é uma casa inglesa, com certeza…

tenda nos arbustos do separador da circular interna em Wolverhampton 2

… é com certeza uma casa inglesa!

Paredes de nylon azul,
um jardim de relva cortada
uma porta virada a sul
e mesmo à borda da estrada!


E nesta “casa”, armada no meio dos arbustos no separador central da circular interna da cidade de Wolverhampton, nas West Midlands, em Inglaterra, vive alguém que perdeu a casa porque perdeu o subsídio de desemprego porque não fez qualquer coisa “da maneira certa”.

Crimes, atentados tão hediondos como, por exemplo, esquecer-se de preencher um dos campos do formulário; ou a funcionária achar que candidatar-se a 15 empregos em 15 dias não chega, e se ele conseguiu quinze poderia ter conseguido candidatar-se a 30 (que importa que 80% dos empregos no ‘website’ onde tem de se registar obrigatoriamente sejam falsos, apenas um esquema para os amigalhaços do reino se engordarem ainda mais? Estão lá, não estão? O quê, é pedreiro e não sabe estenografia? Incompetente! Desculpas de mau pagador, tudo manhas para não arranjar emprego e continuar na mama!)

Ou então chegar 5 minutos atrasado para a entrevista do centro de emprego; ou chegar antes de tempo e ser impedido de entrar pelo segurança, e quando acabou por o deixarem entrar foi com dois minutos de atraso e pumba!, sanção.

Ou então porque, num país onde o parque habitacional é 90% de casas ou apartamentos com mais de dois quartos, ficou com a renda em atraso por ter de pagar a “taxa do quarto de dormir extra”, e acabou despejado. Ou por qualquer outro motivo.

O serviço de emprego e o Departamento de Trabalho e Pensões são prolíficos e extremamente criativos, e não são dados as descriminar razões, por exemplo entre o que é justo, e o que não é. Quantos mais sancionarem, mais a contabilidade e as estatísticas para o mês fazem parecer que estão a ser extremamente eficazes – e sobretudo a falar verdade e que têm imensa razão em toda a propaganda anti-estado social que têm vindo a debitar desde 2010 – e bem sucedidos em cortar nestes “chulos” todos que andam a mamar à grande na teta do estado, e a que é preciso pôr cobro seja como for. Estes, os deficientes, os idosos, os doentes, enfim, toda esta “chularada” sem vergonha que tem a impudência de precisar de assistência e se achar cidadão com direitos. Esta gentalha toda que desenvolveu esta “cultura do temos direito”, e se convenceu que realmente são gente – é que é preciso mesmo é acabar com isto tudo, todas estas gorduras que custam ao estado tantos milhões, um verdadeiro desaforo e sobretudo insustentável!

Deparei-me com a tenda sexta feira quando ia a caminho do hospital. Voltei lá hoje para fotografar. Encontrei-o por perto. É jovem, tal como a grande maioria dos sem abrigo, sem emprego em Inglaterra. Falou-me dos outros, muitos, que conhece, e que vivem em circunstancias idênticas pelos separadores e zonas ajardinadas da cidade – como se eu não o soubesse.

Houve uma rapariga que tentou viver assim no perímetro da minha aldeia, até que os honestos cidadãos se uniram para a escorraçar, porque podia ser uma criminosa, sabe-se lá, esta gentalha assim, estes indigentes, quem sabe se até mesmo uma pedófila, e aquilo ali era mesmo ao pé do parque infantil, e não podia ser, é que não podia ser mesmo. A essa, e para indignação da boa e íntegra e vertical gente desta aldeia, levámo-la eu e o meu marido à cidade, no nosso carro,  e demos-lhe £20, insistimos, para se remediar. Pudéssemos nós mais ter feito.

A certa altura, conversa a meio, o rapaz tirou do bolso do anorak uma pirisca de cigarro, para aí de um terço a metade por fumar, calcada e suja. Reconheci imediatamente: tornou-se vulgar ver (sobretudo) jovens apanharem piriscas dos passeios, ou dos lugares designados para fumadores no exterior dos blocos de escritórios ou dos ‘pubs’ e estabelecimentos comerciais.

Não sei se terei franzido o nariz. Ou a testa. É quase impossível de o não fazer, com todas as imagens que de repente fazem fileira para nos invadirem a mente, coisas que se vão vendo por todos os cantos e mesmo sem se querer. O rapaz olha para mim desconfiado. Não o censuro. O que poderá esta avó gordinha e anafada e de cabelo grisalho saber da vida que ele sabe, como ele sabe? Decerto julga-se apenas “uma curiosidade” aos meus olhos – se calhar, julga que o olho com os olhos curiosos da ‘caridadezinha’ da ‘big society’ a que o Cameron e o seu governo tanto estão apegados como solução, como substituição do estado social. É que, tal como ele diz, afinal isto “é um país Cristão”.

Falo-lhe das redes a que pertenço, explico-lhe que para além disso escrevo para blogs. Ele atira-me uns nomes, eu rio e digo-lhe que sei muito bem, atiro-lhe outros. Relaxa. Digo-lhe que vou contar a história dele, em Inglaterra e em Portugal. Só me pede que o não fotografe: tem vergonha. Tem o seu orgulho. Tem uma qualificação vocacional de nível 3 (NVQ3). Só não há é empregos. Pergunto-lhe se lhe posso emprestar algum, que me paga quando tiver trabalho. Olha-me de frente e agradece-me por não o insultar, mas não, obrigado.

– “Não sou o primeiro nem hei-de ser o último, e não sou certamente o único, e você não pode emprestar uma “tenner” a todos nós…”

Pergunto-lhe o que faz para comer. Mostra-me uma harmónica de bolso, daquelas complicadas que parecem ter vários andares, diz-me a passagem subterrânea onde normalmente se encontra sentado a tocar. Por casa de banho, usa o MacDonald’s. Às vezes ao fim do dia, se o gerente lá não está, um dos amigos dele que lá trabalha dá-lhe os restos, em vez de os deitar para o lixo, como é do regulamento, mas tem de ter muito cuidado porque senão é despedido, e então seria mais um como ele. “Naquele estado”. Conta-me como teve que dar o seu companheiro, um Springer Spaniel que tivera desde cachorrinho, pois embora lhe granjeasse muito dinheiro…

– “…As pessoas comovem-se mais quando vêem um cão, sabe, toca-lhe as cordas aos corações e dão mais dinheiro, o dobro ou o triplo…”

… aquela vida, viver assim – “como isto”, e aponta por ele abaixo com ambas as mãos – não era vida para se dar a um cão.

Aperto-lhe a mão à despedida.

– “Se passar pelo túnel à hora de almoço, lá entre o meio-dia e as duas,” – diz-me – “pode-me ouvir tocar aqui a minha Mary. E às vezes no Verão também “como fogo”, na High Street…”

Ainda não tinha atravessado a estrada, e já os olhos se me toldavam de água. E chamam a isto “a mãe das democracias”. Irra!

tent under ring road bushes 1

Comments

  1. Obrigado nina luz, pelo quadro.
    “Aí como cá o país está melhor”

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