O Natal cheira a fritos, cheira a fome.

 

Dos aromas mais presentes na minha memória quando me lembro do Natal da minha infância: o cheiro dos fritos espalhado pela casa. No dia 24 de Dezembro acordava invariavelmente com o cheiro dos fritos a dançar-me nas narinas, puxando-me para fora da cama. Era o único odor que conseguia encobrir um outro também muito marcante: o do cigarro matinal do meu pai.

Na manhã da véspera de Natal era o cheiro das rabanadas já fritas que reinava. A minha mãe levantava-se bem cedo para fazer as suas rabanadas, tão especiais que tinham que ser feitas antes que o meu pai saísse da cama. Tudo isto porque ele sempre detestou leite e recusava tudo o que era feito com leite. As rabanadas da minha mãe são especiais precisamente por serem feitas com aquele líquido…
Em criança eu era feliz e nunca tive a percepção de que era uma menina pobre. Havia sempre comida na mesa e muita fruta. No Natal havia as iguarias tradicionais num Natal Português. Tínhamos sempre presentes. E desses presentes, alguns eram os que tínhamos pedido. Sim, éramos felizes. Precisávamos de pouco para o ser.
Noto agora nas crianças mimadas uma constante insatisfação e uma exigência permanentes. Se não recebem aquela prenda que tinham pedido, fazem birras, irritam-se, zangam-se.
Já acontece, de certa forma, com a minha filha mais velha, que tem apenas quatro anos. Ainda na noite passada, numa festa de amigos, ela ficou muito triste quando pensou que iria receber uma prenda. Queria mais. E logo ali me apeteceu que ela tivesse menos prendas. E ao mesmo tempo, apeteceu-me dar-lhe tudo.
Esse é muitas vezes o nosso erro. O querermos evitar a frustação dos nossos filhos. E isso é precisamento o que não devemos fazer. Eles devem sentir alguma frustação. Mesmo que seja na noite de Natal. Quando ela me disse «amanhã, em casa da Tia … é que vou receber muitos presentes, não é, mãe?», tive que parar um bocadinho, sentá-la no meu colo e explicar-lhe que não sei quantas prendas vai ter, mas que ela não pode receber muitos presentes. Porque muitos meninos passam fome. As mães e os pais não conseguem trabalhar, embora tentem e, por isso, esses meninos não recebem presentes. «Ó mãe, mas é o Pai Natau que dá os pesentes aos meninos!». «Pois é, filha, só que os pais pagam algum dinheiro ao Pai Natal para ele trazer os presentes. E os pais mesmo pobres não podem pagar.» «Pedo Passos Coeio». «Que disseste?» »Pedo Passos Coeio». «Quem é ele?» «É o Pimeio-Ministo e vai a casa dos meninos tiaar o dinheio. Há pessoas que são más e tiaam o dinheio, não é, mãe?» Fiquei sem saber o que dizer.
Há, de facto, pessoas muito más no mundo que tiram o dinheiro e a vida e o trabalho e a saúde e a dignidade a outras pessoas. Seres que se julgam superiores porque ocupam cargos e nunca passaram fome. Nunca sequer tiveram que esgravatar para encontrar um trabalho. Nunca se deitaram sem saber como alimentar os filhos no dia seguinte. Nunca viram rostos tristes de crianças que percebem bem no mais profundo de si que não podem aspirar a ir para a cama de barriga cheia. Essas pessoas olham apenas e só para os seus umbigos e para as suas contas bancárias escondidas num qualquer pardieiro fiscal.
O Natal é uma época em que as diferenças sociais se agravam mais.
Quem tem dinheiro exagera na abundância. Compra e cozinha demasiadas iguarias. Estraga muita comida, Compra demasiados presentes demasiadamente caros.
Quem pouco tem sente-se ainda mais pobre.
Há muitos anos que o Natal começou a ser para mim uma época de dilema, de sofrimento. Não consigo evitar de verter umas lágrimazitas por esta altura. Enquanto embarco em alguns gastos supérfluos, penso nos rostos anónimos que não podem dar de comer aos seus. Penso na infelicidade das crianças que, mesmo portando-se bem, não recebem a visita do Pai Natal. Sofro com a injustiça deste mundo em que vivemos.
Nesta quadra em que se proclama tanto o amor, é a falta dele que impera. Queremos dar o melhor aos nossos, nem que para isso outros sofram. As pessoas andam nas ruas desesperadas, desvairadas. Ao pouco tempo disponível, junta-se frequentemente a necessidade de gastar menos. Isto manifesta-se num nervoso miudinho que leva a que se ande sempre aos encontrões, sem um pedido de desculpa (tenho levado cada sopapo!) a discussões em plena rua ou dentro de uma loja, a um azedume deprimente. Tudo isto num crescendo até que, finalmente! Ficamos em paz. Reconciliados com o mundo e com aqueles com quem tanto discutimos. Regressa o amor.
E, com isto tudo, com tanta umbiguice, raramente nos detemos para pensar nos outros. Sobretudo nesta quadra de tanto amor e solidariedade. Damos uns cêntimos aqui e ali e pronto! Consciência tranquila.

