maravilhas, construía-se dentro do meu pequeno cérebro.

Obrigado Judite. Obrigado João.

Comments

  1. maria monteiro says:

    o meu filho também aprendeu a ler com a cartilha acompanhada da preciosa ajuda dos avós.

  2. Carlos Loures says:

    Segundo julgo saber, tal como aconteceu com os meus filhos, continua a ser difícil inscrever uma criança num Jardim-Escola João de Deus – as listas de espera são grandes. Sinal de que o método continua a funcionar. Mais de 130 anos depois de ter sido concebido.

  3. maria monteiro says:

    quando andei a saber de referencias para escolher a escola para inscrever o Tomás, a dos Olivais tinha lista de espera… funcionava sabendo de alguém que conhecia alguém que tinha lá alguém… enfim um labirinto de “cunhas” optei por seguir a “cunha mais sábia” que me disse : “ segue tu o método, ensina o teu filho e inscreve-o no ensino normal”. Foi isso que fiz com a ajuda dos avós e do livrinho “mágico”

  4. Carlos Loures says:

    Na cidade onde vivia, havia dois jardins-escola. A população não ultrapassaria na altura os 15 mil habitantes e, mesmo assim, não foi fácil.

  5. sandra says:

    O Colegio S. Tomás ensina a ler pela Cartilha Maternal. Tem além desta um conjunto dedocumebtos auxiliares de apoio nao só à criança – com exercicios – como para os pais e melhor compreensão desta metodologia.

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