Desabafo contra o acordo

Omar Dammous*

A língua é um fenômeno vivo, mutante, dinâmico, que interage com as mudanças dos tempos, dos costumes. Influencia e é influenciada por movimentos migratórios, assimilações culturais, fusões e cisões históricas. Não se pode engessá-la ou congelá-la por força de lei.

A diferença pontual na pronúncia ou mesmo em pequeno percentual da grafia (que sempre foi inferior a 2% de todo o vocábulo) pode e deve ser considerada como um fator de autenticidade regional que não diminui em nada a beleza e a unidade do idioma. As diferenças fonéticas importantíssimas (e também gráficas) entre a forma de falar de australianos, ingleses, canadenses e outros povos de origem britânica jamais lhes deu a impressão de que não falasse simplesmente o INGLÊS. Idêntico fenômeno se dá entre os mais de vinte países de fala árabe, cada qual com a riqueza de seus regionalismos.

A unidade não se obtém à força, tampouco é ela a única forma de aproximação. Creio que as diferenças podem servir até como ponte para que cada qual admire e se delicie com a forma de falar e escrever do outro. Saramago talvez não fosse tão interessante se escrevesse como Machado. Cada qual com a riqueza de seu tempo e de seu lugar.

Afora a impossibilidade de imposição cultural “ex lege”, a tentativa (por enquanto mal sucedida) de unificação prestou-se a condenar à cesta de lixo milhões de títulos já impressos pelas editoras, obrigando entes públicos a promoverem milhares de licitações para renovação dos acervos das escolas e bibliotecas públicas. Dinheiro e história ralo abaixo…

Ademais, a suposta facilidade que a língua teria no “mercado editorial internacional” não parece ser argumento idôneo, mormente quando lembramos que o tal acordo mantém várias diferenças (e teve até a façanha de CRIAR algumas que antes inexistiam, como a palavra “recepção”, que, salvo melhor juízo, deverá ser grafada “receção” apenas em Portugal. O mercado editorial lusófono não foi inibido internacionalmente pela existência de dois sistemas gráficos (se é que a minúscula parcela de palavras grafadas diferentemente permitia afirmar a duplicidade de sistemas). Paulo Coelho, Jorge Amado, Saramago e tantos outros foram traduzidos em centenas de idiomas e editados em quase todos os países da Terra. Quando a obra é boa, não há fronteiras.

E a busca por um “assento” linguístico na ONU também não parece justificar tanto desespero por unificação… Vide as seis língua oficiais daquela entidade (árabe, chinês, espanhol, francês, inglês e russo). Praticamente todas apresentam variações muito mais expressivas que as da nossa língua. O chinês falado em Taiwan e Hong Kong, por exemplo, é muito diferente do de outras regiões, inclusive na grafia. Podem confirmar com algum falante daquela língua.

Outrossim, qual a vantagem em ter uma língua oficial na ONU? Tirando o inglês, algum dos idiomas acima, por ser oficial daquela entidade, gerou interesse em outros países? Aliás, o próprio inglês alcançou a magnitude que tem graças a outros fatores completamente alheios a sua adoção com idioma da ONU.

Em suma, com o devido respeito às posições contrárias, sou radicalmente contra a unificação da ortografia. As poucas diferenças que mantemos com portugueses, angolanos, etc, retratam pequenas nuances e revelam belas matizes que só engrandecem a nossa última flor do Lácio! Até já ouvi que os portugueses invejavam nosso trema (brincadeira!!!). Vamos manter as diferenças… e vencer as divergências!

*Jurista. São Paulo, Brasil

Comments


  1. Porra , nem um comentário . Está tudo de férias ou quê ?
    Infelizmente , neste país gosta-se muito de deitar coisas ralo abaixo
    e por isso é que estamos como estamos em todas as áreas .
    Isto ainda é pior que uma cesta do ,lixo .


  2. Pois é que eu estou completamente em desacordo com o acordo que só interessa a quem não tem que fazer e. quanto a pensar, duvido que valha a pena ter tal pensamento pois é pura perda de tempo – já nem recordo quem teve tão infeliz ideia – talvez o sr Lula da Silva – não sei – não passa de Lula e devia sim tratar das tribus de indios do interior da Amazónia que nunca contactaram nem querem com a civilização e mostraram-se hoje na SIC xatiados por os quererem “civilizar” – também me querem civilizar com o acordo ?? ai mas eu sou mesmo do contra – e mesmo que eu nem escreva tantas vezes o melhor português do mundo, o facto é que aprendi o melhor português do mundo e nem sequer dou erros ortográficos (salvo quando não faço revisões) e porque não estou aqui a fazer tese de doutoramento nem de linguística


  3. E porque é que é dito que Latim e Grego são Línguas mortas ?? Nem percebo – os gregos falam e escrevem grego e que eu saiba o latim ainda é usado nas igrejas pelo menos em Roma e o latim que aprendi por causa do português adorei – esqueci – mas adorei E de facto a língua é coisa vida e até regionalista (o português de Mirandela – mirandês) a algaraviada do algarve – a língua das peixeiras e não é peixeirada – tantos termos locais e até se diz, e assim será, que o português de Coimbra é o mais perfeito e eu adoro línguas e a minha empregada russa que já fala bem português e de vez em quando “inventa” até acho graça e faz sentido a nova palavra que ela inventa – mas já agora e para xatiar não gosto de brasilês (problema pessoalíssimo – não consigo levá-los a sério com aquele brasileirar) – E se for ao brasil nada percebem do que eu digo e tenho de abrasileiras eles, opostamente, nada fazem para aportuguesar – quero lá saber
    Mas não me lixem a minha língua e grafia porque com este OA já oiço muita menina jornalista TV a falar não sei o quê pois que ao mudarem a grafia da notícia que têm de dar, não se percebe nada nem elas saberão o que estão a dizer – mas não devem estar preocupadas – aliás quando têm de usar uma palavra em francês e/ou inglês coitadinhas aportuguesam – e dizem Vancôver – BURRAS – não andaram na escola


  4. Se calhar não saber ler e escrever e LER ALTO português faz com que os meninos não saibam interpretar e cada vez mais as notas de matemática e de português são uma miséria – porque será ?? Já não há bons professores ?? O falta ler os Lusíadas e interpretar – ou falta o quê ?? sei que algo falta porque se nota todos os dias – e há jornais a escrever brasilês e parece língua de macaco


  5. No equipamento que utilizo o post é anónimo!
    É mesmo assim, ou foi gralha?
    “Dão-se alvisseras por uma resposta”
    Obrigado.

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