O jornal que canta de galo

Chama-se Jornal de Barcelos. E é grande16491552_1355826357801781_1345984516_o

O dia seguinte, sub-óptimo

Voltei do 4º Congresso dos Jornalistas Portugueses de coração cheio, peito aberto, e dores nas costas. Já não tenho 25 anos como naqueles dias de Fevereiro e Março de 1998, quando acontecera o último fui pela última vez a um congresso,  já não sou uma privilegiada-dos quadros-de uma empresa de comunicação social, mas – sabe-se lá porquê – continuo a ser jornalista. Ainda me entusiasmo com as histórias dos outros, ainda insisto, ainda resisto. E por isso lá fui três dias para Lisboa, à guarida da Sandra. Levava na mala uma comunicação escrita a 10 mãos, algures entre Leiria e Coimbra, para ler na sexta-feira de manhã, num painel que poderia servir para nomear todo o Congresso: O Estado do Jornalismo. Pelo teor do escrito, também poderia caber naquele outro painel que se chamava”As condições de trabalho dos jornalistas”, já que fala sobretudo do fim das Redacções fora de Lisboa, do abandono do país por parte dos Media, da solidão dos jornalistas-freelancers-precários. Li aquilo de rajada e fui-me sentar outra vez, a ouvir os outros. Chorei muito mais do que ri, durante aqueles dias. [Read more…]

“Eu é que escolho”. E quem é que paga?

No princípio do verão de 1987, o meu pai chegou a casa com uma indicação de agenda, para uma tarde na Associação da Moita do Boi. Constava que deixaria de haver transporte para a escola da Guia,  transformada em C+S depois do 25 de Abril, antigo externato privado. Além disso, estava a nascer no Louriçal “um colégio novo” – que oferecia transporte, claro – e um dos sócios dispusera-se a explicar, detalhadamente, a cada família, o projecto no seu todo. Lá fomos. Nunca me esquecerei da imagem de António Calvete, à época rapaz de sub-30, camisa e calça de ganga, sapatilhas, óculos redondos e olhar certeiro. Estava sentado sozinho, numa mesa ao cimo daquele salão de baile. Falava pausadamente, discurso estudado e fluente, abusava da bengala de linguagem “no fundo”, e no fundo eu sabia que de pouco adiantava dizer ao meu pai que não queria estudar no Louriçal, que ninguém queria passar os dias na vila, que vivia há anos na sombra do foral manuelino e do convento, mais o mercado ao domingo. Estava escrito nas estrelas, e lá fui, meses depois, para o primeiro 9º ano da vida do Instituto D. João V: 300 pessoas ao todo, entre alunos, funcionários e professores. 50 professores. A nata da nata que havia em Pombal e Figueira da Foz.
Naqueles primeiros tempos da escola fomos todos muito felizes. [Read more…]

A Trofa, os jornalistas e a imprensa regional

Foi ontem, numa terra onde eu nunca tinha estado, que senti o quanto valeu a pena. Decorria em Vila Nova de Famalicão  o [primeiro] Encontro de Imprensa Regional e lá fui, à procura dos pares, saber como páram as modas a norte – onde os jornais são mais antigos, são muitos e ainda empregam muita gente. Tinham passado apenas umas horas desde que o Sindicato dos Jornalistas emitiu um comunicado a propósito do (inenarrável, mas real) caso da apresentação pública na Trofa, a semana passada, de que tive conhecimento por aqui mesmo, num post do João Mendes. [Read more…]

Guia para a visita de Nuno Crato ao concelho de Pombal

Quanta honra. O ministro da Educação, Nuno Crato, visita hoje, dia 16, o concelho de Pombal. O programa de visita ainda não foi divulgado, mas sabe-se que prevê quatro paragens, em tempos de abundança.
– Centro Escolar de Almagreira (9h45)
– ETAP (10h50)
– Escola Marquês de PombaL (12H00)
– Escola Secundária de Pombal (12h25)

Uma manhã em cheio para Crato. Como é a primeira vez que vem a Pombal, nesta legislatura, vamos fazer a gentileza de lhe preparar um guião para a visita.O ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, intervém na assinatura de protocolo para instituir o projeto KEY for Schools Portugal, esta manhã na Escola Secundária Dr. António Carvalho de Figueiredo em Loures, 13 de setembro de 2013. MIGUEL A. LOPES/LUSA

[Read more…]

