Foi há um ano

Foi precisamente há um ano que finalmente soltaste amarras e, libertando-te do teu corpo terreno já gasto e das doenças e sofrimento que ele te trouxera, partiste.
Finalmente despojado do que em ti havia de material, ficaste tu, as memórias de quem eras e, mais do que isso, as memórias de quem tinhas sido.
Por incrível que pareça, pelo menos a mim parece incrível, quase todos os dias me lembro de ti, penso em ti de alguma forma.
A tua neta mais pequenina, aquela de quem já nem te lembravas muito bem, cujo nome por vezes não conseguias dizer, herdou o teu, o nosso, mau-feitio. Mas não herdou só este lendário génio exacerbado que corre na tua família. Herdou o teu espírito brincalhão, anda sempre a rir, a tua extroversão (de que eu também sou portadora), herdou de ti a meiguice. Sim, que tu eras muito bruto, mas eras também uma pessoa meiga. Lembro-me muito bem de andares frequentemente atrás da mãe a pedir-lhe beijos, sobretudo quando se zangavam. Pois a mais pequena das tuas netas pede logo beijinhos e abraços se nos zangarmos com ela.
Não acredito propriamente na vida para além da morte. Acredito que, de alguma forma, cá voltamos. Não acredito que saibas o que eu sinto neste momento, ou que saibas o que senti ao longo deste ano. Não acredito que percebas o que estou para aqui a escrever. Não acredito que me vejas quando te vou ver ao cemitério. Não acredito que tenhas visto a minha primeira visita ao cemitério. Depois da tua partida, andei cerca de um mês sem lá pôr os pés. Não queria ver a tua fotografia numa lápide, não queria imaginar-te debaixo da terra, dentro de um caixão. Mas um dia passei perto do cemitério e fui ver o jazigo de família. Comprei-te uma vela, azul, pois claro, que um portista como tu até se revirava na tumba se a filha lhe pusesse uma vela vermelha.
Lá fui eu, de vela e fósforos na mão. Quando te vi, a tua fotografia que tão bem conhecia ali, escarrapachada naquela pedra, gritando ao mundo que tu já cá não andavas para nos moer o juízo, não aguentei. Entrei num pranto convulsivo. Não conseguia parar de chorar. Eu, que tal como tu, sou uma chorona convicta, choro por tudo e por nada, nunca me tinha sentido tomada por um choro tão repentino e intenso. Chegou de forma intensa, avassaladora e não lhe resisti. Chorei, chorei, chorei, até esgotar as lágrimas. No meio daquela choradeira, não conseguia acender a vela.
Finalmente, lá a acendi, pousei-a na campa e vim embora. Olhei uma última vez para aquele sítio e saí do cemitério.
Sabes, sempre te disse a ti e à mãe, que dou muito mais valor ao que se faz às pessoas em vida do que depois da morte. Sabes que eu não sou pessoa de visitar cemitérios. Não faço o que se faz num cemitério, não arranjo as flores da campa, não passo a mão pela tua foto, não converso contigo. Simplesmente, das poucas vezes em que vou, vou e fico ali a recordar a tua vida, a nossa vida em conjunto. Recordo alguns dos episódios engraçados, como quando despejaste um balde de água em cima do trolha que tinha atirado com algo ao Pantufa, o nosso cão, quase teu filho, que religiosamente passeavas todos os dias. Ou os episódios heróicos como quando ajudaste a prender um gang de ladrões procurado pela polícia. Ou os episódios de humanidade e de pessoa boa que tu eras, como quando davas tudo o que tinhas para ajudar quem precisava ou quando mandaste o Pantufa embora para que o homem que te queria bater não lhe fizesse mal. Ou os episódios maus, como quando nos zangávamos. As nossas zangas eram monumentais. Zangas de pessoas impulsivas, apaixonadas em tudo o que fazem, até nas zangas, zangas de pessoas que se querem bem. Evito, lá e cá, pensar em ti acamado, cada vez mais débil, sempre, sempre, sempre a resmungar, a tratar mal toda a gente. Tenho a certeza que não quererias que me lembrasse de ti assim. Foste um homem intenso, com muitos defeitos, como o costumam ser as pessoas intensas. Como eu sou. Foste tudo menos perfeito. Nós os dois, por sermos tão parecidos, andávamos sempre com diferendos, mas sinto a tua falta. A falta de quem eras antes da doença se ter agravado e ter dado cabo da tua vida, da tua liberdade. Sinto falta das tuas preocupações comigo (Ó Nena, estás magrinha, tens que comer, rapariga, olha-me esses pulsos!), sinto falta do teu orgulho em tudo o que eu fazia (A minha filha é «intrépeta» na fábrica, a minha Nena é professora), sinto falta dos teus palavrões quando vias os jogos do Porto, Sinto falta de quando ralhavas comigo porque o teu genro andava mal vestido, para ti andar bem vestido era andar de fato (Olha-me pró teu marido. Ele é professor, caralho, tem que andar vestido em condições. Mas não sou eu que o visto, pai. Ele é que sabe. Ele é que sabe? Foda-mo! Então uma mulher não dá a roupa ao marido para ele vestir?! Se ele anda mal vestido, a culpa é tua!), sinto falta do cuidado que tinhas com os teus netos pequeninos. Lembro-me de quando a Leonor nasceu, a primeira dos teus netos bebés, os outros já eram adultos, vieste cá a casa para a ver, já não tinhas saúde para me visitar na maternidade, agarraste nela e correste pela sala com ela ao colo, nós com receio que a deixasses cair, e tu tão feliz com aquela netinha recém-nascida nos braços. Acho que nunca te vi tão feliz como nesse dia.

Sinto falta de ti, pai!

Comments


  1. Lindo! Comovente! Realçando o que muitos filhos escondem.

  2. Eduardo Louro says:

    Lembro-me de aqui ter vindo há um ano. Hoje regresso para lhe deixar um abraço. Benfiquista, mas não menos abraçado!


  3. Dizer-lhe que antes de ler o texto soube exatamente sobre quem era, pelo título. Há um ano escreveu um, depois dessa infelicidade,de que me recordei de imediato! Uma boa semana para si!

  4. Maria Anjos Catapirra says:

    As suas palavras, podiam ser as minhas, com pequenas alterações de opções em vida. Também foi há um ano (30/01). Cá ficam as saudades imensas. Muito obrigada por conseguir expressar em palavras o que vai cá dentro. Um beijo

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