Na Rua Princesa Patrícia


Um programa no Canal de História – a Operação Valquíria -, trouxe-me à memória uma já muito distante personagem do nosso passado em África. Tratava-se do marido de uma amiga dos meus pais, a Bibla Sousa Costa. Era um homem alto que fazia o pleno daquilo que se imagina ser um aristocrata prussiano. Tisnado pelo sol das savanas que percorria em organizados safaris fotográficos, de uma correcção irrepreensível, exibia a característica cicatriz de um duelo de estudantes da velha universidade de Heidelberga. Era o barão Werner von Alvensleben, sobre quem corriam em surdina, intrigantes mas pouco credíveis – o homem passara a guerra em Moçambique – lendas de envolvimentos conspirativos no golpe do coronel von Stauffenberg. A queda pró-alemã da Bibla devia-se certamente à influência da mãe, reconhecida pequena correspondente da Abwehr, a quem prestara serviços durante a 2ª Guerra Mundial, um segredo que toda a Lourenço Marques conhecera e comentara. Num ambiente citadino onde coexistiam comunidades provenientes de muitos países europeus, era normal conhecermos alemães, austríacos, polacos, ingleses, gregos e italianos, que se somavam aos chineses e aos que chegaram do antigo Raj britânico da Índia, fossem eles hindus ou muçulmanos.

Vivíamos então na Rua Princesa Patrícia (de Saxe-Coburgo-Gotha), assim baptizada pela Câmara de Lourenço Marques, em memória da indigitada noiva de D. Manuel II que no início do século visitara a cidade acompanhada pelos pais, os Duques de Connaught.

A Bibla era uma mulher faladora e vistosa, com um certo toque a lembrar o exotismo sul-americano dos filmes dos anos 40. Estava sempre bem vestida e sendo uma leoa da moda, pavoneva-se com os seus óculos escuros, grandes chapéus e a inseparável boquilha através da qual queimava cigarro atrás de cigarro. Sendo da idade da minha avó, jamais se rendera à passagem do tempo e mostrava uma independência ainda mais flagrante que aquela que seria normal, numa cidade onde as mulheres auferiam de um estatuto incomparavelmente muito liberal, se atendermos à bem diferente realidade que se vivia na Metrópole. Não era a única referência germânica na nossa rua, porque os vizinhos João e Tiki eram luso-alemães e até ao dia em que o pai foi transferido para o norte de Moçambique, foram a inseparável companhia de brincadeiras, idas à praia e refeições. Na esquina, vivia a família Fick – nome que era causa de risonho alarido entre a miudagem alemã, nossa amiga (1) -, cujo patriarca era o cônsul da Dinamarca em Lourenço Marques. Para cúmulo da felicidade, a senhora Fick era uma indiana muito generosa e sendo a dona de uma das mais conhecidas lojas de brinquedos – a Modelândia, situada numa rua entre a esquina do Continental e o John Orr’s -, regularmente presenteava-nos com carrinhos da Dinky Toys e da Matchbox, alternando-os com Lego ou construções Meccano. Sempre que lhe passávamos à porta e tínhamos a sorte de a encontrar, bem podíamos contar com guloseimas, um carrinho, uns soldadinhos medievais e uns anos mais tarde, as caixas com kits da Airfix.

Mesmo em frente da nossa casa, vivia a terrível Pauline Wilhelmine, uma mastronça holandesa, casada com o comandante Casaleiro Tavares, um excepcional fotógrafo amador. Aquela mulher era um furacão de actividade que infernizava as vizinhas e para azar de todas, presidia a uma organização denominada Infância Desvalida. Obra sem dúvida benemérita, servia de motivo para entradas de rompante em casa alheia, com irrecusáveis pedidos de assistência que no que à minha mãe se referia, invariavelmente significava ser “cravada” com desenhos, pinturas, painéis decorativos ou bolarias e pasteladas para festas de beneficência. Pedinchava, ou melhor, berrava encomendas “para logo à tarde” e de uma forma tal, que era por toda a vizinhança considerada como uma ex-kapo que escapara ao serviço algures na frente leste.

Aparentemente inofensivos, eu e o Miguel desde cedo aprendemos a vingar as afrontas de que todos se queixavam, mas sem reagirem como deviam. Espertinhos, por vezes telefonávamos para uma dúzia de praças de taxis, encomendando duas viaturas para a casa da Sra. Dª Pauline que sendo criatura sobejamente conhecida, dispensava a anotação de morada. O que meia hora depois sucedia, era um espectáculo digno do Casino de Monte Carlo em dia de festa. Quatro, seis, oito, dez, doze, catorze, vinte taxis iam chegando e estacionando à porta da rembrandtiana senhora. Protestos, gritarias, “saguates” (2) desculpabilizantes com muitos kanimambos (3) pelo meio e tudo regressava à pacatez habitual. Entretanto, por detrás das janelas do quarto dos nossos pais, estourávamos de tanto rir.
Outra memorável façanha, consistiu numa imponente encomenda feita ao restaurante Os Lisboetas. Imitando a voz aflautada de uma das inúmeras colaboradoras de Pauline, lá fizemos chegar um serviço completo para trinta pessoas. Costumeira organizadora de cházadas destinadas à obtenção de fundos – com rifanço e tômbolas incluídas -, a ribombante holandesa era uma senhora perfeitamente fiável e encomenda feita, era encomenda rigorosamente cumprida, tal era o medo que infundia. Uma vez mais, foi uma procissão de rapazes que carregavam bandejas atafulhadas de pãezinhos de leite com fiambre e queijo, rissóis, croquetes, pastéis de bacalhau, bolas de Berlim com jam de morango, bolinhos e bolões de vários cremes, feitios e tamanhos, bebidas à farta e tudo o mais necessário a uma festarola sundown. O engraçado disto tudo, é que a batava jamais desconfiou daqueles dois miúdos tão bem comportados e inocentes. O que gozámos, esperneando no chão e gargalhando até chorar!