L, história do menino que não pediu para nascer

Conhecemo-lo muito antes de nascer, mal se anunciou a inesperada gravidez da mãe, que nascera poucos meses antes de nos mudarmos para esta casa – faz agora 18 anos. Vimo-lo crescer na barriga dela, assistimos ao tsunami que aconteceu na porta do lado, depois disso, e que resultou numa família desfeita. Sempre preferi o barulho, porque só ele nos permite saborear o silêncio. Dos que vivem em silêncio, nunca sabemos o que esperar. Como aconteceu com a J., mãe do L, que naquele dia em que a mãe dela me pediu que lhe falasse, para a tentar convencer a (pelo menos) perceber as mudanças que a vinda de uma criança iria implicar na sua ainda tão curta vida, com a agravante de ter feito uma delicada cirurgia havia ainda pouco tempo. Para o resto da vida hei-de lembrar-me do silêncio, de como ocasionalmente levantava os olhos do ecrã do telemóvel para me dizer, com meio sorriso, “vai correr tudo bem”. E correu, até há dois dias. [Read more…]

Os invisíveis

FullSizeRender (1)

Somos tantos, senhores. Tantos que não contam para as estatísticas, porque não há estatísticas. Na onda deste retrocesso civilizacional que nos apanhou nos últimos anos, há milhares de jornalistas que vivem e trabalham fora de uma Redacção, em regime freelancer, que tantas vezes se mistura com a precariedade. Em casa, na sua esmagadora maioria.

Uma grande parte chegou a esta condição pela via do desemprego, nos últimos anos, depois de levar aquele “coice de mula” de que falava Óscar Mascarenhas. É a geração dos ’40 que predomina, mas o fenómeno está a ganhar dimensões gigantescas: a maioria dos jovens que agora chega à profissão nunca vai conhecer qualquer vínculo laboral, depois do estágio.  [Read more…]

É o retrocesso, estúpido!

camaneA manchete do Jornal de Leiria desta semana remete-nos para algo completamente novo: A Diocese de Leiria-Fátima acaba de proibir o concerto de Camané, agendado para o dia 25 de Abril, na igreja do Mosteiro da Batalha. * O senhor bispo invoca uma norma da Santa Sé, datada de 1987, para fechar as igrejas à música não-religiosa.

Quer dizer que pequei, naquela primavera de 1994, quando assisti (entre centenas) ao concerto dos Madredeus. Quer dizer que pecaram todos os outros que assistiram a todos os outros concertos nas Igrejas do país. Pensando bem, isto era um bocado perigoso: juntar as músicas de Alfredo Marceneiro, Amália Rodrigues e Carlos do Carmo em pleno 25 de Abril…estavam mesmo a pedi-las.

Entretanto, a Diocese já veio esclarecer.

* o concerto mantém-se no Mosteiro, mas no claustro.

Então cala-te e continua a remar

Portugal, Fevereiro de 2015. A vida cá dentro (des)corre como de costume. “Nós andamos do jeito que Deus quer, entre os dias que passam menos mal, lá vem um que nos dá mais que fazer”. Naquele, que é 25, vais testar outra vez o que resta do nosso Serviço Nacional de Saúde. Tão bom, ainda. Tão maltratado, porém. O Hospital chama os doentes um dia antes das intervenções cirúrgicas. Não há, à partida, uma razão plausível. Talvez tenha a ver com o facto de haver cada vez menos gente a trabalhar nos diversos serviços, e o tempo, implacável, não chegar para tudo, nem para cinco minutos de questionário aos que chegam para remover do corpo o que não está bom. Cinco minutos, seguidos de outros cinco, que os enfermeiros gerem o melhor que conseguem para o tal “acolhimento”, para te fazerem sentir tão melhor quanto conseguem. Na sala de espera almoças, lanchas e jantas. Matas o tempo o melhor que consegues, em frente ao país que passa na Tv a horas certas, entre o saudosismo que o Herman exibe e o melodrama que passa de canal em canal. Um país pode medir-se por aí, pelos seus programas de televisão, feitos a pensar num público que não pense muito. E ali ao lado, ao teu lado, hás-de cruzar-te com cada fatia desse Portugal que agoniza, sob o olhar displicente dos que insistem em acreditar isso da crise foi tudo inventado por meia dúzia de malandros que não querem trabalhar. Desse bolo faz parte aquela senhora de meia idade com quem hás-de partilhar mais tarde a enfermaria. A reforma chega para o bife, aprendeu a lidar com as novas tecnologias, tem um telemóvel moderno e até conta de Facebook. Do lado de lá, vai lendo em voz alta as notícias que lhe aparecem no feed.

