Desabafos de um português lisboeta

Se fosse o inverso, manifestaria igual repulsa. Preocupa-me a coerência.

Episodicamente mas de forma ofensiva do conceito de justiça,  a mistificação de que Lisboa e naturalmente os  naturais da capital  dominam o País é mesmo isso, uma mistificação, de uso fácil ao utilitarismo populista e ao jeito de quem utiliza a vitimização como arma – de Pinto da Costa a Alberto João Jardim. Do futebol à política.

Há múltiplos exemplos histórico-políticos da falsidade do pressuposto: Salazar, de Santa Comba Dão, companheiro e amigo do Cardeal Cerejeira (Vila Nova de Famalicão), é uma das múltiplas e penosas provas: 48 anos é muito ano! Cavaco veio da algarvia Boliqueime e governou o País durante uma década. Depois veio o lisboeta de Santos-o-Velho Guterres, com genes da Cova da Beira (Donas), seguindo-se Barroso (Nascido em Lisboa) mas reclamando raízes transmontanas. Sócrates, que a seguir nos calhou em sina , nasceu no Porto, mas toma os  afectos de Vilar da Maçada (Vila Real). Hoje temos um Coelho, conimbricense de origem, mas infante em Angola – Silva Porto e Luanda.

Naturalmente, que os meus desabafos são a eclosão de uma acumulação de sentimentos. Em síntese, ser, como muitos outros lisboetas, alvo da irracional sentença de que muitos dos problemas do País têm como origem Lisboa  – e implicitamente os lisboetas.

Leiam e estudem a História do Século XX do País, analisando as origens das proeminentes figuras nacionais. Concluirão facilmente que parte substancial dos protagonistas nos chegam à capital,  a falar “axim”, a pronunciar “De Famalicon, carago!” ou a perguntar “ma que jêto tem tem?”. Salvam-se esses alentejanos d’um c….., cujo humor e a sabedoria sobrelevam o cinzentismo do todo nacional. Não casual a afeição de Vergílio Ferreira ao Alentejo, Évora em especial.

Toda esta história vem a propósito de ‘tachos e arranjinhos’, do tipo desta  em que um portuense, Artur dos Santos Silva, homem da banca como o anterior, substitui o também o natural do Porto Rui Vilar na Presidência da Fundação Calouste Gulbenkian, fundada por esse beirão anti-fascista destemido, José de Azeredo Perdigão – figura louvável e distante de ‘faits divers’-

Chega-se a um ponto em que não há pachorra para pretensos ataques à periferia, à moda germano-francesa. E Portugal sempre foi, e continua a ser, um país manipulado segundo os interesses  de uns quantos, poucos e poderosos, monárquicos ou republicanos, a cuja autoridade, nem sempre legitimada, a maioria do povo está vergada. Umas vezes por gente de lá de cima, outras de cá de baixo. Safa-se quem sabe actuar nos bastidores do ‘alto teatro’. Mesmo que se trate de um ‘brochado’ de 70 anos. Os mais novos, alunos ou professores, do Norte e do Sul, que emigrem!

Comments


  1. Pois! Se fossem os alentejanos a mandar não estávamos nesta moenga!


  2. Cerejeira nasceu em Lousada (concelho de VN Famalicão) em frente à linha do comboio;
    Salazar cresceu a menos de 500 metros da estação de Santa Comba Dão (Beira Alta).

    Era natural que surgisse uma férrea ligação entre ambos.


  3. Eu perguntava-lhe se já fez contas ao dinheiro europeu destinados a projectos em todo o país que já foram desviados para Lisboa, incluindo do metro do Porto, dando a última ronda direito a processo no tribunal europeu.
    Mas façam lá de conta que uma empresa média não tem que ter sede em Lisboa que a gente faz de conta…


    • Sendo nado e criado no Porto, sou um grande apreciador de Lisboa, como cidade e da sua gente onde tenho bons amigos. A divisão note-sul é artificial (basta ver Barcelona-Madrid) aqui ao lado e ir por essa Europa acima. Mas o parolo não sou eu, és tu! Alguém reclama da Expo que revolucionou a relação de Lisboa com o rio, do CCB de tudo o mais que existe em Lisboa. O metro do Porto tem custos? Tem sim senhor. A Casa da Música ultrapassou brutalmente o orçamentado? É verdade. Agora dá-me uma boa razão para uma empresa média não poder ter sede no Porto. É que aqui há aeroporto, linha férrea e porto-de-mar. E se fores sério saberás que foi maior o dinheiro destinado às regiões desviado para projectos Lisboa do que o contrário. E passar bem, que estas polémicas regionalistas já metem asco.

