Memória descritiva: Manoel de Oliveira

Pode-se gostar ou não dos filmes de Manuel de Oliveira, o que não se pode é deixar de sentir admiração por um homem que tem dedicado toda a sua vida ao cinema e que, aos 101 anos (completou-os em 11 de Dezembro) continua a rodar filmes e a manter projectos em carteira. Como se tivesse 20 anos, idade em que nos sentimos eternos. Numa entrevista dada no final do ano a Gregorio Belinchón do El País, a propósito da estreia em Espanha de «Singularidades de uma Rapariga Loira», com o entusiasmo de um jovem explicou o porquê da escolha – «O filósofo Spinoza dizia que nos julgamos livres porque ignoramos que os nossos actos são comandados pelas mais obscuras forças. Ortega y Gasset, que de dia para dia mais me agrada, fala do homem e da sua circunstância. Isto define o que penso da paixão».

Em 1931, Manoel de Oliveira realizou «Douro, Faina Fluvial» e, desde então, nunca mais parou. Sei que não estou sozinho quando digo que esse primeiro filme e «Aniki-Bobó» me agradaram muito. Cineclubista, sócio do Imagem, vi esses dois filmes muitas dezenas de vezes. Ao rever as imagens que acima coloquei, voltou a emocionar-me a poesia que transcorre do seu realismo, como água fresca e límpida jorrando de uma fonte.

Se não gosto tanto de alguns dos filmes mais recentes o mal só pode ser meu – se o mundo do cinema tece os maiores elogios, se os «Cahiers du cinema» consideram Oliveira um dos maiores cineastas da actualidade, só posso estar errado quando prefiro o «Douro» ao «Amor de Perdição» ou o «Aniki» ao «Vale Abraão».

Errado, sobretudo, porque estou a falar de coisas diferentes, de épocas diferentes, de estéticas diferentes e, principalmente, de dois homens diferentes, um jovem de vinte e poucos anos e um ancião com mais de cem. Mas não queria que a minha grande admiração pela figura de Manoel de Oliveira me impedisse de ser sincero. Até porque a minha opinião, em termos de cinema, vale o que vale; ou seja, quase nada.

Aliás, esta insistência em que a primeira obra de um autor é sempre a melhor, faz-me lembrar a tortura da personagem de uma novela de Somerset Maugham que, escritor já idoso, premiado e louvado pela crítica, continuava refém do seu livrinho de estreia, um conto escrito aos 20 anos, que muitos consideravam a sua melhor obra. Não é isso que se passa com Oliveira. É óbvio que os seus filmes mais recentes, com grande actores e com meios com que há 80 anos nem se sonhava, correspondem a um outro patamar da realização cinematográfica.

Em todo o caso, não podemos deixar de, a partir daquelas obras iniciais, traçar linhas de perspectiva que, nos poderiam ter dado um cinema mais ligado às realidades do nosso País e da nossa época. Mas é evidente que Manoel de Oliveira escolheu explorar uma parte mais íntima e intemporal do ser humano, aquela que alimenta os sonhos e os pesadelos do nosso universo interior. E respeita-se e saúda-se essa escolha que o eleva à condição de grande entre os grandes do universo cinematográfico.

De resto, com estas palavras, não quero sequer esboçar uma crítica, favorável ou desfavorável, à obra do nosso cineasta mais universal. Estas palavras destinam-se apenas a homenagear uma das figuras mais importantes da nossa cultura.

Quando dessa entrevista, o jornalista notou sobre a secretária de Oliveira um folheto onde se explicavam as vantagens da Internet. Questionado sobre o tema, o cineasta respondeu: «Não sei se a Internet é boa. A vida moderna aumenta a capacidade mecânica sem melhorar a habilidade do homem. Antes cultivava-se a memória…» (…)«Pense nos grandes exploradores, como Cristóvão Colombo» (…) «Sem computadores, baseando-se no seu intelecto».

É de salientar um pormenor – dos cerca de 30 títulos que constituem a sua filmografia, 10 foram realizados até 1990 e 20 de então para cá. Isto significa que dois terços da sua obra correspondem a uma altura em que ultrapassara os 80 anos. Uma idade em que a maioria das pessoas deixa de ter projectos e vive de memórias. E continua a trabalhar. Aos 101 anos, diz: «Se paro de filmar, morro».

Não pare, Manoel.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Um dia num concerto (na Gulbenkian) fiquei sentado na cadeira ao lado.Conversamos muito, antes, no intervalo e no fim. A vivacidade dele é enorme, curioso. Perguntei-lhe como se filma a beleza pura nos olhos da Leonor Silveira, em Vale Abraão. Olhou para mim com um leve sorriso e ficamos assim, mais não é preciso.

  2. Carlos Loures says:

    Nunca falei com ele. Mas tem de ser uma pessoa muito inteligente; só assim se explica a maneira sábia como vive e trabalha.

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