os artistas de circo e as pedras das calçadas

Há algo de profundamente humilhante em ver-se, mesmo a décadas de distância e com um bom bocado de mar e largas léguas de permeio, os desacatos e as manigâncias e malabarismos de pessoas que se conheceram numa outra vida, pessoas que, de um modo ou de outro, fizeram parte do nosso universo pessoal.

Colegas de liceu. Colegas de faculdade. Irmãos e primos mais velhos uns, a maioria mais novos, de amigos, colegas, companheiros (e irmãs e primas, mas por qualquer motivo que me finge escapar a maioria das “elas” de então parece ter-se evaporado). Colegas das lides políticas, das lides partidárias, das lides académicas, das lides políticas académicas, das lides políticas partidárias académicas. Amigos, alguns. Outros, conhecidos apenas. Outros, mesmo, inimigos, alguns até virulentamente viscerais.

Pessoas com quem se tocaram mãos, roçaram ombros, partilharam sonhos, ideais. Pessoas com quem se debateram ideias. Pessoas com quem se tentaram estabelecer (quantas vezes ilusórias) pontes de comunicação, já que partilhar ideias – quanto mais os ideais – não seria nunca possível.

Pessoas com quem se andou pelas ruas, com quem se imprimiram e distribuíram panfletos, com quem se colaram cartazes, com quem se arrancaram os cartazes dos outros, com quem se trocaram cigarros e se partilharam trocos e finos.

Outros, com quem se desgarraram insultos, contra quem se imprimiram e distribuíram panfletos, com quem se andou literalmente “à porrada” (ai, mas tanta pancadinha, meus deuses), a quem se borrou a cara de cola com a trincha dos cartazes e a quem se gritou, assanhada, anda, vem, anda cá então, vem cá f***** como ‘tás a prometer, então como é, afinal não és homem…?

[De ’75 a ’85, foi uma década inesquecível. Abandalhava-se já a Democracia, a do D maior, mas eu – e tantos outros – enganava-me ainda que haveria esperança, que ainda se poderia fazer alguma coisa e que o que bastava era querer-se – e continuava a tecer palavras e ideais e a caminhar.]

Pessoas com quem se atirou farinha e ovos e tomates podres a ministros, com quem se puxaram capas de debaixo dos pés de ministros, com quem se recusou apertar a mão de Mário Soares, a quem alguns chamavam já na altura um espantalho vendido. Agora, alguns, quem sabe se os mesmos ou outros diferentes, chamam-lhe apenas espantalho.

Não posso senão achar estranho que, numa era em que tudo se compra e vende, desde pessoas e ideais a países inteiros e ao próprio futuro, uma palavra tão útil como vendido se tenha aparentemente sumido do vocabulário político quotidiano. Deve ser um qualquer efeito hiper-inflacionário: é que andam tantos, mas tantos deles pelos corredores do poder, que a palavra, coitadinha, deve ter deixado por completo de ter cotação no mercado.

Oh, fosca-se, os “gajos” e “gajas” do meu tempo chegaram ao poder!, escrevia eu aqui há uns anos, e relia ontem por curiosidade, ao recuperar o meu disco duro. Pior do que isso, só mesmo o andarem agora a trocar de corredores. Pelo caminho, trocaram de camisolas, e tiraram especialidade de trampolinistas. À laia de treino. E esqueceram-se convenientemente de tanta, mas Oh! Ó p’ra eles, de tanta coisa mesmo. Esqueceram-se, até, de serem humanos. É por isso que, hoje, até alguns tão de esquerda naquele tempo que até a mim me chateavam sobremaneira, andam hoje a comer da fonte eterna do “trickle down”.

Dá nojo ver.

Não conheço ninguém, mas absolutamente ninguém, que não tenha demorado a encontrar o cantinho político em que verdadeiramente pertence, em que se sente peixinho contente a nadar desempoeirado. O 25 de Abril apanhou-nos, à minha geração, no início da juventude. Juntámos a rebeldia da nossa adolescência mal alinhavada à rebeldia política. Rompermos com o passado misturava-se, confundia-se, impunha-se!, com o rompermos com os ditames e as ideias dos nossos pais, esses ‘fascistas’ sem coração que nos oprimiam de manhã à noite com todas essas coisas que já não se usavam. Rebelámo-nos.

Protestámos. Experimentámos. Aprendemos. Experimentámos mais. Aprendemos mais. Tornámo-nos gente, tão donos de nós próprios quanto os tempos nos permitiam, permitem. É natural. Repete-se de uma forma ou outra com cada geração. É o ciclo normal. Mal seria se assim não tivesse sido, fosse – ao longo de toda a vida. Porque parar, estagnar, parece-me, será próximo de morrer. É que a passagem do tempo e aquilo a que se chama “experiência de vida” são mestres, são agentes constantes de mudança, de evolução pessoal. Não, não conheço ninguém que não tivesse andado por várias ruas, a espreitar por janelas diferentes, antes de se decidir sobre onde assentar tenda.

Mas minto. Porque enfim, se pensar bem, até conheço quem não tenha mudado nada, mesmo que alguns tenham mudado a camisola. Conheço-os. São todos iguais: os que conheci pessoalmente, e o resto. São estes artistas que vêm, faz tempo, governando o meu país, o meu solo primordial.

