O monóculo de Salazar

Uma vida que dava um filme, tipo vida e obra de um canalha: António de Spínola, o esquecido herói da direita no PREC, perdeu, aos vencidos já não honram.

Da Divisão Azul hitleriana passou por um dos mais hediondos crimes do colonialismo, o assassinato de Amílcar Cabral, e terminou como dirigente terrorista, dado pelo meio o golpito de estado da tarde de 25 de Abril de 1974 que o faz presidente da República.

Durante alguns meses, os primeiros de liberdade, o monóculo foi Spínola e Spínola o primeiro presidente com quem nos era permitido brincar, criticar e gozar, sem medo aos homens que tinham por profissão termos medo. Spínola e o seu monóculo foram o brinquedo novo dos portugueses, que tinham apenas tinham experimentado, às escondidas, com as botas de Salazar.

spinola

Após 40 anos, no Público, lá percebi como segurava Spínola o seu monóculo. As vezes que tentei com uma lente normal, quantas tantos fizemos o mesmo, caía, já pensava ser uma característica ocular que só nascia a fascistas, afinal tinha truque, como de costume.

 Fotografia: Alfredo Cunha, detalhe de uma capa do Público.

Comments

  1. Uma figura sinistra que o Presidente da República Mário Soares,não se esqueceu de lhe atribuir várias condecorações.

  2. mas então… não foi o MFA que o chamou para governar?

  3. Caro João, o post não faz referência do canalha enquanto PR.
    Porque fala do MFA recordo que o mesmo tinha no seu seio figuras Salazaristas de primeira água: Galvão de Melo e essa figura sinistra Silvino Silvério Marques.

  4. Uma imprecisão: que o gajo foi um, canalha não há dúvida, mas associar-lhe o assassinato de Amílcar Cabral contraria tudo o que de sério já se publicou sobre o assunto. Foram dirigentes do próprio PAIGC que mataram Cabral,.A Spínola e à PIDE não se poderá imputar esse crime, embora o tenham tentado. Confundir conhecimento histórico com propaganda é complicado…

    • ” Por isso, concluíram, como Roma gizou a morte de Viriato, Lisboa iria gizar a morte de Amílcar Cabral.

      “Devíamos ter previsto o que aconteceu, tanto mais que em 70 houvera a agressão a Conacry, organizada pelas tropas colonialistas, que atacaram Conacry, desembarcaram em Conacry, atacaram a casa em que nós vivíamos… E havia informações, vindas de países amigos, de algumas confissões de elementos infiltrados, que referiam esse plano, embora, creio, para mais tarde… Devíamos ter sido muito mais cuidadosos… Mas a personalidade do Amílcar também não ajudou, era um indivíduo que detestava andar com guarda-costas, não facilitou o trabalho da segurança. Nesse dia mesmo, estávamos os dois sózinhos…”

      Ana Maria disse-o, julgo lembrar-me, com um pequeno sorriso. Como quem se desculpa de um erro – mas também como quem sente um certo orgulho por esse traço do companheiro, ainda que possa ter ajudado a conduzir à sua morte. Para a viúva de Amílcar, não há dúvida que a personalidade dele, o seu arreigado humanismo, facilitaram a tarefa dos seus inimigos:

      “Recordo-me de alguns dos principais agentes infiltrados, que fizeram o trabalho da desmobilização, e depois foram desmascarados e presos… Ele queria-os libertar… Era contra que se guardasse um indivíduo preso mais que umas semanas…”

      O seu repúdio pela violência (não se opusera ele sempre ao terrorismo e a qualquer ataque contra civis?), a sua tendência para o diálogo (não declarou sempre pronto a negociar com Lisboa?) poderão ter precipitado também a sua morte, já que, frente aos que pretendiam amarrá-lo, resistiu, declarando preferir ser morto a ser amarrado: “É por isso mesmo que eu luto, para que deixemos de amarrar as pessoas… O ser humano não pode ser amarrado. Se há problemas, vamos sentar, vamos discutir, vamos conversar.” Nesse dia 20 de Janeiro, Ana Maria e a secretária de Cabral foram presas pelos atacantes da casa que tinha, até aí, servido de prisão aos infiltrados. Mas, diferentemente do que se passou com os restantes dirigentes “cabralistas”, não foram ameaçadas de fuzilamento no dia seguinte. Os atacantes queriam primeiro que lhes dessem toda a documentação pertencente a Amílcar Cabral.

