Quem estiver sem pecado lhe atire a primeira pedra

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Sempre fui curioso e aberto à mudança. Daí que tenha chegado a Mafra, à Escola Prática de Infantaria, razoavelmente politizado. Estávamos em 1973 e acontecia uma das mais estranhas incorporações do velho regime, aquela que levou ao COM (curso de oficiais milicianos) uma turba multa de trintões, alguns que já eram figuras públicas.

Para mim, um anónimo trabalhador-estudante de Letras, era o passo seguinte de quem sabia também que a melhor forma de “levar” a tropa era passar despercebido, “arranhar” apenas o essencial e esperar que a sorte não me enviasse para um buraco muito crítico. Sim, porque o Ultramar estava-me definitivamente aplicado, ou não estivesse “referenciado” (sem honra nem glória, já que nada fizera a não ser frequentar alguns lugares menos recomendáveis para o regime e ouvir algumas vozes da mudança que se desejava) por um daqueles informadores da polícia política, no caso o porteiro da faculdade, meu “amigo” do peito, nascido em aldeia vizinha, companheiro de copos e tertúlias. Ingenuidades!

Sabia também que um “chico” era sempre um “chico”, não podia esperar humanidade no ambiente castrense: embora no COM, era carne para canhão à mesma. Os “chicos” estavam ali apenas para, alegadamente preparando-nos para sobreviver, nos levarem a passar o que eles haviam já passado, de preferência com juros.

Naquele atípico batalhão de instrução tornou-se, então, fácil passar despercebido. Com 22 anos não me seria difícil aguentar o ritmo de uma preparação militar que, se levada a sério, teria acabado com mais de metade dos instruendos a baixar ao hospital militar. Reduzi, por isso, ao mínimo as minhas ambições físicas, que nunca foram superlativas, testando-me para o 10, e os testes teóricos fariam subir ligeiramente a minha pontuação, colocando-se algures entre o suficiente e o suficiente +. A coberto, por isso, de qualquer percalço, menos o de ir parar a Tancos, para o curso de minas e armadilhas.

O Capitão que me saiu em sorte na companhia, a par de um comandante de pelotão completamente “cacimbado” e com um rol de loucuras várias no Ultramar, era o protótipo da vaidade, tinha sido campeão de ginástica, era uma fera até na voz, um “chicalhão” à medida. De facto, como era consabido, havia que fugir daqueles oficiais que não eram nem carne nem peixe, bem melhor apanhar um “fdp” qualquer, daqueles que a gente se habitua logo a saber até onde pode ir, sem engano e consequências maiores para a nossa sobrevivência.

Certo dia, desaparece o capitão, chamado para Lisboa. Depois se saberia que fora por causa do “movimento”, era em Lisboa que se tornara necessário. E é-nos apresentado, em sua substituição, um muito jovem tenente, de seu nome Marques Júnior. Tinha um ar humano, o rapaz, o que era de desconfiar por aqueles lados.

Como era “dia” de instrução nocturna, o primeiro grande contacto foi na tapada de Mafra, com treino de rappel à mistura. Acabada a “prova”, vínhamos desaguar no grupo dos que já haviam “aviado” a receita, e foi então que o novo comandante da companhia de instrução, na sua voz nada militar, nos foi dizendo, mais ou menos por estas palavras: no ultramar, quando sofrem uma emboscada, há várias soluções a ponderar; a dos livros (que nós vos ensinamos), a do comando (quando discute o plano da operação) e aquela que não lembra nem ao c*. Esta última é a que vos safa sempre.

É este homem que eu quero lembrar hoje, quando assisto a todas as notícias sobre a sua morte prematura. Lembrá-lo como um militar casual, um político improvável, um esquerdino nato com uma aptidão muito acima do razoável para a bola (penso que, na altura, jogava no Sport Club Valenciano), mas recordar sobretudo o homem. O político já teve as suas homenagens nas palavras dos líderes da nação; o militar já teve a sua conta de elogios na voz dos seus semelhantes; o homem ficará na memória dos mais próximos e de alguns que com ele se cruzaram numa parada, num bar de oficiais, num campo da bola. Esse homem tinha virtudes e defeitos. Já foi julgado por muitos quando aceitou, de forma peregrina, a reintegração no exército para poder ascender a coronel, ele que jamais voltara ao quartel depois de entrar no parlamento, e, pecado dos pecados, com 1/3 de incapacidade que fez dele um DFA (deficiente das forças armadas). Todo o homem tem direito a pecar, mas que fique da sua obra, que é o verdadeiramente importante na hora de despedida da vida, a sua dimensão cívica, a sua cidadania exemplar, vividas de forma quase discreta, não fossem os muitos cargos que ocupou.

Há quem acredite em outras vidas. Em qualquer delas, se houver, havemos de encontrar-nos, à boleia de uma qualquer solução, que não lembre nem ao c*, para algumas emboscadas de que não soube fugir, de que poucos conseguem fugir, mesmo aqueles que o crucificaram pelo seu pecado.

Quem estiver sem mancha lhe atire a primeira pedra!

Eu, pecador, me confesso um admirador deste militar improvável, deste homem que, apesar de tudo, marcou a diferença na classe política nas últimas décadas

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