– “Jovens até aos 18 anos vão deixar de pagar taxas moderadoras”! Sim senhora, uma boa coisa. Está aqui, na página do Partido Social Democrata!

Na cama do lado, outra fatia. Mais nova, velha demais para o serviço, a senhora de olhar triste diz que já não era sem tempo. [Read more…]

O estranho caso do Agrupamento de Escolas de Pombal

Há cerca de um ano que o Agrupamento de Escolas de Pombal está sem conselho geral. Sem órgão de gestão, portanto. Como os meus dois filhos são alunos de escolas distintas do mesmo agrupamento, escrevo daqui a Nuno Crato, ministro desse Governo deste nosso Portugal, a ver se resolve o assunto que até agora nenhum dos seus serviços conseguiu resolver. Não é por nada, mas as escolas estão sem planos de actividades, impedidas de diligenciar. Estão em causa cerca de 3200 alunos. E temos aqui um problema: o senhor presidente da Câmara diz que não toma posse (mais o senhor vereador, mais um professor amigo, mais a senhora presidente – e a vice-presidente –  da associação de pais-que pensava-que-bastava-nomear-quatro pais-para-o-órgão-em-causa – e que por isso a eleição de outros pais, de fora do sistema, tem de ser considerada ilegal. Ora acontece que a DREC e a DGEST já analisaram, já pediram pareceres jurídicos e já opinaram. E que, uma vez considerada legítima e legal a eleição dos representantes dos pais, só falta concluir o processo da tomada de posse, de um conselho geral que tem carácter provisório. Imagine-se se não tivesse. [Read more…]

A grande mentira

Pedro,

Soube ontem do seu regozijo pela alegada descida do desemprego no país. Li o título e pensei que também podia chamar-se “a farsa”, ou “a fraude”, aquela peça que até seria cómica se não fosse trágica. Era já noite, moro a uns 150 km da sua realidade,e nunca tive o prazer de me cruzar consigo para lhe apresentar a outra, em que vivem milhares de portugueses – obviamente piegas e inevitavelmente acima das suas possibilidades, pois que insistem em comer todos os dias e em sobreviver, de forma por enquanto irrevogável. [Read more…]

O dia em que a vida muda

Foi ontem. Vi as notícias de manhã e revivi por dentro aquela fracção de segundo em que nos cai a ficha. É um instante. Ao final do dia recebi um telefonema da Paula. Nunca me passara pela cabeça que também fora apanhada naquela rede. Ontem foi ela, também. [Read more…]

Sim, Carolina

Na semana passada a Sílvia Caneco trouxe no i esta arrepiante história daquilo em que nos estamos a tornar, enquanto sociedade. Primeiro revoltei-me, depois angustiei-me, e depois fui tentanto digerir aquilo, enquanto olhava para o meu filho, da idade da Carolina. Só um pouco mais  novo que os rapazes que lhe fizeram aquilo. Apanhei-o à porta da escola e olhei para lá. Vi as raparigas todas a saírem para a rua, tão cheias de graça e de vida. Foi nesse dia que recebi uma mensagem Mãe que Capotou, a perguntar o que poderíamos fazer. Foi também quando a Sónia Morais Santos partilhou a ideia que nascera em modo quadripolar. E foi o que me fez voltar ao Aventar, para vos dizer que é preciso devolver a vida à Carolina e aos pais dela. Depois soube que está tudo a encaminhar-se. Indignem-se, por favor, mas reajam. O mínimo que podemos fazer por nós e pelas nossas Carolinas é isso. Não permitir que voltem a pintar-lhe lagartos na saia.Dúvidas e dádivas podem ir bater ao e-mail quadripolaridades@hotmail.com

Ou de como a blogosfera continua a ser uma âncora, no meio desta tempestade.

 

Isto é mesmo um filme

O secretário de Estado das Comunidades Portuguesas é um dos actores neste filme promocional do tão-apreciado Licor Beirão. Ora, se é este  “o licor de Portugal” (como o Governo, agora vem assim nos documentos oficiais), faz todo o sentido que um governante se associe a causas como esta.

