O meu quase amigo mafioso

Quem vê filmes está farto de saber que mafioso que dê com a língua nos dentes frente a um juiz, e com isso atire para a choldra os seus antigos compinchas, tem de começar vida nova, com outro nome, noutra cidade, com outra ocupação, se quer manter-se vivo. O que muitos não sabem é que isso também se faz por cá, não é só na Pensilvânia  ou no Massachusetts, e eu também só fiquei a sabê-lo quando conheci o Alfredo (chamemos-lhe assim).

O Alfredo é um tipo baixote, com papos debaixo dos olhos, nariz partido de boxeador, um intervalo entre os dentes da frente, cabelo reluzente e sempre penteadíssimo, calça vincada, sapatos de tacão sonante. Conheci-o no pão quente que abriu no meu bairro, um sítio que não teria interesse nenhum se não fosse o Alfredo, porque o pão é fraco, a sala – de paredes nuas e muito brancas, luz de unidade de cuidados intensivos – faz-nos sentir desconfortáveis, e à boa maneira portuguesa sopra ali vento por todos os lados. O Alfredo avançou para a mesa com passos enérgicos, ar de quem ia resolver logo ali um imprevisto que não permitiria que lhe arruinasse os planos, e atirou-me, à queima-roupa:

– Bom dia. Faz favor.

Eu estremeci, mas não dei parte de fraca, e pedi-lhe uma meia de leite e um croissant.

Ele disse que sim com a cabeça, que me perdoava a vida, fez que ia para o balcão mas recuou de novo.

– Com açúcar ou adoçante?

– Sem nada.

Foi o princípio da nossa quase amizade.

Trouxe-me depois o pedido, sem mais comentários. Mas quando eu já estava quase a acabar o croissant, vi pelo cantito do olho a sombra dele a aproximar-se pela minha esquerda, e mal tive tempo de voltar-me. Pousou as mãos de dedos finos e unhas bem cuidadas (talvez não saibam, mas os mafiosos têm sempre unhas esmeradíssimas), sobre o tampo da minha mesa, debruçou-se para mim, e eu soube que vinha aí uma proposta que eu não podia recusar.

– Estamos com uma promoção, pode levar dois pastéis e pagar um.

Olhava-me bem nos olhos, falava quase num sussurro, havia gravidade na sua expressão, solenidade na proposta. Não era um homem habituado a tratar trivialidades e não sabia como fazê-lo. Para ele, tudo era sempre questão de vida ou morte.

Eu, que nem sou de pastéis, fiz que sim com a cabeça e engoli em seco. Pareceu-me ver alívio na expressão dele, talvez porque começasse a simpatizar comigo e a minha recusa deitasse tudo a perder. E à saída, enquanto amarrava a caixa dos pastéis com gestos rápidos e precisos, e eu me arrepiava só de pensar que podia ser o pescoço de alguém, parecia satisfeito, quase a ponto de começar a trautear alguma música antiga, muito sentimental, como cabe a um bom mafioso. Soube que havia ali uma história e decidi que regressaria as vezes que fossem precisas até poder ouvi-la. E assim foi.

Por razões óbvias, não posso contar essa história. Envolve actividades ilícitas, redes organizadas de malfeitores (palavra infelizmente caída em desuso), honra, traição e arrependimento. Fui escutando-a em sucessivas sessões, hoje uma meia-de-leite, amanhã um café cheio ao balcão, um pãozinho da avó com manteiga,  um pastel de nata com canela, logo uma sopa, prato do dia, um cachorro, uma tosta mista, engordei quatro quilos à custa das confidências dele, e muito ficou por contar, muito teve de ser intuído porque ao Alfredo custa-lhe recordar algumas das coisas que fez, se bem que por vezes eu não consiga perceber se por arrependimento ou porque nunca mais poderá repeti-las.

Nos intervalos do trabalho, o Alfredo fica à porta, a observar discretamente quem passa. Fuma um cigarro, um único cigarro em cada pausa, um cigarro vagaroso, que parece desprender mais fumo do que todos os outros, e que o vai escondendo aos nossos olhos, como se assistíssemos a um número de ilusionismo que culminará no discreto desaparecimento de alguém em quem nunca reparámos.

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Comments

  1. Cesar P. Sousa says:

    Muito ,muito …..muito BOM !!!!!!

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