Mas nem todos eram barões resistentes e partidários do Kaiser Guilherme, alemães que “chegaram para refazer a vida” após 1945 – e que vinte anos passados, ainda trauteavam o Horst Wessell Lied -, holandesas doidas, ou perdulárias donas de lojas de brinquedos. Na esquina com a Massano de Amorim, existiu durante algum tempo e mesmo diante da residência dos Fick, uma daquelas casas de visita particular (4), onde os convivas estacionavam os automóveis a uma prudente distância e entravam apressados, de cabeça baixa. Era um fri-ó-fró contínuo, fosse a hora que fosse e isto durou algum tempo, até ao momento em que os turistas ocasionais iniciaram aquele percurso sem retorno e que faz falir os melhores negócios da Terra. Começaram a bater em erradas portas, tendo alguns o topete de pura e simplesmente entrar nas residências de toda a vizinhança. Bons tempos aqueles, em que uma porta de rede anti-insectos bastava para delimitar a privacidade familiar. O escândalo foi sempre em crescendo e um abaixo assinado surgiu, sem tumultos ou palavras menos próprias. Na Polana não existia margem de manobra para ordinarices que acentuassem o problema do momento. Em conformidade com a situação insurreccional, as meninas decidiram partir para outra base de acção e a calma regressou à zona.

A Rua Princesa Patrícia era uma artéria ideal para quem vivia na parte alta da cidade, ficando relativamente a pouca distância de tudo o que podia interessar às crianças. A Escola Primária Moreira de Almeida, mesmo ao lado da igreja de Sto. António, onde participávamos no grupo coral. O quartel da Rua de Nevala, onde fazíamos a vida num inferno aos soldados de plantão na porta d’armas, passando diante deles sem cessar e obrigando-os a fastidiosas apresentações de Mauser. O Parque José Cabral – hoje destruído -, situado no início da Massano de Amorim e onde brincávamos, comíamos merendas trazidas de casa e organizávamos corridas de bicicletas.
Noutra direcção, dez minutos bastavam para chegarmos à Associação dos Velhos Colonos – Av. Pinheiro Chagas, normalmente conhecida por “pinheiro-choques” -, onde muitos miúdos aprenderam a nadar. Saindo da aula, corríamos à Pastelaria Princesa, saciando a fome com umas arrufadas quentes ou as populares bolas com jam. Toda a nossa vida decorria em torno de um eixo mais ou menos amplo e era perfeitamente normal deslocarmo-nos sem os pais para a zona da praia do Dragão, ali ficando algumas horas desfrutando as quentes águas da baía do Espírito Santo. O regresso consistia sempre num problema, porque tínhamos de escalar as Barreiras, bastante íngremes e que pareciam sempre intransponíveis, tal era o cansaço da praia.

Fomos crescendo e a passagem da primária para a escola secundária, conferiu-nos um ainda mais amplo campo de acção, não sendo raro aventurarmo-nos a pé até à Baixa, onde passávamos umas horas a “ler à borla” na Livraria Coop ou na Spanos, estabelecimento da R. Consiglieri Pedroso, sempre a abarrotar de revistas. Bons oportunistas, às cinco da tarde íamos visitar o nosso pai à saída do serviço, na Praça Mac-Mahon, já contando em ferrar os dentes nos suculentos pregos do Djambo, acompanhados por uma gelada Coca-Cola média. É claro que não dispensávamos uma desnecessária e distraída passagem pela Rua Araújo, bem conhecida pelos botequins e bares de pêgas, sempre a abarrotar de marafonas de todos os tipos, soldadesca, exemplares pais de família e sul-africanos esfomeados daquilo que lhes era interdito na pátria do Apartheid. Era este um passeio clássico, até ao dia em que um bufo da Sonap (5) nos denunciou ao nosso encavacado pai.

Continuo a percorrer aquelas avenidas, a entrar nos quintais das casas dos bisavós, avós, tios, primos, vizinhos e amigos. Do alto do espaço, o Google Earth proporciona-me esses pequenos prazeres e para isso, basta-me teclar o velho nome do local que quero visitar. Apenas uma dúvida: como se chamará hoje a Rua Princesa Patrícia? O Google Earth desconhece a novidade.

(1) Fick, em alemão: f….

(2) Saguate: recompensa, gorjeta

(3) Kanimambo: obrigado

(4) Muito a propósito situada diante da residência da família cujo nome era Fick (f…)

(5) Sonap: Sociedade Nacional de Petróleos, precursora da actual Galp

Comments

  1. Carlos Loures says:

    Nuno, tem aqui, potencialmente, um romance. Nunca estive em Lourenço Marques; há dez anos, passei quinze dias no Maputo, em viagem de trabalho. Alguns dos meu colegas conheciam a cidade dos tempos coloniais e estavam surpreendidos com a degradação a que tinham deixado chegar a Baixa. A parte desenvolvida era a da Avenida Julius Nyerere, onde aliás ficava o nosso hotel – embaixadas, bons restaurantes, hotéis – o magnífico Polana… Mas com sessões de trabalho a começarem às 8 da manhã, não me ficou muito tempo para passear. Fiquei com a ideia de que deve ter sido uma cidade muito bonita.

  2. Nuno Castelo-Branco says:

    e aquela gente é óptima, sempre a sorrir. Pelo menos, é assim que me lembro dos moçambicanos.

  3. Carlos Loures says:

    Sim, gente muito simpática e com aquela educação que não se aprende nos livros nem em aulas de etiqueta. Fiquei encantado.

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