Notícias da reserva agrícola

Lagostins

Nasci e vivi no campo, nos campos de arroz, durante muitos anos, dos quais guardo algumas histórias engraçadas e que até poderão ter interesse para publicar. Um dia, talvez, que esse não é agora o momento. A ribeira da foto acima passa num desses campos, os quais há uns anos foram classificados como reserva agrícola. Essencialmente, isto significou que a vida de quem os trabalha ficou mais difícil, porque um qualquer manga de alpaca achou que era preciso proteger não se sabe o quê, num vale onde há décadas não nasce uma única edificação. Pelo contrário, o número de fogos até tem vindo a diminuir. Mas já se sabe, quem não produz, não é preciso e um burocrata produz regulamentos, logo seria uma questão de tempo até que o incansável braço da papelada viesse aborrecer quem trabalha.
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Pensavam que dói a todos por igual?

Contribuição extraordinária para o gás, electricidade e petróleo é válida até Outubro de 2014. Toma!  Senhores do governo, se não se importam, o meu ano fiscal também é para terminar em Outubro.

Portugal e o Sémen da Palavra

Portugal, o País que amo, alberga gente com formas de pensar as mais diversas e o talento, muito ou pouco, para as expressar. Somos fauna de ideias, à procura de analogias, de caminhos e de verdades. Mas há muita dessa fauna, Fauna de Esquerda Mal-Humorada, que não tolera o pensamento diverso dos outros, a leitura diversa dos outros, pois só existe a sua leitura e a sua emissão conceptual, o seu quadro descritivo da realidade, fora do qual outro qualquer ejaculador das palavras poéticas ou poético-analíticas só pode estar doente e deverá ser ou internado ou evacuado da plataforma que usurpa para debitar e debitar-se. É como que o Perigo de Haver Diversos, o Horror de Haver Diferentes. É a teoria dos escreventes malditos. Dos corpúsculos estranhos. Do 8.º Passageiro. Em suma, o Medo do Outro. Não separo a Poética da Poética de uma Poética da Política e é a partir desse meu corpo sexuado do dizer que insemino e inseminarei com Palavras a vagina passenta dos leitores em regime de estrito consentimento. Todo o leitor é um consentidor do diálogo da palavra que afinal busca e busca porque quer. Nenhum texto, postulado ou ideia, invadem o cérebro desprevenido do leitor por penetrar. Nada mais consensual que a leitura e a rejeição da leitura. Os inquisidores proibiam leituras, indexavam-nas. Os comunistas mais petrificados e aterrorizados com o Outro fazem outro tanto. Está inscrito no pensamento único, dogmático e violento como o Islão. [Read more…]

Os pobres de Portas

Foto: http://tiny.cc/6rge5w

Um destes dias, num noticiário da hora de almoço, numa das agora frequentes reportagens sobre populações a quem encerram mais um serviço essencial, apareceu,  numa localidade do interior, um grupo de gente a grandolar pelas ruas. Ouvi ao lado o comentário: “Têm cara de quem nunca cantou isto antes”. E tinham, é verdade, com tudo o que de preconceituoso, e como tal possivelmente falso, que isso implica. Tinham essa cara tão portuguesa de quem nunca se quis meter nas coisas da política, de quem nunca quis confusões, de quem acreditou nas promessas repetidas ano após ano, e logo década após década, e se vê agora, envelhecido e desalentado, a sentir como lhe foge o chão debaixo dos pés e como a ideia de futuro faz o estômago apertar-se de angústia.

Fecham-lhes o centro de saúde, as urgências nocturnas, a estação de correios, o balcão da segurança social e das finanças, e a alternativa está a uma distância incomportável para quem tem de deslocar-se em transporte público, sem dinheiro para pagar o bilhete da camioneta da carreira, quanto mais o táxi. [Read more…]

Os devoristas

Santana Castilho *

O Governo de Portugal e o Governo da Europa perderam o contacto com os seus cidadãos. Para quem não desiste da sua cidadania, outrossim dela faz alimento da alma, a raiva e o desespero dominam. Só me contém a noção dos meus limites e da minha mortalidade. Mas sofro. Sofro com tantos que sofrem às mãos de devoristas.

O pior de Portugal não é a dívida em si. É o que foi feito com a dívida contraída. Não edificámos com ela uma economia competitiva e produtiva. Não tornámos sustentável um débil Estado social, que agora soçobra às investidas dos devoristas. Instituímos, tão-só, um perene cartão de débito internacional, que alimenta a sofreguidão da “mercadotecnia” dominante. Até o presidente da República traveste, de modo repugnante, o juramento que fez em mercantilismo primário, anunciando que a constitucionalidade ou não do orçamento não é assunto de Direito, mas de custos. Para ele, o mais honesto entre os honestos, os compromissos de honra prescrevem se os custos forem altos. Os recursos do nosso país, o destino dos nossos filhos, estão hoje entregues a pessoas que nada fizeram para os merecer. Chefes que representassem verdadeiramente os portugueses só podiam seguir outras políticas e actuar com moral diferente. Malevolamente, dolosamente, o discurso oficial mistura o custo dos serviços que o Estado presta aos cidadãos (razão da sua existência) com os custos operacionais da máquina burocrática e política. Os primeiros diminuíram drasticamente. Os segundos cresceram exponencialmente. A análise das contas de 2012, única possível neste momento, mostra isso: a aquisição de bens e serviços cresceu 1.500 milhões de euros. [Read more…]