      Aristides Pereira, esse, foi amarrado e levado para um barco, e depois libertado pelos homens da Marinha da Guiné Conacry que, a bordo de um barco soviético, conseguiram apanhar o barco dos raptores antes que deixasse as águas territoriais guineenses. Para além delas, segundo Ana Maria, haveria um outro barco à espera: “Nesse barco estariam os colonialistas, e esse barco é que o levaria a Bissau.”

      Os raptores eram gente do próprio PAIGC, virada contra a direcção do Partido por elementos infiltrados, manobrados pelos portugueses, muitas vezes para tal libertados das prisões, por vezes do próprio Tarrafal – que apareciam em Conacry,ou nas zonas libertadas, dizendo ter desertado, ou fugido das prisões, e que os combatentes recebiam de braços abertos.

      “Era impossível dizer a um africano que se apresentava: ‘Vai-te embora, nós não confiamos em ti, és um agente da PIDE.’ Era impossível.”, explicou-me Manecas dos Santos. “Tínhamos de tomar as precauções necessárias, investigar aquilo que fosse possível, mas não podiamos recusar a vinda de nacionalistas que se queriam juntar a nós. Não era um procedimento aceitável.” Houve portanto infiltrações e, segundo Manecas, “tudo leva a crer que, na base dessas infiltrações, esteve o assassinato de Amílcar Cabral.”

      “Esses agentes infiltrados trabalharam contratando os descontentes, os que tinham tido algum problema. Claro, não os mobilizaram dizendo que iam matar o Cabral, mobilizaram dizendo: ‘A luta vai acabar, Portugal está de acordo em entrar em negociações connosco, nós temos é que entregar os dirigentes, vamos entregar o Cabral aos colonialistas, vamos levá-lo para Bissau. A partir daí já será fácil entrar em negociações com Portugal.’”
      http://caminhosdamemoria.wordpress.com/2010/01/20/conversas-sobre-amilcar/

      • JgMenos says:

        Uma história da carochinha que nada tem de verdade histórica.
        Para os revolucionários da treta sobra a certeza de que sem a utopia do livro do Spínola – Portugal e o Futuro – nunca os comunas no MFA teriam mobilizado uma charrua, quanto mais pôr orças blindadas nas ruas!!
        Falta de vergonha nas trombas é o que mais se vê em treteiros que se montaram num golpe equívoco a vários títulos, e se arvoram agora em autores de uma revolução que cedo abortou.
        Fiquem com os louros de dezenas de anos de guerra e de uma ainda resiliente miséria em África, que é isso que vos toca por inteiro.

        • O livro que o homem nem sequer escreveu, e que a esmagadora maioria dos operacionais do 25 de Abril (operacionais, não falo dos que borregaram ou não cumpriram, como o Jaime Neves) pura e simplesmente desprezou, e sobre isso falam dezenas de documentos.
          Carochinha, aliás, é um idiota que mistura “comunas” com MFA, onde não militantes do PCP eram poucos ou nenhuns, a mistificação não tem limites. Digno de quem prefere a ocupação estrangeira a dificuldades económicas.
          Venda-se você, ó traidor.

        • José Peralta says:

          JgMenos

          Ora agora, desmente lá, mais esta “história da carochinha”!

          Falta de vergonha na tromba do lunático de monóculo, a quem até os fascistas brasileiros recusaram apoio , depois da sua traição e fuga, que lhe devia ter dado uns bons anos de prisão, mas foi premiado com o título de “marechal” !!!!

          http://www.publico.pt/politica/noticia/quando-spinola-quis-invadir-portugal-com-ajuda-do-brasil-1633441

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