O assalto ao subsídio de férias já começou

A história da democracia portuguesa é feita, entre várias hecatombes, da destruição do tecido produtivo em nome da obsessão de se ser considerado bom aluno, de desperdício de dinheiros europeus e da apropriação do Estado por dois ou três partidos para benefício dos filiados e amigos.

Os anos de Sócrates conseguiram aprofundar todos esses males, graças à total ausência de vergonha de um conjunto de figuras sinistras que empobreceu o país em todos os aspectos, nomeadamente através da multiplicação de Parcerias Público-Privadas, numa perspectiva de protecção contínua aos privados, esses amigos que estão sempre do lado certo do cartão partidário. Este é o país em que a culpa não morre solteira, é certo: entrega-se à prostituição.

O bando socrático explorou e aprofundou a má fama e a má imprensa dos funcionários públicos. Para pagar os calotes que criou em consequência de ter metido a mão na caixa registadora, culpou, exactamente, os funcionários públicos, ou seja, aqueles que eram obrigados a pôr dinheiro na caixa.

Inventaram, então, a generalização da improdutividade e publicaram, com a ajuda de meretrizes com cartão de jornalista, a ideia do parasitismo e dos salários excessivos. Depois, foi congelar as progressões na carreira, cortar nos salários, aumentar os impostos, para não falar no resto do assalto fiscal, ainda que disfarçado de taxas moderadoras, por exemplo.

Entre Passos Coelho e Sócrates existe uma única e verdadeira diferença: o primeiro não está em Paris. De resto, o actual primeiro-ministro respira de alívio porque o anterior abriu à catanada o caminho para a liquidação do Estado.

Por estes dias, os funcionários públicos experimentarão, pela primeira vez em vários anos, o retrocesso de não receber o erradamente chamado subsídio de férias. Trata-se de mais um roubo que não esquecerei, como não me esquecerei de nunca mais votar em gente que já deu provas suficientes de um latrocínio essencial.

Comments

  1. Miguel says:

    Está mal? Mude-se!

    Não deve é encontrar emprego fora da mama do estado.

    • António Fernando Nabais says:

      Coitado de si: na sua reacção “pavloviana” a qualquer queixa dos funcionários públicos, baralha-se e confunde as mamas. Vou explicar-lhe: é o Estado – ou quem dele de apropriou – que anda a mamar nos trabalhadores. Para cúmulo, anda a mamar em quem já não tem quase leite.
      De resto, você é o habitual espécime limitado pelo deslumbramento neocoisoliberalmarialvóide que pensa que só trabalha para o Estado quem não consegue trabalhar numa empresa.

      • Miguel says:

        Está muito enganado em quem é o coitado. Não é a mim que me roubaram o subsídio.

        Já estive numa empresa Portuguesa que me tentou fazer o mesmo. Já lá não estou. Sei o que valho e não admito que me tratem abaixo disso. Aconselho-o a seguir a atitude.Claro que para isso é preciso ser realmente bom. Mas se o é, o que raio está a fazer no estado?

        • António Fernando Nabais says:

          Pois, se é bom, não deve estar a trabalhar para o Estado; se está a trabalhar para o Estado, só pode ser mau. Logo, se trabalha para o Estado merece ser maltratado. Finalmente, se o Estado só deve ter funcionários incompetentes, mais vale acabar com o Estado. Tem razão: coitado sou eu, que vivo num país governado por mentecaptos como você, incapazes de sair de um pensamento circular.

          • Miguel says:

            Você não deu matemática na universidade. Se assim fosse saberia que as suas afirmações não se implicam dessa forma.

            Se você acha que um bom trabalhador deve estar no estado, é a sua opinião. Mas se lhe tiram o seu subsídio e você é impotente nesse aspecto, deixa de ser uma questão de opinião

            Chame-me mentecapto o quanto quiser, enquanto não deixar os outros decidir por mim não me importo de sê-lo.

            Lute homem, o estado não leva ninguém a bom porto.

          • António Fernando Nabais says:

            Não estudei matemática na universidade, mas a lógica não é um exclusivo das ciências exactas, é detectável nos discursos. Mais do que lógica, esta é uma questão ideológica: não é por ser funcionário público que defendo que os funcionários públicos devam ser bem valorizados, tal como qualquer trabalhador, aliás. O Estado deve estar ao serviço dos cidadãos, deve servir para compensar desequilíbrios. O problema, portanto, não se resume a “se o Estado não me trata bem, vou-me embora”, atitude puramente egocêntrica e, portanto, nada cívica. Lutar significa, então, não fugir. Sou funcionário público e considero-me competente, imagine. Não sou eu que estou mal. Lutarei, no mínimo, com palavras, para que o Estado se comporte como deve. O Estado deve-me dinheiro.