Depois disto, se fosse eu à Martini convidava o Lomba para um vídeo-clip. A Sagres podia desafiar o Passos para uma campanha na Manta Rota. E o Portas ficava bem num anúncio da Quebramar.

 

Quem tem medo dos cidadãos na política?

Ao cabo de 20 anos a acompanhar eleições de perto, mas por fora, aceitei um convite para participar numa candidatura à Junta da minha freguesia.

Passei metade da minha vida a ouvir falar da necessidade de levar os cidadãos para a política, de encararmos essa participação como um exercício de cidadania. Mas agora que aqui cheguei, constato que era tudo mentira. Menos de 24 horas depois de anunciar na rede que iria integrar uma candidatura, percebi que mexera num vespeiro. [Read more…]

Portugal visto de fora

Imagem

O New York Times publicou uma fotogaleria daquelas que fazem as delícias do ministro Gaspar. Um destaque é sempre um destaque, o programa de ajustamento é muito lindo, nós somos um povo maravilhoso e os peões do PSD andam pelo país a anunciar a boa-nova: recuperámos a nossa soberania. E saímos do clube da bancarrota.

O pior é a realidade. Aquela que já não vem nos jornais nem é suficiente e explicitamente mostrada nas tv’s.

Manobras de Maio

Viver aqui, no litoral próspero de outros tempos, significa não ter tradição de lutas nem manifestações. Isso era coisa da Marinha Grande, nos mesmos tempos. Aqui não há registos de desfiles de Abril e as comemorações do 1º de Maio em Leiria são há muitos anos participadas pelos mesmos, nem muitos nem poucos, assim-assim, a reboque dos sindicalistas resistentes. E foi por isso que as manifestações de Setembro e Março assumiram tamanha importância, também. Vive aqui a mesma gente, do mesmo país, afinal. Coabitam o mesmo espaço que os empreendedores (ah, os empreendedores!), os empresários, os patrões, num distrito a que Feliciano Barreiras Duarte (o secretário de Estado que emergiu publicamente da luta das portagens no oeste, nos anos 90) caracterizou em livro como “um gigante económico, mas um anão político”.  [Read more…]

Há verdades que são mesmo como o azeite. Ora atentem:

Não, isto não acontece só na imprensa regional.

“Testemunho de uma jornalista que teve de despedir-se por causa do Barclays, e não só”.

Adivinha quem voltou?

ImagemO Arunca, em todo o seu esplendor das lamas, reapareceu hoje em Pombal e por aí fora, como sempre acontece em tempo de grandes chuvadas. É uma espécie de benção para aqueles que farejam as águas a galgarem e as margens, a alagarem estradas,a ensoparem terrenos de cultivo. Que melhor espectáculo para um domingo de Páscoa que aquele, de ver o poder das águas côr-de-lama? Hum?

Desta vez o espectáculo aconteceu no Parque Verde do Açude, vulgo corredor ribeirinho, uma obra que demorou décadas a concretizar e que ainda não completou um ano de inauguração. Foi o primeiro grande teste. Dizem os entendidos (aprendizes de iluminados e pseudo-intelectuais) que não podemos impedir a força da natureza, mas devemos prevenir para não remediar. E há (havia) cuidados a ter em conta.  Ou então não. Ou então isto chama-se planeamento e visão estratégica, pois que o passeio ribeirinho se transformou em passeio marítimo. Venham as docas, antes das eleições, vá…

Para memória futura

886104_523290427713753_380157190_o

O julgamento da Myriam Zaluar nunca deveria ter acontecido. Mas já que aconteceu, já que os superiores do senhor agente da autoridade lhe disseram que aquilo era uma manifestação, pois que o respeitinho é muito lindo e nós somos um povo muito lindo, que se cumpram as intenções do Ministério Público, aqui noticiadas pela agência Lusa. [Read more…]

Os dias são nossos. Todos os dias são nossos.

Não sei bem qual delas admiro mais: se a minha avó Maria, que pariu 13 filhos sozinha e ainda ajudou a nascer meia aldeia; se a minha avó Leontina, que pariu apenas 10, 8 dos quais ao lado da minha mãe, numa esteira, no chão (“mandava-me ir chamar a tia Amélia e eu já sabia para que era”), que percorria os 20 km que separam Antões de Pombal com um cesto de laranjas à cabeça, para vender nos tempos de fome; se a avó do meu homem (que também foi muito minha, nos anos em que convivemos), que ficou viúva aos 32 anos, com cinco filhos e sem qualquer ajuda; ou a minha mãe, uma muralha à prova de tudo. [Read more…]

2 de Março. É hoje.

