Um governo de cobardes deslumbrados

Como já aconteceu com o Memorando da Troika e volta a acontecer com o Relatório-parece-que-do-FMI, os governos portugueses não estão para perder tempo a mandar traduzir os documentos em que vão basear as políticas com que mimosearão os portugueses. Com o Memorando, foi preciso a sociedade civil, sob a forma deste vosso blogue, fazer o trabalho que cabia ao governo de então. Nada de novo, que isto da política só serve para que uns mandem e outros obedeçam, ficando os primeiros com o exclusivo do duro trabalho intelectual, produzindo ideias que os segundos, devidamente providos de ferraduras, não poderiam alcançar. E sempre se evitam uns coices.

Quando soube que havia um relatório do FMI em que se repetia tudo aquilo que os membros do governo defendem, concluí, facilmente, que se tratava de uma encomenda típica dos cobardes deslumbrados que nos governam há anos, que precisam de pagar a estrangeiros para que escrevam em língua estrangeira a preconização das medidas que os ditos cobardes deslumbrados querem aplicar ao País. Assim, os cobardes deslumbrados podem exercitar a cobardia, alijando as responsabilidades das medidas que irão aplicar, e podem estourar de deslumbramento, porque qualquer parolo que se preze adora ver a sua actividade caucionada por documentos escritos em inglês.

O Paulo Guinote tem feito, nos últimos dias, uma análise demolidora da parte do documento que se refere à Educação, enquanto o Ramiro Marques, coitado, continua, como bom psitacídeo, a repetir o que lhe mandam, ansioso pelo momento em que a mão do dono lhe dará uma bolacha e alisará as penas. Não é difícil imaginar, aliás, Nuno Crato vestido de pirata, com Ramiro sobre o ombro direito.

Por curiosidade, dei uma vista de olhos ao Prefácio do alegado relatório e notei que, apesar de estar maioritariamente escrito em inglês, contém bastantes palavras em português, todas elas correspondentes a antropónimos. Com educação e civismo, os autores do chamado relatório agradecem a colaboração de vários ministros e secretários de estado que os ajudaram a elaborar o rascunho. Realmente, não há como umas jantaradas para o pessoal combinar como se despedem funcionários públicos, que, ainda por cima, pagam a conta da refeição.

Tinha pensado em adicionar a este texto uma “Etiqueta” contendo a expressão “puta que os pariu”, mas seria cobardia da minha parte e ainda me arriscava a ser convidado para ministro. Para não correr esse risco, e porque estou farto de etiquetas, aqui fica: puta que os pariu!

Comments

  1. Nuno Oliveira says:

    Puta que os pariu,mesmo.

  2. Luis FA says:

    Esteja tranquilo que o Relatório tem a particularidade incomum e transversal de unir todos; esquerda e direita! Todos o condenam e achincalham.
    É que o dito comete a impudência e o “sacrilégio” de apontar como “solução” a diminuição dos funcionários públicos, alterando-lhes o estatuto para os padrões do sector privado.
    Diz-se que foi “encomendado” pelo Passos Coelho, quando na verdade é um valente (e subtil) “puxão de orelhas”… Porquê? Porque a “proposta” já constituía a parte “difícil” do Memorando. Aquela parte que o Passos não teve tomates nem inteligência para levar à discussão pública, criar consensos difíceis, e cumprir… Optou pelo fácil: meter a mão bruta na carteira de todos. destruindo a economia.
    Será que alguém continua a acreditar que o “Estado” tem recursos para manter tanta gente na função pública? Não me parece que existam muitas soluções. Ou se reduz o “monstro” aliviando impostos, ou nos irão ao bolso eternamente… Nesta (minha) “dedução” não há políticas, “politiquices”, ou conversa da treta… Trata-se apenas de procurar alguns dados e fazer pequenas contas… A vantagem do Relatório é tê-las feito e comparado…
    Sempre quero ver se alguém vai ter coragem e capacidade para contestar o Relatório com um “contra-relatório” estruturado, objectivo e credível… Ou se a contestação se vai limitar ao habitual insulto e folclore mediático…

    • luis says:

      Não é um contra-relatório, mas aponta falhas graves em partes específicas e concretas do dito “estudo”. Quanto ao “monstro” de que fala, sabe quanto vamos pagar este ano pelo “serviço da dívida”? E as PPP’s? E pelas mordomias da nossa classe política? Não lhe parece mais lógico cortar ai primeiro?
      http://www.publico.pt/opiniao/noticia/o-fim-da-educacao-como-a-conhecemos-and-i-dont-feel-fine-1580218


      • — Serviço da dívida = consequência de má gestão e excesso de “Estado”.
        — PPPs = Alegada má gestão.
        — Mordomias = mais uma questão moral do que um “peso” sério na estrutura de custos.

