Benjamim Niputa, ou uma estória de Natal (conclusão)

Imagem

Benjamim Niputa exportava toda a felicidade que lhe ia na alma. Ria, enroscava-se numa longa gargalhada, dava graças, saltava, dançava como que imbuído de um batuque imenso, bem no fundo de si, telúrico.

Sentados na messe, os oficiais comentavam. Bebendo no bar, os sargentos riam. Sentados no chão da caserna, os soldados abriam o cantil e escorropichavam o resto do vinho servido ao jantar. Em profusão, como convinha nas festas.

Os dias seguintes iam correndo ao sabor das exigências militares, das saídas para a Beira ou para a Manga, onde, a coberto de um filme indiano da moda, se apalpavam, nas filas de trás, as intimidades das damas convidadas para a sessão da noite. O Natal era no quartel.

A comissão fabriqueira das solenidades continuava o seu trabalho, estendendo gambiarras pelo arame farpado, cada caserna mostrava do que era capaz, encimando a porta de entrada com enfeites das mais variadas formas. Uma arte original, mas autêntica, invadia os corações. O espírito era esse: chamar o Natal, manter as pessoas ocupadas, juntar, assim, o útil e o agradável por uma boa causa, a da unidade. Uniforme e uniformizada. Nem que fosse só aparência. Manter as aparências também pode ser importante quando há que gerir umas centenas de homens num perímetro restrito. Ainda se houvesse guerra, que diabo, era mais fácil manter a disciplina e a unidade… Pois, o diabo tinha que entrar na minha história!

Terça-feira, 24 de Dezembro de 1974. A ceia está quase pronta, as mesas estão postas. Oficiais, sargentos e praças comerão no mesmo espaço, nas mesmas mesas, da mesma comida, beberão o mesmo vinho, a mesma aguardente. No final, a bebedeira de uns e outros será semelhante, mesmo que nos ombros haja galões, divisas ou a simples presilha nua, indiferenciada. No final, as discussões entre praças serão iguais às dos sargentos, terão o mesmo volume das dos oficiais. E se, à meia-noite, alguém quiser acompanhar o capelão na missa do galo, as orações de uns e outros terão o mesmo valor das dos outros. E Deus olhará para uns e outros do mesmo modo: com comiseração!

Tudo decorreu nos conformes: negros engalfinhados no álcool de outros negros, soldados agarrados ao bagaço de outros soldados, sargentos brigando na liamba de outros sargentos, oficiais resfolegando no uísque de outros oficiais. Só a brasa do charuto do coronel, sentado na cadeira de baloiço, qual trono para uma solidão imensa, desenhará, sozinha, o vaivém daquela linha luminosa, subindo e descendo na escuridão, com o comandante perdido na saudade do neto.

O silêncio foi-se reconstruindo aos poucos, no passar das horas ou pela actuação da polícia da unidade. Um cão, ao longe, talvez faminto e sem Natal, desafia a dezena de cães aquartelados, perdidos em sonhos de barriga excessivamente cheia: como em todo o lugar, uns a arfar pelo que sobra, outros a ralhar pelo que não têm. Mesmo no mundo irracional, as regras sobrepõem-se!

Estou à porta da messe, penso que sou o único. Quem pode dizer, afiançando, que está só, depois de uns litros de bebida? Mas penso que grande parte dos vapores já se teria evolado porque recordo, a partir daí, todos os passos que dei.

Sei que tinha um livro comigo. Não me perguntem qual, um qualquer livro até há poucos meses proibido, por certo. Quase posso jurar sobre isso. Mas, concretamente, não sei qual. A memória, por mais subtil, prega-nos partidas, ora! Escrevi-o logo no primeiro parágrafo…

Mas voltemos à narrativa: a noite vai longa, começo a enfastiar-vos, eu sei, mas as minhas estórias são demoradas. Ou serei eu que as prolongo, artificialmente, para me sentir ouvido mais tempo?

No silêncio, sempre desmedido em África como os barulhos, ouvia-se um fio de voz abafado, embalando a noite. Por cima dessa voz, uma melodia de natal num ritmo quente, arrastado. O som vinha da porta de armas. Atravessei todo o perímetro com o livro debaixo do braço e uma Laurentina gelada na mão. Tinha acendido uma cigarrilha. O som era agora mais concentrado. Sim, não havia dúvida, a canção vinha do presépio.