    • Carlos Fonseca says:

      Caro Nightwish,
      Reconheço que Lisboa tem sido privilegiada no financiamento de projectos; mas, quase sempre decididos por políticos de outras paragens; alguns deles, mais tarde ou mais cedo, vêm a colher frutos das obras que incentivaram. Ferreira do Amaral na Lusoponte, Jorge Coelho na Mota-Engil, a trupe do BPN com Dias Loureiro, Oliveira e Costa, Arlindo Carvalho e Daniel Sanches. Não falando do favorecimento de empresas. Grupo do BCP, banco com sede no Porto, com a edificação do CCB.
      Reconheço que talvez não tenha sido feliz na forma como expressei os meus desabafos, mas pode crer que, acima de Lisboa, preocupante para mim é, de facto, ver um interior do País, economicamente paralisado e demograficamente envelhecido.
      O que me revoltou, no fundo, é saber da nomeação de um homem de 70 anos para a Gulbenkian, quando, por outro lado, se sugere que portugueses mais jovens, válidos e qualificados emigrem.


      • Caro Fonseca,

        Suponho que o seu comentário seria relativamente à minha observação e não à do Nigthwish. Quanto à sede do BCP no Porto é uma falácia porque todo o seu corpo de administração está em Lisboa. O que ficou foi por razões meramente de tradição do extinto BPA e nem a DERRAMA aproveita grandemente ao Porto. Quanto ao envelhecimento do país estou completamente de acordo consigo. E confesso, que não me choca que Artur Santos Silva seja nomeado administrador da Gulbenkian. O respeito pelo “anciãos” e pela sua experiência de vida impede-me de me opor a tal.

        Cumps,
        FL

        • maria celeste d'oliveira ramos says:

          Fernando Lopes – Pois depende do tipo de “experiência” sendo que os mais safardanas têm esperiência que se farta e os que “entram” depressa “melhoram” a experiêmcia dos que saem
          Metam gente nova que por não querrem aqui mais experiências destas se vão “abroad” – tragam esses que tão bem aceites são e tam que esta semana até uma portuguesa investigadora “láfora” foi premiada com um milhão da UE para continuar e está na Suissa e queiz voltar mas não tem aqui o que tem lá
          Quem passa carta de chamada para emigrante aos que estão aqui amais e com experiência a mais ??


          • Maria Celeste,

            Não discuto que haja gente nova com muito mérito. Estou plenamente de acordo consigo. Mas também não acho que por se ter 70 anos se deva ser excluído da vida pública como se de um traste se tratasse. Isto não é uma guerra geracional ou norte-sul, há pessoas válidas de ambos os lados. Está provado, mesmo em termos empresariais, que o cocktail novos e mais velhos, lado a lado e não uns contra os outros, é o mais eficaz. E eu estou na fronteira, ainda não cheguei à meia-idade, mas também estou longe de ser jovem, o que, eventualmente, me permite ter um olhar mais distanciado sobre esta(s) problemática(s).

            Cumps,
            FL

  4. Almeida Alves says:

    o problema não está na origem dos serventuários ocasionais. o problema é este: o dinheiro do país cai por gravidade em direcção a lisboa e lá fica. digam-me lá: como é possível que a região de Lisboa sem nenhum poço de petróleo, com escassas indústrias exportadoras, e com um défice comercial de 70%, seja a região mais rica do país tendo inclusivamente um nível de vida superior ao da média europeia?

    • Tiro ao Alvo says:

      Tem toda a razão, amigo. A malta que está em Lisboa e arredores, natural daí ou de cascos de rolha, não quer ouvir falar disso, e há sempre gente a defendê-la. Parece impossível, mas algumas dessas pessoas até residem em zonas fortemente prejudicadas pelo centralismo na capital. Mas é verdade.

    • maria celeste d'oliveira ramos says:

      Como a água distribuída por canalizações manhosas de tubagens chias de cotovelos, no seu percuro perde-se 450% dessa coisa preciosa até para lavar nódoas da alma pelo que extrapolo que os dinheiros recebidos em lisboa se calhar são como a água – que se vai perdendo no caminho


