Lautaro

Parece uma lenda mas é uma verdade que não se duvida. Duvidar da existência de Lautaro, seria duvidar da forma heróica em que se defenderam os Mapuche do Chile da sua habitual liberdade. Bem sabemos que o Chile foi a derradeira colónia organizada pelos conquistadores hispânicos, na hoje denominada América Latina.

Como tenho referido foi fundada por Pedro de Valdivia apesar de ter ser descoberta antes por Diego de Almagro em 1535. Mas achou o país pobre e perigoso e não tinha as riquezas em ouro que ele pensava encontrar. Bem se sabe que estes espanhóis não eram soldados andavam a pilhar. Valdívia não, era de profissão soldado do Rei da Monarquia Espanhola. Sabia o que fazia.

Após fundar Santiago em 1542, começou excursionar o país e nada conseguia ver.
Estava habitado maioritariamente pela etnia Mapuche, que sabia bem andar dentro do mato sem fazer barulho, espertos em espionagem, mentir se for preciso. Mas, também tinham medo, especialmente ao verem aparecer entidades de quatro patas, duas cabeças que não andavam, corriam, sem parecer cansar-se.
O filho mais novo do chefe tribal da área da hoje Santiago, Curiñancu ou Negra Aguila, teve curiosidade e começou a pesquisar entre estas coisas.

Era apenas uma criança, donde permitida e apadrinhada pelos brancos ou huincas ou estrangeiros na sua língua, como já sabemos. Vivía uma vida normal de menino mapuche, sempre a brincar a guerra e a preparar-se para a defesa de ataques e pilhagens não esperados de outros clãs. Não tinha 11 anos quando foi feito prisioneiro por Valdívia perto da hoje cidade de Concepçión, fundada por Valdivia em homenagem a Nossa Sanhora da Conceição. Foi levado a Santiago, já capital nesse ano de 1546, ano em que Levtaru ou Leftaru, o Lautaro em Castelhano, foi feito Yanacona ou carregador de pesos pesados para transportar esse imensos canhões que as tropas invasoras levaram consigo por caminhos ainda nem desenhados da pequena colónia do Chile.

Passou a ser pajem de Valdívia e foi nessas lavores, que aprendeu que as temidas entidades eram seres humanos como ele e que o resto, eram duas coisas diferentes o cavalo e o cavaleiro que o montava.
O Capitão Espanhol Marcos Veas teve simpatia pelo rapaz e lhe ensinara a andar a cavalo, a ler e escrever e como tratar dos animais para a guerra. Foi com Veas que aprendeu o uso das armas e tácticas de cavalaria.

Todo era observado por Lautaro, baptizado como cristão com o nome de Felipe, quem perdera o medo ao cavalo, era um bom cavaleiro e a pouco e pouco, começara a transferir cavalos novos e armas para o seu lonco. Com grande segredo e sem dizer nada a ninguém.

Nas batalhas de Andalién e de Penco, perto de Concepción, a primeira a 22 de Fevereiro de 1550 e a segunda a 12 de Março do mesmo ano, lutou junto aos espanhóis para aprender as suas tácticas de de guerra e movimento de tropas. A luta de Lautaro era para aprender e defender aos seus, porque bem sabia ele que Valdívia capturava gente do seu povo, cortava os seus braços e mãos para no serem atados por eles e para os manter prisioneiros. A fama da crueldade castelhana era imensa, até o ponto de libertar grandes grupos de prisioneiros mapuches para tornarem aos seus loncos sem um braço, sem mãos ou sem língua.

Os Mapuche não tinham medo dos espanhóis mas crueldade dos seus capitães os tornaram furiosos e com raiva sem defesa contra os mesmos.

Foi Lautaro que, ao fugir após a sua aprendizagem dos hábitos espanhóis e tácticas de guerra, ensinara aos Toqui reunidos com os seus capitães Paicaví, Lemo Lemo, Lincoyán,Tucapel e Elicura hoje em dia todos nomes de rua ou cidades, que reuniam para saber como se defender dos castelhanos. A aparição de Lautaro e o seu ensino das tácticas castelhanas aos seus Loncos, fizeram que fosse elevado ao hierarquia de Toqui ou chefe máximo dos Mapuche organizados em milícias para tempo de guerra e que fosse ele a comandar as tropas Mapuche divididas em vários sítios do Sul De Santiago, aprendendo esses antigos preguiçosos como lutar em grupos organizado e não em peloteras ou pelote em português, com ciladas e enganos, como está narrado no poema épico La Araucana, de Alonso de Ercilla y Zúñiga, de 1568. Canta os louvores de Lautaro e o define como o mais calmo, bem informado, excelente guerreiro, que soube derrotar aos muito envergonhados castelhanos em várias batalhas. Em 1558 levantou uma grande sublevação contra os hispânicos, na que morrera a maior parte dos invasores que andavam pelo Sul da Colónia, hoje as cidades de Valdivia e Bio Bio. Em 1553 livra-se a batalha de Tucapel, Valdívia é feito prisioneiro e foi morto como ele matava aos Mapuche, relatado antes por mim num texto anterior: o próprio Lautaro organiza um grupo bem treinado e armado, encurrala a Valdívia, o conduz a um Conselho de Loncos onde é julgado e morto na já relatada picanha, esse pau que entra no corpo nu e pelo peso do próprio, vai entrando até lhe causar a morte após horas,de sofrimento atroz: os Lonco aprenderam essa forma de matar, dos castelhanos. Mas, como relata Ercilla Valdivia teve um julgamento conforme os hábitos espanhóis: tribunal, acusador, defesa, testemunhas, durante muitos dias, até a condena a 24 de Dezembro de 1553. Após julgamento e morte, os Mapuche arrasaram Concepción e Valdivia duas vezes. Francisco de Villagra toma o mando e organiza várias batalhas perdendo em todas elas. Já calmos e tranquilos, as tropas de Lautaro, casado com Guacolda, decaem e tomam férias Villagra, conhecedor das tácitas Mapuche , as usa e em 1557, surpreende a Lautaro, e sem julgamento, após feroz batalha, o mata com a espada de Valdivia, entra à Mapuche a sua ruca, palhota em português, e grita: Aqui espanholes, que Lautaro está morto. A batalha continuou os Mapuche foram mortos e os espanhóis sem o chefe de guerra viva, perdem o medo e começam a matar e escravizar a torto e direito.

Houve, a seguir, outros heróis Mapuche, como Caupolican, mas morte este, educado por Lautaro, os Mapuche acabaram com as agressividades para empurrar fora da sua terra, aos invasores… Guerra perdida até o dia de hoje, como já sabemos. Lautaro foi o herói Mapuche: nenhum como ele. Os Mapuche precisavam de lideres, mas mortos Lautaro e Caupolicán, Passaram a ser tratados como escória humana… até ao dia de hoje.

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