Uma foto do Juvenil, quem a tem?

Se a internet é facilitadora de tantas maravilhas – encontros entre familiares perdidos há décadas, casamentos entre pessoas que de outro modo jamais se encontrariam, amizades a uma distância geográfica impossível – eu acredito que ela pode trazer-me o que eu tanto gostava de receber: uma fotografia da parede inexistente do café Juvenil. Pensem bem: não conhecerão alguém que possa ter uma? Já coisas mais improváveis aconteceram.

Eu explico.

Toda a gente tem a sua Casa da Mariquinhas. Regressamos a ela para descobrir que “o tempo cravou a garra na alma daquela casa” e que está tudo tão mudado que não vemos nada, nada do que ainda recordávamos. A mim, que ando a acertar contas com o meu passado, deu-me para regressar à rua da minha infância.

Não era a rua onde eu morava, mas aquela que para mim representava o mundo, a rua sempre cheia de gente, de lojas, de carros a passar, autocarros e trolleys que uniam o centro do Porto à periferia. Cresci ali, ainda lhe conheço todos os cantos, não morri ali por sorte, atropelada aos quatro ou cinco anos.

Já sabia que a rua tinha mudado muito. Perdeu fábricas, lojas, moradores. Perdeu o movimento da hora de almoço, as mulheres que saíam das fábricas têxteis com a bata ainda vestida, de braço dado pelo passeio, os empregados de comércio e escritório que voltavam da baixa ao fim da tarde, os miúdos das escolas, os adolescentes que namoravam à porta do café. Perdeu muitas daquelas lojas que não eram apenas lojas, eram a mercearia do Albano, o talho do Arnaldo, o quiosque da Paula, a frutaria do Jaime, as gomas da Pitada, a confeitaria do casal Moura, a retrosaria da D. Milu. As casas antigas, onde vivia gente que eu recordo já envelhecida, estão para venda e ninguém as compra. Há gente nova a viver na ilha onde se vendiam tripas enfarinhadas. Ainda lá está a casa de azulejos que um ano teve uma praga de escaravelhos, filas intermináveis de bichos a escalarem as paredes, e coincidiu que por esses dias eu vi o “Marabunta” e esperava a cada dia ver a casa reduzida a pó.

Andei a caminhar por ali, entre ruínas, vi algum rosto conhecido mas vi sobretudo o que já lá não está e por isso só se vê no fundo da memória. Deixei para o fim o que eu mais queria ver: O Café. Quando cheguei perto e vi que mantinha o mesmo nome estava capaz de dar pulos de alegria. É que no Café ensinaram-me a dizer os “efes”, por volta dos meus três anos, quando eu dizia caché, chogão e chrigoríchico. No Café tiraram-me a minha foto preferida da infância. Por ali corri entre as mesas, li os meus primeiros Tios Patinhas, aprendi a jogar flippers, em cima de um banquinho para chegar à máquina. Mas quando ia a entrar descobri que um crime horrendo se tinha passado ali. Qual exagero, qual quê, é mesmo assim.

O Café tinha duas salas: a principal, onde se serviam os clientes, e a de jogos, onde estavam as mesas de bilhar e as máquinas de flippers. Quando se entrava não se via a de jogos, mais resguardada. Se se avançasse um pouco, descobria-se que a parede da esquerda tinha uma abertura para a sala de jogos. E nessa parede estava pintado um painel que na minha memória é belíssimo. Nele havia crianças que se lançavam ao rio, outras nadavam nas águas, recordo-o com vida e cor e brilho. A sala do outro lado tinha algo de transgressor, o jogo, eu entrava lá antes de ter idade para isso, e o painel era simbólico do risco e da vida.  Não sei quem o pintou, nem sequer me recordo se estava assinado.

Mas o que vi, quando cheguei à porta, foi uma única e prosaica sala, a do café. A de jogos tinha desaparecido. Foi emparedada sem que restassem vestígios da sua presença. Apenas uma parede sólida, sem qualquer abertura, e pintada por uma camada grossa de tinta branca. O painel, o maravilhoso painel que se calhar era feio mas eu recordo maravilhoso, desapareceu. Fiquei à porta, tentei entrar, ou nem tentei, fiquei parada, dei meia volta e saí. Raios partam a rua e raios partam o Café. Maldita ideia a de ter vindo cá em vez de deixar tudo como estava, resguardado na memória.

Dizem-me muitas vezes que sou exagerada, eu reconheço-o, e talvez esteja a sê-lo quando digo que senti que me tinham amputado qualquer coisa na memória. Não há, entre as minhas fotos antigas, uma única daquele painel. Também não se tiravam muitas fotos, poucos tinham câmara e os telefones eram coisas inertes, agarradas à parede, que só serviam para falar. Mas nesses anos remotos, o café Juvenil, na Rua de S. Roque da Lameira, em Campanhã, zona oriental do Porto, era frequentado por muita gente e é bem possível que em alguma gaveta repouse, esquecida, uma foto dessa parede que agora deixou de existir. E se há coisa que me pareceria milagrosa seria a que essa foto aparecesse, e que o mural deixasse de ser apenas uma imagem cada vez mais esbatida na minha memória, e irrompesse outra vez no mundo, e com ele os seus ganapos e as águas de um rio. Pensem bem: não terão nenhuma foto nas vossas gavetas?

Comments

  1. João Paz says:

    Aposto que vai conseguir a “sua” foto Carla Romualdo. Obrigado por mais um texto excelente.

  2. Não a posso ajudar, entrei no Juvenil uma ou duas vezes, não sei bem porquê, possivelmente comprar tabaco ou beber um café.A minha mulher, no tempo namorada, morava na mesma rua, não muito distante. Mas, isso foi há muitos, muitos anos.
    Por várias ocasiões fui à Zirinha, que vendia legumes e fruta que ficava a seguir ao café na direcção da ponte, e uma ou duas vezes ao bairro salazar, falar com a Amélia Fontão (amiga da minha namorada).Como a Carla diz no post,o mundo pode ser pequeno.E porquê este comentário se não a posso ajudar? Para lhe dizer que gosto muito do que escreve.

  3. Adenda: e como escreve.

  4. sinaizdefumo says:

    Oilhe menina, as memórias d’infância são pra deixar quedas. Num bula co elas. Se adregar d’incontrar uma foto do tal painel vai ver quas memórias erum falsas ou antão vai-lhe pracer falsa a foto.

    • Ou reencontro o tempo perdido. Sabe-se lá.

      • sinaizdefumo says:

        Parece, parece qu’está perdido mas num está; está arquivado, e se calhar é melhor quò original. Mas prontos quem num arrisca num petisca e a menina quer a foto at’num’é? Prontos, apareça ela é o que l’eu deseijo; eu era mais pra le dzer que num a posso ajudar 🙂

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