  5. Mau caro Carlos Fonseca,
    quando tentar defender a sua dama, pelo menos nos argumentos seja linear e certeiro.
    Se o Salazar nasceu em Vimieiro, uma das freguesias de Santa Comba Dão, o Cerejeira em Lousado que é também uma das freguesias de Vila Nova de Famalicão e o Cavaco tenha vindo de Boliqueime, uma das freguesias de Loulé, porque raio é que o lisboeta Guterres é tido como tendo genes da Cova das Beiras, ou o Sócrates, que como muitos outros veio nas cer ao Porto e como tal seu natural, tem a ver com a macrocefalia lisboeta?
    Nunca vi ninguém acusar os lisboetas de serem seja lá o que forem, acusam todavia os mouros, os que se fazem passar por tal tendo nascido em terras que nem o demo se lembra, aliás, numa dessas muitas pobres conversas a que assisti em Lisboa, trocavam-se bitaites entre os lisboetas e portuenses degladiando-se argumentos e arrimando-se pedras, algumas de encher o olho.
    Para acabar com a letra, resolvi perguntar aos presentes onde tinham nascido, seríamos aí à volta de uns trinta e poucos, o curioso é que entre tantos dótores, jornalistas, formadores, chefes e chefezinhos se veio a descobrir que dos cinco nortenhos quatro eram do Porto, cinco que optaram alternadamente por uma e outra fação eram gente vinda de Coimbra, mas nascida em lugares tão distantes como Montalegre e Serpa à exceção de um que vinha de Mogofores, os restantes que se intitulavam lisboetas (seriam à volta de duas dúzias) só um era lisboeta (creio que da Bica), e que por sinal era a senhora que distribuía o café e não fazia parte de tão distinta assembleia, o resto viera tudo de outros lados, desde o Algarve ao Minho, sendo um dos mais ferrenhos “lisboetas” nado e criado em Arouca, estudante no Porto, e tendo iniciado a carreira em Vila Nova de Gaia por onde andou largos anos.
    Curioso esse personagem, pois foi um dos mais fanáticos “lisboetas” que conheci em toda a minha vida e não perdia pitada para desmoronar fosse que ideia fosse que lhe chegasse via cidade do Porto.
    Que é que isto tem a ver com as competências quer de Rui Vilar, quer de Santos Silva, não sei, mas concerteza me esclarecerá.
    Já agora e para que fique sabendo, o BCP tem sede no Porto porque os bancos que lhe deram origem também a tinham e os custos envolvidos não eram suportáveis para justificar a mudança, mas nunca esse banco teve a administração no burgo, pois sempre a teve na velha baixa lisboeta.
    Talvez a sua recomendação para lermos a história o leve a ler a do Artur Santos Silva, que neste pobre país é um dos poucos beneméritos ativos da arte e da cultura em Portugal e muito tem feito em prol da mesma.
    Ao seu enorme empenho e dedicação a cidade do Porto culturalmente muito lhe deve, talvez ele tenha também achado que valerá ir a Lisboa dar uma mãozinha agora que a cultura está entregue a quem terá muito pouco a oferecer.

    • Carlos Fonseca says:

      Caro Teófilo M,
      Tenho a humildade de confessar que o meu ‘post’ não foi feliz. Talvez a entorse se deva a uma discussão, tida na tarde de ontem, em que fui implacavelmente acusado de ser lisboeta e privilegiado. Depois veio o episódio Santos Silva e disparei.
      Sou lisboeta, filho de lisboetas, e como muitos outros, às vezes somos esmagados por um regionalismo bacoco, em que, todavia, desta vez também me deixei enredar.
      Ficou claro?
      PS: Entretanto, já citei a condição de lisboeta de Guterres, natural da frequesia de Santos-O-Velho.


      • Caro Carlos Fonseca,
        o regionalismo bacoco deve sempre ser combatido do mesmo modo que devemos combater as assimetrias regionais.
        Aí reside um dos grandes e graves problemas deste pequeno-grande País.
        Um Bom Natal para si.

        • Carlos Fonseca says:

          Caro Teófilo M,
          Completamente de acordo.
          Retribuo, com sinceridade, votos de Bom Natal.

  6. maria celeste d'oliveira ramos says:

    Ai ai tantos “combatentes” do reginalismo bacoco como se vê pelo que deu o regionalismo financeiro (o melhor exemplo da Madeira para fazer da Ilha um queijo suisso) e não vi ainda nada de especial pela “província” com as autarquias verdadeiros conjuntos (dijuntos) de tanta gente que nem sei para que serve, cópia fidedigna de governo central que, faça bem faça mal, é sempre alvo dos proviícios que nada fazem desde que faço milhares de km/ano por todo o país, incluindo aldeias (olhe vá visitar Trebilhadouro e a examplar Arões a não ser que não saiva onde fica) havendo locais que nem saneamento básico têm, mas querem +++ IP – não vi desde eata minha peregrinação pelo país desde 1999 fazer nada a não ser “rotundas”, autarcas que caçam milhões e andam de avião e de topos de gama (se calhar também com o respectivo chauffer)
    Boa regionalização que em tudo imita o que há por aqui de mais condenável – porque nao discutem a agregagação das Freguesias que acho que é matar a semente original do povoamento e urbanismo, em vez deste combate de palavras e, além disse, a “província é laranja” e assim, porquê então tanto ataque a Lisboa que até parece quando Pinto da Costa dividiu o pais norte sul e que perdura pelos vistos, e agora é o que dá – promiscuidade futebolística – ai Felgueiras e outros exemplos – deve haver por aqui e poa aí, muitos cidadão que deviam emigrar (mas se calhar nem isso conseguem) já que consta que emigram dos “melhores” e que nem tempo têm para colaborar nestas conversas do bota abaixo ,ofensivas e palavrosas – como afinal se “time não fosse money” e por mim é, mais precioso do que money já que o money tem sido para roubar e desbaratar e colaborar nos vários endividamentos que agora se vêm ao sol – em que universidade estudou ?? não lhe ensinaram português normal nem a ter maneiras – vícios privados virtudes p+ublicas – pois sr lutador lute por um bocadino melhor começando por si

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