Carta do Canadá: Fugir ao dever

Que o pagar é certo,  diz o nosso povo.  E diz muito bem, como se verá adiante.
De vez em quando vou a Otava, a capital federal do Canadá, uma cidade pequena, com dois rios, toda rodeada de árvores e parques,  harmoniosa e linda, silenciosa e calma, que se destina a albergar o parlamento e o governo, bem como as representações diplomáticas dos muitos países que mantêm ligações com o Canadá. Há ali duas prestigiadas universidades, a  Univ.de Otava e a Carleton.  Na primeira é professor de Sociologia  Victor Pereira da Rosa,  homem de grande sabedoria e honestidade, com vasta obra publicada. Na Carleton, formou-se em jornalismo Dale Brazão e ali foi pescá-lo The Toronto Star, um jornal generalista nacional que tem um milhão de exemplares de tiragem diariamente.  Brazão, que é algarvio e veio garoto para estas terras, especializou-se em jornalismo de investigação criminal e é um dos jornalistas mais premiados do Canadá. No Supremo Tribunal, é juíza Maria Teresa Linhares de Sousa, nascida na Madeira, a única pessoa de língua portuguesa na magistratura canadiana. Um número apreciável de luso-canadianos trabalha nos departamentos governamentais.
Há cerca de dez mil portugueses residentes em Otava. Tenho ali muito bons amigos. Todos eles, de todas as condições sociais, têm dupla cidadania e padecem de saudade. É por isso que ficam feitos num oito com as notícias vistas e ouvidas pela RTP.
Na última vez que fui a Otava almocei, como é dos livros, com os meus amigos. Os portugueses expatriados, quando se juntam, tratam de matar as saudades com cozido à portuguesa, feijoada, favas com chouriço, açorda de marisco  e outras comidinhas leves, diria mesmo românticas que, regadas a tinto lá da terra, fazem muito bem à alma.  Não fazem assim tão bem ao colesterol, mas não se pode  ter tudo. A conversa dura horas, porque a troca de informações é  abundante.
Desta vez, uma boníssima bibliotecária desabafou: “Eu até já vejo o futebol”.  Cortei o silêncio cúmplice dos  convivas com o meu depoimento: “Deixe lá que eu também. Agora já  sei quem é primeiro,segundo e terceiro na tabela. Sei, para além do Figo, do Ronaldo e do Pauleta, quem é o Nuno Gomes, o Sabrosa, o Coentrão, o Postiga, o Rui Patrício,e o resto.  Tenho simpatia pelo Paulo Bento e acho que o Jesus treinador sofre como um desgraçado. E tenho pena que o Mourinho não queira ser  Presidente da República, que era a maneira de os governos não porem pé em ramo verde. Sim, porque aquele não é nenhum verbo de encher”.
Num derradeiro arranque, confessei o resto: “Olhe, eu até já vejo os filmes do Manoel de Oliveira sem  dormir”.  É verdade, vejo todos os que passa um canal francófono da TV canadiana, de olhos em abertos para o amado Douro.
Compreenderão agora que eu tenha vibrado com a estupenda vitória da Académica. Adorei ver o Sá Pinto aos pulos. Quando dei por mim, estava a gritar: “Vá, Briosa, acaba-lhe com as farroncas”.  Até tive pena dos gatos,  assustados, coitados, que nunca me tinham ouvido tão alta voz.
A emigração é também uma espécie de recruta: é só aprender.  Ficamos afinados.  São os milagres da saudade.

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