Feliz 25 de Dezembro para todos!

Comments


  1. Confrange-me, por exemplo, a publicidade televisiva. As mesas postas para a consoada. Dou sempre comigo a pensar que sempre tive mesas assim, bem compostas e que em nenhum ano que me lembre nos faltou algo. Dou sempre comigo a pensar no que sentirão as pessoas que já não conseguem ter na mesa nada mais do que o habitual do dia a dia, sem saberem o que conseguirão ter amanhã. Hoje não consigo deixar de pensar nas pessoas que nunca tiveram mesas de Natal assim, naqueles que nunca tiveram mais do que o essencial, nas pessoas que já abdicaram do pouco que ainda podiam ter para conseguir uma mesa mais composta. A cada presente que comprei, mesmo que útil e em número reduzido, senti-me conivente com algo que não é bom, senti o meu umbigo. Mesmo que veja logo à noite um sorriso rasgado na cara do meu filho ao abrir o presente que julga que não vai ter. Quantos pais não vão conseguir isso? Por quanto tempo vou eu conseguir? Vou sentar-me à mesa e comer, vou distribuir os presentes e vou aproveitar a minha família mas é impossível fazê-lo em pleno enquanto tiver consciência. Feliz Natal?!

  2. maria celeste ramos says:

    Santo Natal Maria – que lindo diz – è impossível fazê-lo enquanto tiver consciência
    Ontem vi quem colhia não sei o quê com esperança de encontrar no caixote do lixo
    Não fui eu que fui ao caixote do lixo
    Mas doeu-me – doeu-me muito
    É impossível tomar como minhas as dores dos outros – mas doem-me as minhas por cauda das dores deles

  3. maria celeste ramos says:

    Tmbém não tenho subsídio de Natal mas tenho Natal
    Tenho sempre mesmo que sem a mesa farta e a família que havia e os perfumes da gastronomia especial E até parece que na memória despertar cheiros e imagens e “vejo” porque era bom e era esperado e era a alegria de ser assim

  4. Miguel says:

    Nao acredito em si. Uma criança de 4 anos que sabe quem e o que é o primei-ministro. E que já o associou ao papão. Muito perspicaz e ciente da realidade. Acho mau usar o discurso inocente de uma criança para expressar a sua insastifacao com o primeiro ministro.


    • Miguel, tem todo o direito de não acreditar em mim. Eu, moralmente, não tenho o direito de mentir. E a minha filha é, de facto, uma criança com muita perspicácia (como, de resto, o são quase todas as crianças), embora não possa dizer que seja ciente da realidade, uma vez que é demasiado jovem. Acontece é que cá em casa as coisas são abordadas de forma clara e esclarecedora. Não nos escudamos em subterfúgios para que as nossas filhas sejam iludidas. Isso não. A minha filha mais velha faz perguntas pertinentes e incómodas e obtém respostas a essas perguntas. Não alterei em nada o discurso dela ao reproduzi-lo neste post. Nunca lhe disse que o sr. PPC rouba o dinheiro às pessoas, disse-lhe que eu não tenho trabalho porque ele não me deixa trabalhar. E que é porque tabalhamos que temos dinheiro para comprar tudo aquilo de que precisamos ou queremos. E por isso há menos dinheiro em casa e ela e a irmã podem agora ter menos coisas. E que há meninos cujos pais já nem sequer lhes podem comprar comida.
      Sendo uma criança inteligente, ela fez associação de ideias, concluindo o que concluiu, o que me surpreendeu bastante. Foi esse o motivo da transcrição da conversa e não usar o discurso inocente de uma criança para manobras. Não preciso disso.

    • Maria Silva says:

      Também me confrangem os defensores-seguidores do primeiro ministro (escrito conscientemente com minúsculas) a quem, pelos vistos, até o raciocínio de uma criança de 4 anos, esclarecida, incomoda. Não queira então ouvir o discurso do meu filho de 15 anos, que já leu, já estudou, conhece o conceito de liberdade e ditadura, que até se interessa por política e garanto-lhe que não sou eu que lhe meto palavras na boca. Ter filhos esclarecidos e ensiná-los a pensar não é para qualquer um caro Miguel.

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