O dia em que a vida muda

Foi ontem. Vi as notícias de manhã e revivi por dentro aquela fracção de segundo em que nos cai a ficha. É um instante. Ao final do dia recebi um telefonema da Paula. Nunca me passara pela cabeça que também fora apanhada naquela rede. Ontem foi ela, também.

Tem-se escrito muita coisa pela net fora. Muita solidariedade por detrás do monitor, que os jornalistas são uma classe valente. E eu espero que, uma vez na vida, esta tarde muitos façam corar de vergonha a parede da administração da Controlinveste. Se não servir para mais nada que sirva para dar um abraço aos que hoje acordaram sem saber o que fazer à vida. Às vezes um abraço vale muito, vale tudo.

De tudo o que li por aí, ficam-me dois escritos: o do Pedro Santos Guerreiro, no Expresso, e o do Helder Robalo, camarada do DN, e que diz isto:

Por ti apanhei sol, chuva, frio e vento.
Voei por esse alcatrão fora para chegar a horas onde deveria estar horas antes.
Bati à porta da família do morto e ouvi o relato de felicidade entristecida do sobrevivente.
Andei de mala feita quase constantemente e até dias seguidos andei com a mesma roupa, por ti.
E perdi dezenas, centenas, talvez mesmo milhares de horas de sono, por ti.

Trabalhei, dez, doze, 16 horas seguidas. Até directas à porta do tribunal fiz.
Fui ameaçado de pancada e só por sorte por vezes não a levei mesmo.
Vesti a camisola, tentei dar sempre o melhor de mim, mesmo quando vi que te destruíam.

Vi partir grandes amigos, gente boa. Gente que merecia um abraço, um carinho, um Obrigado. Redundantes, disseram.

Sabia que este dia iria chegar. Há um ano que, no íntimo, o sabia. Mas continuei a dar-me a ti. Tentei dar a cada dia o melhor de mim.

Continuarei a dar-me.
Até ao fim.
Porque, no fim, a culpa não é tua.

 

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