Noites e noites frente a uma embaixada

Da primeira vez cheguei demasiado tarde (seriam 9.30h) e tive que voltar no dia seguinte. Assim, às 5.45h, lá estava eu a juntar-me a uma fila de pessoas no passeio, frente à embaixada de um país africano de língua portuguesa. Um, dois, três, quatro, trinta, trinta e um. Eram 5.45h e eu era o número trinta e um na fila, sabendo que apenas seriam distribuídas trinta senhas para pedidos de visto de entrada. Voltei a contar: trinta e três, desta vez. O melhor era manter-me no meu lugar e acreditar na providência.  Estava frio, chovia e iam chegando mais e mais pessoas, grande parte sem a mínima possibilidade de receber a dita senha.

Havia uma triagem prévia de documentos à porta da embaixada, o que fez com que algumas pessoas à minha frente não pudessem entrar e me colocou entre os primeiros trinta. Lá dentro, de guiché em guiché, detectaram algumas imprecisões menores na minha carta de chamada. Teria que voltar no dia seguinte, desta vez sem necessitar de senha. Agora está tudo bem, disseram-me nesse outro dia, mas hoje não é dia de aceitar pedidos de vistos, volte amanhã. Tentei insistir mas não adiantava, teria que madrugar outra vez frente à embaixada.

A experiência entretanto acumulada dizia-me que teria que chegar mais cedo ainda. Apontei para as cinco da manhã mas cheguei às 4.30h. Um, dois, três, quatro, dezassete, desta vez estava tranquilo entre os primeiros (o primeiro da fila estava ali desde as 22.30h). Um frio de rachar, uma brisa assassina próximo do raiar do dia, alguns previdentes enrolavam-se em cobertores e sacos-cama. Nessa altura eu já conhecia boa parte das pessoas na fila, mais duas noites daquilo e ficaríamos amigos para a vida, tanto o tempo passado em conjunto. Há uma semana que partilhávamos um elevado módico de paciência e de resistência física, comungando pulinhos, conversas e pragas ao governo para, literalmente, aquecer.

Eram 14.30h quando, finalmente, saí com o meu problema resolvido. O facto de não pretender emigrar e de não ir em turismo (porque, segundo as autoridades locais, muitos portugueses alegam ir em turismo com o fito de procurar trabalho), mas integrado num projecto cultural internacional, fez com que, apesar de tudo, me despachasse “rapidamente”  e me encontrasse em condições de receber o visto atempadamente. O visto normal, esse, era há pouco tempo emitido em menos de dez dias e agora necessita de cerca de um mês para ver a luz do sol. Como consequência disso, conheci pessoas que compraram bilhetes para aviões que não irão a tempo de apanhar, apesar de todo o esforço e sofrimento dispendidos.

E conheci outra face de um país de onde as pessoas querem partir urgentemente, nem que tenham que passar noites e noites frente a uma embaixada que os despache para um lugar onde exista ainda alguma esperança.

Comments

  1. Nuno Castelo-Branco says:

    Pois… conheço pessoas que passar meses na fila do IARN e jamais conseguiram resolver coisa alguma. Até tiveste “sorte” ;)))

  2. Luís says:

    É mesmo assim como o meu amigo diz pois este fim de semana um dos envolvidos nesta situação, que tem uma empresa em Moçambique, contou-me a mesma história.
    Os farsolas mandam as pessoas e as empresas emigrar mas não tratam dos protocolos diplomáticos necessários para os cidadãos saberem as linhas com que se cozem.
    Nem se dão ao trabalho de informar os seus compatriotas da situação e das precauções que devem tomar.
    Resultado: portugueses turistas, empresários ou à procura de trabalho chegam ao Maputo e são reembarcados de regresso sem dó nem piedade.
    Parece que isso só acontece aos portugueses pois os cidadãos de outras nacionalidades, ou porque melhor informados ou porque … não são portugueses não têm problemas destes.
    É bom realçar que as autoridades Moçambicanas têm todo o direito de recusar a entrada no país a quem bem entenderem e a considerarem os portugueses como refugiados miseráveis depenados por um governo de gatunos.
    Limitam-se a fazer o mesmo que o farsola ministro dos negócios estrangeiros queria fazer aos imigrantes ucranianos e brasileiros que vinham para Portugal no tempo das vacas gordas.

    • Luís says:

      “…linhas com que se cozem.” – pois é, aontece aos melhores (e eu nem sequer sou bom) – portanto ficamos com “… linhas com que se COSEM”.

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