Ser estrangeiro

Normalmente referimos o conceito de estrangeiro, quando mencionamos um ser humano que não é da nossa nacionalidade, uma pessoa que não é da nossa cidadania, que não tem os mesmos direitos que os outros nascidos dentro de uma mesma Nação.

Quem leia este texto, está, certamente, a pensar que defino pela negativa. Pela positiva, seria: estrangeiro é um cidadão de outro Estado ou Nação, que visita a nossa.

Contudo, esta ideia não me satisfaz. Há inúmeros estrangeiros, até dentro do nosso Estado, referidos como nossos compatriotas. Mas o conceito, ou a prática que lhe está associada, é mais subtil. Pode ser estrangeiro dentro da sua própria terra quem se comporta de maneira diferente dos seus. Não podemos esquecer que vivemos dentro de países de diferentes classes sociais.

Cada classe tem hábitos e costumes que as qualifica. Normalmente, há a classe dos que tudo têm e alugam força de trabalho entre aqueles que possuem apenas os seus braços e família para ganhar a vida. Esta última situação passou a ser a forma mais habitual de se ser estrangeiro. As pessoas são tratadas hierarquicamente, pelo nome e por tu. Se é de um grupo de posse, as pessoas são tratadas com reverência e simpatia. Especialmente se provêem de Nações poderosas, se são educados em colégios ou universidades privilegiadas, são, então, tratados com respeito, cerimónia e ouvidas como se falassem uma linguagem especial.

No meu caso pessoal, sinto-me estrangeiro porque tudo o que faço, parece estar desalinhado com as formas, que nunca mais consigo aprender, nacionais de ser; porque a História nunca mais é aprendida, porque falamos com sotaque ou temos horários diferentes e hábitos não definidos dentro da cultura do país que visitamos mas, às vezes, como é o meu caso, dão-nos a grande honra da concessão da cidadania.

Mal se habituam os seres humanos às nossas formas pacatas de comportamento, mal aprendem tudo de nós, deixam-nos abandonados, o que significa que devemos encontrar uma outra maneira de viver.

Ser estrangeiro é quase um delito: somos sempre corrigidos, sem esse apoio simples que se diz numa curta frase: “Caramba, estás a progredir imenso, sabes escrever, o teu sotaque é mais leve e pareces ser uma pessoa gentil”.

Digo isto apenas por um motivo: nestes últimos dias ganhei uns pequenos puxões de orelhas, desde o Aventar até a pessoas da minha mais íntima solidariedade. Devia estar habituado: filho de estrangeiros, nascido num outro país e criado em países diferentes, com descendência em várias partes do planeta, ser estrangeiro passou, para mim, a ser uma forma de comportamento natural que me redime das faltas à cultura do país de acolhimento, Portugal.

Sinto-me e sou diferente, mas sou tratado com respeito até pelas pessoas que puxam as minhas orelhas. Como e porquê? Porque não me zango, não está no meu vocabulário e, estou certo, porque tenho passado a ser um igual a todos, mais um nacional português, o que agradeço.

Puxão de orelha é aqui entendido como uma amabilidade de sermos bem tratados. O que era novidade em mim, passou a ser nacional luso.

Agradeço esta deferência de ser um estrangeiro luso dentro de Portugal.

Comments

  1. Raul Iturra says:

    Escrevi este texto não apenas para definir um estrangeiro, bem como porque este dias tenho levado, sem motivo que eu entenda, “puxões de orelha” de pessoas da minha amizade e intimidade e do meu carinho. Entendo que não é nada alegre, mas a minha alma estaca triste e senti-me estrangeiro nesta quarta terra de acolhimento, no tempo exacto em que tento recuperar uma doença que mata. Como os leitores não têm porque saber das minhas “maleitas”, o texto de amanhã será diferente, como passaram a ser também os outros. Mas a solidão é má conselheira, diz o ditado castelhano que usam no Chile e que é traduzo livremente por me sentir um homem livre…

  2. Raúl Iturra says:

    Como português nascido em Portugal, gostei e lêr este texto. Este senhor, que foi estrangeiro que foi estrangeiro em ooutros países, é hoje em dia um estrangeiro muito especial por ter ferito durante 32 anos, baneficios ao nosso paía. É um bom dodente e tem um bom nome como Catedrático, no nosso meio adamêmico. Parece me merecer o nossso respeito.È pena que se sinta estrangeiro dentro do país que aaadoptou. Obrigado por ter aceite ser português….

  3. Raúl Iturra says:

    Queria advertir que quem secretaria os meus trabalhos Nuno Fernandes é a pessoa que escreveu, nas minhas costas, o comentário anterior. RI

  4. Malinovski says:

    O Professor Iturra nunca será estrangeiro em parte nenhuma do mundo porque ele é património da humanidade! Só poderá sentir-se estrangeiro porque a sua genialidade o coloca acima da maioria de todos nós.
    Faço votos para as suas sinceras melhoras dessa doença que há tanto tempo o transtorna e o priva do convívio diário com os seus amados alunos.
    Só espero é que não aconteça o que ouvi dizer hoje: que vão acabar com a Antropologia no ISCTE. Não é admissível que o melhor curso de antropologia do país e um dos melhores da Europa e do Mundo acabe assim, nem que seja por respeito ao Prof. Iturra aos poucos que, com ele, o criaram e o desenvolveram, com sangue, suor e lágrimas.
    Bem haja, grande e eterno Mestre, absolutamente imortal e jamais estrangeiro, porque a sua Pátria é a Humanidade inteira, que soube amar e ensinar tantos outros a amar.

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