Coimbra, património criminal da impunidade

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Em 24 horas duas reportagens televisivas atiraram à nossa cara como em Coimbra se lecciona uma aula de criminalidade impune, consciente desleixo de quem a podia punir, pura corrupção. A despeito de as ovelhas e carneiros que somos não terem cara, mas mero embora ternurento focinho. 

Primeiro na SIC o espantoso caso do Hospital Pediátrico, obra que obteve direito a PJ à procura de uma burla perdida. Da vigarice plena, da Somague que aldrabou uma construção até meter nojo, duvido que se chegue ao porquê de os sucessivos relatórios de um fiscal da obra (ainda há heróis) terem ido parar ao lixo ou à oportuna gaveta que permitiu um saque de milhões. Em Portugal, já sabemos, não há corrupção, apenas processos turbulentos que acabam entre o nada e o coisa alguma.

Depois na TVI, um caso visível há uns bons 20 anos e em que nenhum media nacional pegou: em completa ilegalidade colégios que recebem do estado no centro de uma cidade como se estivessem nos confins onde não chega a rede pública, os jornais locais continuam a dar tempo de antena aos criminosos passivos ou activos (em quatro casos gente de uma religião que ainda vive na memória de ser sustentada pelos dízimos regiamente obrigatórios); gente que através dos seus colégios foi estoirando milhões ao estado destruindo a escola pública, e criando um ensino reservado às elites da cidade, que agradecem e retribuirão. Não é só proselitismo, é formatar os futuros líderes da nação à sua causa, em casta, longe dos outros, os excomungados sociais que ali não entram, nada de misturas, nada de tricanas que são putas, nada de futricas, essa canalha.

Ninguém vai agora pedir contas à senhora viúva de Mota Pinto (e refiro o estado civil porque toda a gente sabe ser essa a única explicação para ter ocupado um cargo dirigente) como foi que isto aconteceu em completa ilegalidade, nem aos seus sucessores que continuaram servindo para depois se servirem. No mínimo prescreveu, não interessa, é passado, a acabaram de legalizar o futuro presente.

O crime em Coimbra é perfeito, como nalguns filmes. Tanto um como outro caso ora revelados sempre se souberam na cidade, eram falados na cidade, ninguém viu o Ministério Público da cidade a investigar tal coisa. A impunidade dos governantes apenas tem excepções para servir de regra, Portugal já era a Grécia muito antes da crise financeira.

Coimbra não será a capital da corrupção nacional (Lisboa e Porto têm mais espaço, Braga nem precisa), mas agora que parte do nosso património histórico foi reconhecido mundial pela Unesco, bem que merece outro diploma: onde nasceu Portugal, perpetuem-se os seus vícios.

Quem quiser acabar com eles, e ainda é o povo quem faz história, pode começar por aqui.

PS – O crime é central, não apenas laranja. Rosa Reis Marques, que surgiu Domingo na SIC à procura de um buraco onde se enfiar e esconder das perguntas do jornalista foi agora eleita vereadora da Câmara Municipal de Coimbra, pelo PS.

Já Linhares de Castro, por quem até tenho consideração pessoal e profissional, um dos que transitou da DREC para director pedagógico de um colégio privado do grupo GPS, não conseguiu ser eleito presidente da maior junta de freguesia da cidade, pelo PS. Mete portanto um bocado de nojo que corporativamente haja que se esqueça disso e finja que estamos a falar só deste governo. Falamos de todos.

fotografia minha, a 3 de Março de 2011, em Coimbra

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