Dos Ímpetos Sanguinários Sazonais

Restaurant | bora boraAinda mais curioso, Helena, minha grande fascista!, é o facto de, chegada a Primavera e depois o Verão, acabar-se como que por magia todo o ímpeto sanguinário sombrio desses soares e demais proponentes sinistros de sangue para os outros, ferro, fogo e mortes nas praças para os outros, e mais violência e mais horror.

Na sagrada altura de ir a banhos, de contemplar a beleza de Portugal entre Festivais Rock e Festas da Sardinha, não há menino nem vozes revolucionárias. Os soares e todos os instigadores de desgraça — contra a Direita, tumulto generalizado contra os Ladrões do Governo, sedições organizadas contra o Pacto de Agressão, motim infernal dos Trabalhadores do Público contra o dia a dia dos Trabalhadores do Privado —, os soares e os outros, dizia, entram no defeso da instigação da revolta, no sossego da instilação do ódio, na pausa desportiva da apologia coerente de violência. Até ao Outono seguinte. Às primeiras chuvas.

Não há qualquer dúvida de que, num putativo caos, baderna louca generalizada em Portugal, os minúsculos filhos da grande puta que efectivamente roubaram a República e acoitam os seus largos milhões em secretíssimas e sigilosíssimas offshores passariam ainda mais incólumes pelos habituais pingos da chuva e salpicos de sangue alheio.

Cobardes do caralho, vinde perguntar-me a mim por que é que a sociedade portuguesa está calma de mais! Eu explico. Temo-nos uns aos outros nas mãos. Os pais reformados seguram filhos desempregados, apoiam os netos desempregados dos filhos desempregados; os filhos desempregados amparam pais acamados, reformados, limitados, e suportam as filhas e filhos na escola escanzelada pública com os seus merdalhães parados e paredes luxuosas da Parque Chular; os filhos emigrados estimulam e encorajam os irmãos desempregados a experimentar sair ou a estudar com mais denodo.

Nesta rede viva que se interpenetra e faz por resistir e inventa êxodos às grandes faltas e gigantes privações do dia-a-dia, ninguém acredita na força de uma bala de Esquerda nem nas maliciosas vozes de burro dos soares e de muitos rançosos da Esquerda ou Direita dos Privilégios e da Impunidade. Só acredita nesta solidariedade que começa por baixo, solidariedade que não existe no topo: alguma elite empresarial, económica, dos tais sectores protegidos, gente decadente e ociosa nas suas rendas chorudas e benesses garantidas provenientes do Estado, gente gémea dos machetes, prega volúpias de sangue por um puro diletantismo nojento e uma tara abjecta de dano, ressabiamento pela perda de influência e dificuldades de acesso à velha tetina estatal. O topo empresarial, seco e egoísta, paga a porcaria de uns 485 euros a um pai de família de um agregado dependente de quatro, volta as costas e deve imaginar que essa miséria basta à nossa dignidade. Por que é que não lhes dá a todos uma valente cagamerdeira e não se enxergam?!

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