Um vulto rodopiava em frente da lapinha improvisada, ao ritmo lifala-la, ou seria tufo. O corpo estava coberto pelo longo poncho militar contra a chuva, o capuz subido. O rosto estava coberto por uma máscara de Mapiko. Era tão real a dança que quase se podia adivinhar a posição dos tocadores de tchuntcho, de chabomba e de muchapata, a batida do duassi vinha dali, misturada com a do phusta; da esquerda, pressentiam-se o kadjisa e o khapura. Era um combinado de sons miscigenados, com um travo árabe importado do sultanato de Angoche, da ilha de Catamoio, para onde tinham sido levados alguns dos da sua tribo, como escravos. Era esta fusão que Benjamim executava, sozinho, perdido na solidão de uma noite de Natal sem ad-duff, sem as mulheres da sua terra a dançarem o tufo e o n’sope. Por isso, Benjamim Niputa, soldado do exército português, interpretava a humanidade inteira, sem género, numa dança reservada às mulheres, com uma máscara de homem a esconder o que de feminino há em cada um de nós.

Deixei-me ficar por ali, meio escondido, não me atrevi a descontinuar o momento.

Passada uma meia hora, o vulto sentou-se, desceu o capuz, retirou a máscara, e eu pude, então, ver que Benjamim Niputa tinha o rosto coberto de creme de mussiro. Não comentei esta última descoberta, por de mais estranha, sentei-me simplesmente ao pé dele, no chão, e entoei baixinho a minha canção favorita e mais antiga de Natal: O menino está dormindo / nas palhinhas deitadinho / os anjos lh’estão cantando / por amor tão pobrezinho.

Estendi-lhe a bazuca e bebemos a meias.

Disse-me que tinha em mente dançar tahura, mas não tinha arranjado nem os chocalhos nem os produtos para confeccionar otheka, uma cerveja tradicional que ajuda os bailarinos a aguentarem toda a noite a dançar. Ele sabia que só os da sua terra beberiam dela, os brancos não teriam coragem de partilhar. É uma dança em que os homens já participam, bailando, e exprime a alegria pelas colheitas, manifestando agradecimento aos espíritos por terem proporcionado uma boa safra. Ele, Benjamim Niputa de seu nome, macua de Montepuez, queria agradecer a colheita de deferência que vira na cara do alferes e do tenente-coronel. E por ter visto e ouvido toda a gente a falar dele com curiosidade. Era bom sentir-se o rei da atenção, ele, um negro quase um número, pelo qual era chamado no quartel.

Estendi-lhe a mão e tentei levantar-me.

Cambaleando até ao meu quarto alugado, do outro lado do descampado que circundava o quartel, bem por cima da loja dos monhés Idrissa e Faiz, dei comigo a pensar que algo não batia certo nesta história.

Benjamim Niputa, macho de três fêmeas no Dondo, com mulher e prole em Montepuez, a sua terra, tinha pintado de branco o rosto com mussiro, cosmética exclusivamente feminina que marca a passagem da adolescência para a juventude. A rapariga abrilhanta-se, assim, para os pretendentes, em cerimoniais, ritos de puberdade e circuncisão, investidura de iniciados em poderes superiores, por ocasião de casamentos, mas também, e sobretudo, em cerimónias de exorcismo.

E tinha dançado! Essa necessidade espontânea que coloca os corpos em movimento e vibração, tendo como epígrafe a genuína representação da vibração física ou a manifestação das forças interiores da vida que comovem e influenciam o ambiente, transfigurava-se na comunhão com as forças vitais que todos veneram ou temem. Benjamim acabara de fazer a ligação entre os vivos e os espíritos dos antepassados.

Oculto debaixo do poncho e com a cara coberta pela máscara, Benjamim Niputa escondera-se para poder atingir a plenitude: durante meia hora, ele tinha-se transformado numa divindade transversal a todas a religiões. Sem género, mas abarcando o masculino e o feminino como uma emanação.

E, porque a dança entre os seus era também um rito de exorcismo, Benjamim tinha alcançado a catarse, elevando-se, essa transcendência que transporta a humanidade à propinquidade com o metafísico.

Benjamim Niputa, soldado moçambicano ao serviço do exército português no Dondo, que estivera também em Vila Fontes, Inhaminga ou Marromeu, tinha atingido o seu paraíso, alcançado a bem-aventurança. Eu, oficial miliciano do exército português no Dondo, que estivera também em Vila Fontes, Inhaminga ou Marromeu, apenas tinha conseguido beber meia Laurentina às portas de Pasárgada, e estava, agora, a caminho do meu quarto por cima da loja dos monhés Idrissa e Faiz.

Comments

  1. Maria do Céu Mota says:

    “Benjamim Niputa exportava toda a felicidade que lhe ia na alma. ”
    Exportar felicidade. Que bela expressão !!
    Parabéns pelo texto

  2. maria celeste ramos says:

    Benjamim Niputa exportava toda a felicidade que lhe ia na alma. ”
    Exportar felicidade. Que bela expressão !!
    Parabéns pelo texto
    SANTO NATAL AOS AVENTARES

  3. xico says:

    Esta história, maravilhosamente contada, deixa um amargo de boca. A consciência de termos levado a ideia do presépio a tanta gente que a recebeu como sua, e não termos estado à altura do mesmo.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.