Conheci-os quando, imberbes quase sem barba na cara, achavam que as meninas na política eram nada mais que coutada privilegiada onde eles podiam à solta caçar; quando espezinhavam os processos democráticos e se posicionavam para chegarem onde chegaram (mesmo aqueles que, pelo caminho, acólitos burros e ineptos, acabaram igualmente espezinhados e sumamente humilhados).

Vi-os ler e discutir, babados de admiração, os discursos de Salazar (e não só). É que há amores que vêm de longe e nunca morrem. Mandaram-mos ler, quando lhes chamei fascistas encapotados, qu’era p’r’aprender a fazer política. E eu, sempre tão… monolítica. A olhar para eles, ó p’ra mim, e a ver, em vez duma luta de galarós, uma ninhada de gatos dentro de um saco mal atado atirado a um poço: salva-se aquele que afogar os irmãos para chegar à tona das águas e nadar, e trepar trepar às tábuas até ao cimo.

Conheço-os, sim. O venha-a-mim foi-lhes sempre credo e pai-nosso, e o resto, os outros, Portugal, era-lhes paisagem, escadaria, palco e pano de fundo. Dá nojo lembrá-los.

Porque não é a mudança de cor ou ideias políticas que me confrange nestes tipinhos. Não me chateia nada que o Barroso tenha sido do MRPP e depois tenha descoberto a Social Democracia usado o PSD para chegar onde chegou. O que me chateia é que ele tenha usado. Chateia-me que eles usem, e não contentes abusem. Chateia-me a ausência de responsabilidade e imputabilidade democrática. Chateia-me que, para que todos os Arnauts deste mundo, seja em Portugal, Inglaterra, Espanha, Itália, Irlanda, Grécia, sei lá onde mais, possam chegar ao inner temple do sagrado gral do Goldman Sachs, tenham de f**** o meu país, todos os países, e depois “cagar por ele abaixo”, para parafrasear o meu desbocado pai.

O que me confrange é o abandalhamento completo, a violentação indiferente da ética, dos princípios, da dignidade, da honestidade, da moral. (Como se todas essas coisas incómodas e inconvenientes mais não fossem do que as meninas das coutadas dos jotinhas.)

Chateia-me, sobretudo, porque não é a política que tem que ter moral, são os homens e mulheres que a fazem. As elites que chegam ao poder. E elas não têm. É isso que leva ao que temos, e é por isso que temos o que temos.

Mas eu sempre tão monolítica, tão incongruente, tão teórica que até estudo política, e tão sem ambiçãozinha política alguma que não seja o trabalho de rua, de bases. Eu sou, como o meu futuro marido me disse brincalhão no dia em que nos conhecemos, the embodiment of grassroots activism. Ele sorria. Eu inchei-me de orgulho. Com muito, muito, um inaudito orgulho: regressei, regresso todos os dias, ao meu seio ancestral, ao vento que agitou o peito dos meus avós.

E esta canalhada que anda a chuchar o tutano aos ossos de Portugal, e que se agita pela mais rarefeita camada da estratosfera financeira global, dá-me vómitos. Faz-me asco. Fazem-me sentir suja, humilhada: por tão pouco, tão pouco quanto o alguma vez ter partilhado, com alguns deles, o mesmo momento no tempo, o mesmo ar, as mesmas pedras das calçadas.

Comments


  1. Que fidelíssimo retrato de muitos do nosso políticos!


  2. Bem vinda Nina.
    Já agora, eu apertei a mão ao MS, esse velho gesto de assumir que não trazemos armas; mas tinha, uma senha para ele ir jantar às cantinas…


    • Eu sei, eu sei… E eu até que tinha decidido ser magnânima e apertar-lhe a mão, e isto apesar das piadas todas que dentro da minha ‘batina’ não caberiam quaisquer armas… só que no momento x, com o homem à minha frente de mão estendida… Enfim. E tem piada, eu também tinha comprado uma senha para ele ir almoçar comigo (à de baixo, com a pior comida, vulgo “lavagem”, de todas!!!)

      E obrigada, João José – não era para ser este o meu primeiro ‘post’, mas o primeiro perdeu a guerra com o “more tag”… pode ser que recupere.


  3. Adorei. Excelente imagem da sucata oportunista no nosso país. Felizmente, alguns, poucos, fogem a este retrato.


    • Eu também não disse que era o país todo…! 😀
      Mas a sério – é pena é que haja poucos, e os bons não cheguem ‘lá cima’. No entanto, lembro-me amiúde do dito que afinal até nunca foi dito, e que começa por “o poder corrompe e…”

  4. j. manuel cordeiro says:

    Bem-vinda Nina e boas postagens. Gostei do puxar a capa, se bem que hoje a minha capa velhinha se sentisse demasiado para isso.


    • Nem falo no rasgão na minha, ainda jovem à altura… Mas o caramelo foi à poça de água, com os seus sapatinhos brilhantes do tipo Saville Row. E também não digo nada de como posteriormente explorei o dito rasgão, juntamente com as mitologias e os preconceitos nas cabeças de algun@s… 😀
      (e obrigada, vocês estão a fazer-me sentir em casa…)

  5. Joao says:

    Extraordinário post
    Valeu o dia triste de chuva


  6. Bem-vinda, Nina. E que bela estreia.


  7. Excelenta Nina, que grande estreia! Depois de uma estreia destas serei com certeza (mais) um leitor atento!

    Bem vinda 🙂

Trackbacks


  1. […] … pronto, aventei-me. […]

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