Paulo Ferreira, o “Homo Pingusdulcis”

A minha passagem pela catequese, mesmo depois de abandonar a Igreja, e a escolha de ideais de esquerda, mesmo sem frequentar nenhuma das suas igrejas, fizeram de mim um crente na solidariedade como pilar da sociedade. Não partilho, portanto, do entusiasmo marialva na sociedade como selva competitiva, repugna-me a imagem do homem predador do homem e tenho a mania de que é importante conceder direitos aos cidadãos, em primeiro lugar, porque é humano, e, depois, porque isso contribui para a paz social e para a produtividade.

Acredito, de qualquer modo, que são vários os caminhos para se chegar a estes ideais e não me custa acreditar que, para isso, o bom senso bastaria, sendo dispensáveis ideologias ou religiões.

Nos últimos anos, os governos têm-se caracterizado por uma subserviência ao poder económico, com os cidadãos reduzidos a números e os direitos básicos transformados, retoricamente, em privilégios inaceitáveis, criando uma regressão brutal da democracia e contribuindo para a bestialização das pessoas, acossadas pela supressão de rendimentos e de segurança, supressão defendida no discurso das “inevitabilidades” sempre presentes na voz de papo do primeiro-ministro e nos textos másculos de alguma opinião publicada.

Paulo Ferreira, subdirector do Jornal de Notícias, escreve, hoje, um texto em que elogia a acção de marketing do Pingo Doce e descobre na corrida desesperada às prateleiras uma reacção saudável dos consumidores à retórica dos sindicatos.

Nas mesmas imagens, apenas consegui ver, de um lado, um potentado económico que se limitou a explorar as fragilidades de trabalhadores e consumidores, e, do outro, uma multidão assustada e embrutecida por agressões constantes.

Paulo Ferreira é um dos muitos opinantes maniqueístas que vive fascinado com a luz que emana da macroeconomia, esse planalto donde é possível ver à distância os cidadãos como se fossem formigas, o alimento favorito do Homo Pingusdulcis.

Comments

  1. maria celeste ramos says:

    Concordo com o que é escrito – venho do mesmo passado cultural


  2. Interessante como os “consumidores” e trabalhadores precários se combateram entre si em vez de se unirem e saquearem as lojas no meio da confusão!
    Fosse em Londres ou na Grécia…

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