          • Miguel says:

            Deixe-me lhe dizer que concordo consigo. Não sou contra o estado, embora defenda que os bons devem estar fora, a produzir e exportar. Precisamos disso.

            No entanto não posso deixar de reparar que existe uma parte dos funcionários públicos que vivem sobre o estado. De algumas das minhas interacções com câmaras, autarquias e lojas dos cidadãos o serviço que recebi (principalmente em câmaras) não é aceitável. Existem sem dúvida bons funcionários, mas existem tb muitos que não têm hipótese noutro lado. Existe muita CUNHA e nota-se à distância quem por esta entrou. E infelizmente, pois n tenho felicidade em ter esta opinião, acredito que existem mais maus e cunhentos funcionarios públicos do que honestos e trabalhadores. E estes últimos são os que mais sofrem.

            O exemplo que dei da loja do cidadão fechar o dia 24 todo quando indicou que fechava apenas da parte de tarde foi menosprezado por você. ISTO FOI REAL. Mas eu continuo sem perceber o que se passou. Não sei se para si é normal, mas para mim foi um balde de água fria. Não pensei nunca que se chegasse a esse ponto.

  2. Luís says:

    Não sei o que é que me preocupa mais neste roubo!
    – Se a desculpa usada para o roubo baseada no estado de emergência do país, nunca declarado oficialmente por quem de direito, mas apenas sussurrado por “fazedores de opinião” alinhados com o regime!
    – Se a aprovação pelo cavaco desta inconstitucionalidade!
    – Se a atitude dos juízes interpretadores da constituição que, perante um caso da maior violação da Lei Fundamental até hoje visto, mantêm um estrondoso silêncio cobarde!
    – Se a passividade bovina de quem vai para o matadouro dos funcionários públicos que refastelados assistem sem reagir e sem indignação a este assalto ao produto do seu trabalho!
    Se …
    No entanto, para momentos de boa disposição, não falta a opinião do conselheiro e porta voz do cavaco, professor marcelo, que num momento de inspiração disse numa das suas pregações dominicais que, “relativamente a este caso a Constituição deve ser flexível”!
    Ou seja, deve ser usada conforme a vontade do freguês!!!!!!

  3. Miguel says:

    À dois anos atrás, faltei ao trabalho no dia 24 para ir à loja do cidadão. Já há uma semana que tinham colocado um papel a avisar que estariam fechados no dia 24 da parte de tarde.

    Não há problema, pensei, vou de manhã. Adivinhem o que aconteceu. Não abriram de manhã. Não consigo compreender o que se passou. O porque daquele aviso e o porque de não aparecerem. Simplesmente cagaram-se em mim e nos cidadãos que ali estavam comigo estupefactos.

    Devem-me esse dia de trabalho.

    • António Fernando Nabais says:

      E assim se demonstra que os funcionários públicos são uma cambada de incompetentes e de preguiçosos. Nada mais simples.

      • borges says:

        Que alguma coisa está mal , lá isso está. è como dizia um vizinho meu ” è uma casa sem dono cada um saca para si”

    • António Fernando Nabais says:

      Não menosprezo, de maneira nenhuma, o facto de lhe ter acontecido o que lhe aconteceu e não finjo que está tudo bem com os funcionários públicos. O texto é sobre o comportamento impróprio do Estado para com os funcionários públicos.

  4. fantasiaseperplexidades says:

    Como se não chegasse, temos o inefável Miguel Cadilhe a achar que ainda se pode cobrar mais 4% sobre a “riqueza” patrimonial. PQP, prontos!

  5. Edgar says:

    Ainda não vi uma única medida que não tivesse sido anunciada como indispensável para beneficiar … os que vão ser efectivamente prejudicados. A mentira e a manipulação não conhecem limites.
    Empobrecer para crescer!? Até este retrocesso civilizacional é para … garantir o crescimento e o progresso!?
    Só falta afirmar que temos de regressar ao fascismo para … consolidar a democracia.

  6. Jonh says:

    permitam-me algumas questões, o que é o «retrocesso civilizacional»? pobre é sinónimo de selvagem e perder os subsídios é perder a civilização? não ter dinheiro p/ tomar «piqueno-almoço» no café é o mesmo que não saber ler? falar de manipulação e mentira e usar este tipo de argumentos… depois a delícia: «se o Estado não me trata bem, vou-me embora”, atitude puramente egocêntrica e, portanto, nada cívica.» por oposição a «lutar» pelos «meus» direitos atitude essa sim do mais puro altruísmo cívico que tem na sua génese a preocupação pelo todo da sociedade. aliás é paradigmática a forma como os trabalhadores dos transportes na generalidade beneficiam com a sua «luta» o resto da população trabalhadeira. por fim o pior: a «máquina estatal» por muito que me custe, e no meu limitado entendimento, serve/serviu e muito p/ empregar «inempregáveis», ou seja, pessoas que face às cruéis «regras» de «mercado» teriam sérias dificuldades em obter/manter empregador.