        Mesmo com estes assuntos “resolvidos” teríamos sempre défice e um Estado caro e pouco produtivo. Pesado para o contribuinte e nada atraente para os investidores.
        Portugal é um país desigual (como a troika tem vindo a “lembrar”) onde reclama quem está “mais ou menos” e cala quem está realmente mal!… Vejam-se as greves recentes? Foram trabalhadores do salário mínimo?
        É preciso reduzir os custos do Estado em nome da justiça social, da dinamização económica e para maximizar o apoio que ele deve dar aos realmente “mais fracos”.
        Enquanto o “monstro” não desaparecer, o ar será sempre irrespirável neste País e as crises apenas servirão para gerar novas crises.
        Deixemos-nos de “merdas” e ataquem-se as “causas de raiz”. Neste âmbito vale a pena:
        1. Manifestar abertura “mental”;
        2. Olhar para o Relatório;
        3. Auditar os dados apresentados;
        4. Contestar com seriedade os dados caso se encontrem erros;
        5. Propor alternativas (se existirem);
        Enquanto se “contestar” apenas na base do “insulto” e mantiver o “egoísmo” corporativo nada se resolve e seremos apenas medíocres e irracionais, atestando a nossa incapacidade cívica para estar à altura do momento e confirmando que somos “aquele povo que nem se governa, nem se deixa governar”.
        Infelizmente o Passos Coelho apenas tem servido para agudizar ânimos, criar fracturas e deixar tudo na mesma, ainda que de caminho tenha destruído a economia dependente do mercado interno. Um elefante incompetente numa estante de cristal…

    • pinho says:

      Se o relatório diz que tem que reduzir umas dezenas de milhares de professores para ter racios europeus, e depois como os números estão mal (ou mesmo premeditadamente mentirosos) e já estamos com os ditos racios, que diz você? Fingimos que os números estão certos e despedimos 20 ou 30.000 professores, ou dizemos aos gajos que pelas próprias fórmulas deles e usando números verdadeiros já lá estamos?

  3. Francisco says:

    Mais a burra que os sumiu.

  4. Jarruela@reditus.pt says:

    Luísa FA,

    E onde é que BPN+BPP+BANIF entram nas suas contas?


    • Já sei! Induz do meu “discurso” que sou um “direitista” apoiante do governo. Pois desengane-se. Nem de perto nem de longe. O que eu sei é que enquanto a esquerda não assumir a questão orçamental como um assunto sério e que o equilíbrio das contas públicas é um ponto de partida essencial, não vamos sair da cepa torta. E a mim, que sempre fui pelo progresso, pelo bem estar, e solidariedade social, essa realidade deprime-me profundamente. Infelizmente a nossa “esquerda” continua enfeudada aos interesses corporativos da classe média (que se acha progressista) com a barriga cheia enquanto se está a borrifar para os realmente mais pobres e desprotegidos. Os que não tem voz…
      Neste país, tanto esquerda como direita habituaram-se a mamar na teta do estado e não sabem viver de outra maneira…
      O BPN+BPP+BANIF são espelho do país que temos. Obscuro, básico, permeável ao “crime” e incapaz de punir os infractores…

  5. Luís says:

    É notavel como esta manobra do Farsola conseguiu secundarizar uma das acções mais graves do governo que foi o de pôr os contribuintes a pagar e a responsabilizarem-se pela provável falência do Banif, tal como o Socrates fez com o BPN, BPP, BCP e, só não fez no falido Finibanco, porque arranjou um militante do PS presidente do Montepio para o comprar.
    Os rios de dinheiro que a banca do “ai aguenta aguenta” vai sugando aos contribuintes é um segredo bem guardado mas, pela ponta do iceberg do BPN e Banif, dá para perceber que, tanto ou mais que as reformas “exageradas”, os “funcionários públicos a mais” e um “SNS insustentável”, dá para ver que muitos dos sacrificios pedidos aos portugueses têm a ver com os desastrosos negócios da banca.
    A verdade é que a banca portuguesa nunca apoiou a economia nestes últimos 12 anos, apoiou isso sim a especulação imobiliária e as PPP, numa proporção de, em 10 milhões de euros, 9 milhões eram para o betão e para as empresas monopolistas, e 1 milhão era destinado às pequenas e médias empresas que empregam mais de 90% da população activa – este é o ponto que justifica a montante o “surpreendente” do desemprego que nos afecta, com as consequências financeiras e sociais explicadas em cidadãos que pagavam impostos e passaram a receber dos impostos.
    A nacionalização dos fundos de pensões da banca foi mais uma ajuda aos banqueiros especuladores pois é sabido que, com raras e honrosas excepções, a maioria dos bancos tinha o fundo de pensões não provisionado para pagar as reformas dos funcionários, passando esse encargo para o Estado.
    Estas medidas terroristas agora anunciadas, se aplicadas, servirão apenas para meter mais uns milhões na banca nacional e internacional especuladora com a dívida publica e não terão qualquer efeito no crescimento da economia.
    O curioso é que o debate dos cortes centra-se sempre no “Estado a mais”, para pagar pensões, pagar o SNS e a educação dos portugueses e, nunca se fala no “Estado a mais” para pôr os contribuintes a substituir os banqueiros e seus accionistas, para pagar os seus maus negócios imprudentes.
    E, sem entrar na teoria da conspiração, percebe-se que este debate centrado na banca gananciosa não se faz, porque os agentes políticos e a procissão dos comentadores e fazedores de opinião que os segue foram “capturados”, (maneira gira de dizer corrompidos), pelo longo braço endinheirado dos banqueiros.
    E enquanto assim for, de nada adiantam os sacrificios pedidos e a reestruturação do país necessária, pois os amanuenses Farsolas dos banqueiros vão continuar a sustentar este clero e nobreza que estão a transformar os portugueses em servos da gleba.

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  1. […] (noutros tempos, teriam sido os “comunas”); à direita, estão os bons, isto é, Nuno Crato e Ramiro Marques, a dupla dinâmica, Batman e Robin, Robin e João Pequeno… Estes dois últimos, talvez não, […]

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