    • António Fernando Nabais says:

      Um retrocesso civilizacional consiste, entre outras coisas, em perder direitos injustamente e, para cúmulo, ouvir, como justificação, chamar privilégios a esses mesmos direitos. O retrocesso civilizacional não precisa de ser um regresso ao analfabetismo ou à condição de caçador-recolector. Um retrocesso é um retrocesso.
      A luta pela recuperação de direitos pode ter, infelizmente, vítimas colaterais, se se fizer, por exemplo, através da greve, é certo. Por outro lado, se os trabalhadores passam o tempo a avisar e ninguém os ouve, a greve é o grito, o que é sempre mau sinal. No campo da Educação, por exemplo, há tantas razões para revolta que faria todo o sentido haver uma greve por tempo indeterminado e, entre essas razões, a maioria nem sequer está relacionada com questões laborais.
      Não nego – e respondo, também, ao Miguel – que a função pública tenha demasiados incompetentes e não sei se são a maioria, mas sei que isso não é razão para generalizações e deveria ser razão suficiente para, no mínimo, castigar duramente os partidos que têm usado o Estado e as autarquias para distribuir empregos. Voltando à Educação, a ideia de municipalizar as escolas é só um caminho para partidarizar uma instituição que tem vivido resguardada do regabofe de nomeações. Não acordem, que não é preciso.

      • Jonh says:

        caro antónio concordo em absoluto que um retrocesso é um retrocesso, mas não consigo perceber como a necessária «limpeza» do funcionalismo público e do «parasitismo» que lhe está inerente seja visto como um retrocesso. Existem serviços desnecessários e trabalhadores a mais. isto pq o estado não gera riqueza real apenas nominal. um funcionário de uma junta por muitas loas que se lhe façam à competência e seriedade não gera riqueza, não produz exporta e vende, podem-se inventar funções e criar administrativamente emprego mas este terá de ser pago com impostos ou recurso ao crédito, ambos escassos na actualidade. Se problema há é com a «gestão» que permitiu este descalabro e que agora lhe retira vencimento, mas parece-me um avanço proceder com incentivos à desmobilização do funcionalismo estatal em prol de uma «gestão» mais racional e solvente. Serão, talvez, os mais «civilizados» a beneficiar deste «retrocesso» (porque não apenas social ou laboral?), pois alguns nas suas lutas «cívicas» parecem muitas vezes esquecer-se de que fazem parte de um «colectivo» e olham mais avidamente o próprio umbigo do que qualquer financeiro capitalista. concluindo diria que aos «olhos» das inefáveis leis do mercado o seu trabalho perdeu valor, a melhor solução foi-lhe indicada no primeiro comentário à sua «posta». Cumps

        • António Fernando Nabais says:

          É muito simplista, John. O mercado não pode ser uma religião. Já escrevi o que penso sobre a riqueza de um país:
          http://aventar.eu/2011/10/29/o-unico-estado-bom-e-um-estado-morto/
          http://aventar.eu/2011/12/10/funcionarios-publicos-era-fuzila-los-a-todos/

          Se tiver aí um estudo que prove que há funcionários públicos a mais ou a menos, partilhe.
          A melhor solução é ficar e não me limitar a tratar do meu umbigo.

          • Jonh says:

            Tem toda a razão, eu sou naturalmente simplista (k.i.s.s), esta sim é a minha «religião». o «mercado» é injusto, cruel e caprichoso, um pouco como qualquer «colectivo» ou a própria Natureza. relativamente ao estudo que me pede, parece-me anedótico, estudos há-os p/ satisfazer qualquer tendência ou inclinação, os resultados dependem quase sempre de quem os faz e quem os pede e raramente da validade científica. ora sendo eu simplista recorro-me do senso comum e reforço: há funcionalismo público a mais. poderia descrever-lhe exemplos mas seria exaustante. Concordo também com a sua «visão» de riqueza: «riqueza de um país mede-se, também, por exemplo, pela qualidade da educação ou pelo funcionamento dos hospitais ou dos tribunais» e por isso mesmo há-que reduzir défice, privilégios e excedentários, pois com toda a propriedade «dinheiro» não é sinónimo de «riqueza».

  7. Álvaro Duque says:

    Porra. eu não sou funcionário do estado, nunca fui, sempre descontei para a Seg. Social, assim como todos os que não puderam fugir, por isso esse subsidio é nosso, pertence-nos, e agora fomos roubados por uma quadrilha que o trabalho deles foi sempre a mamar à conta do estado, e que agora se viraram para os trabalhadores, isto realmente a bem não se faz nada.

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