Às vezes perguntam-me. Querem saber o que me move, como se lutar pelo meu país e deixar um futuro aos meus filhos não fosse motivo bastante para gastar dias e noites a insistir em acordar quem ainda dorme. Como se não percebessem como é que se arranjam forças, todos os dias, para acreditar que um dia pode ser. Às vezes respondo, e conto como foi por causa disso que me vi obrigada a fazer escolhas, de como percebi que a crise é uma senhora de costas muito largas que escorre pelo canto da boca dos vampiros, enquanto atiram migalhas à base da pirâmide. Eu vi. Senti. Ninguém me contou. E que é minha obrigação alimentar os meus filhos tanto quanto é minha obrigação deixar-lhes algum legado, ensinar-lhes que não vale tudo, mesmo quando à volta todos nos querem fazer crer que estamos loucos.
E é por isso que saio à rua no dia 2 de Março. [Read more…]

Os meus respeitos, senhor Pacheco

 

Imagem

“Passos Coelho tinha dito que anunciava as medidas para a reforma do Estado durante o mês de Fevereiro. Acaba amanhã.

Está a pensar na manifestação de 2 de Março, com medo de anunciar medidas antes dela.
E por isso quando dizem que as manifestações não contam para nada, é mentira. Contam e este é um exemplo.”

(Pacheco Pereira, na noite passada, na TVI24)

 

Mal por mal, antes Pombal…

O presidente da Câmara de Pombal (dinossauro das autarquias e do PSD, um dos que está de saída) emitiu esta manhã um comunicado que merece ser partilhado, por espelhar o sentimento de revolta que invade por esta altura milhares de pessoas na região centro. O litoral, o desenvolvimento, estão a ver?

Desde sábado sem electricidade. Hoje é terça-feira.

Para ler aqui.

Um país em estado de alerta

Imagem

O Vendaval passou. Ao início da manhã de sábado tentei ligar para os meus pais, que moram numa aldeia com nome de erva para pastagem, ali ao lado do Louriçal, a segunda maior freguesia desse concelho-charneira que é Pombal. Foi lá que eu cresci. Quando era menina a luz eléctrica ainda não era ainda para todos, nas aldeias à volta. E muitas vezes a fragilidade do sistema deixava-nos serões de lareira e candeeiro a petróleo. A água chegava às torneiras através do poço no quintal, o telefone era quase exclusivo do posto público e nem nos filmes a preto-e-branco se falava de internet. Portugal, década de 70, portanto.

Na cidade, a luz, a água, o telefone e a internet foram-se nas primeiras horas da manhã. A maioria das estradas ficou intransitável e pejada de troncos de árvore, tombadas pelo vento. Desta vez, o resto não foi o que se sabe, porque se sabe muito pouco do que aconteceu. Na era dos contactos, os jornalistas souberam muito pouco, pois que sem telemóvel nem net, não se vai a lado nenhum. Mas à medida que passaram as horas e voltaram as comunicações foram pingando fotografias por toda a parte, e então foi possível perceber o estado de calamidade, anunciado desde sexta-feira. [Read more…]

A Myriam Zaluar vai ser julgada hoje

6945_10151296785054684_1959718946_n

A Myriam Zaluar começa hoje a ser julgada em Lisboa. Está acusada do crime de desobediência qualificada. Em Março de 2012, a Myriam foi identificada pela PSP quando tentava, juntamente com mais três pessoas, fazer uma inscrição colectiva de desempregados no Centro de Emprego do Conde Redondo, “um acto simbólico que pretendia chamar a atenção para a mentira dos números sobre desemprego em Portugal”.

A partir daí o processo desenrolou-se (mais mais rapidamente do que tantos outros, que envolvem crimes de verdade) e chega hoje à barra do Tribunal.

Percebi, nos últimos dias, que a maioria das pessoas desconhece esta história. Como desconhece muito do que está a acontecer neste país, aparentemente livre. À medida que os jornais vão despedindo os jornalistas, a realidade serve-se fria. Por isso, espalhem a notícia! É preciso contar a toda a gente o que anda a acontecer. Foi com a Myriam, poderia ser com cada um de nós.

De certeza que o mundo não acabou?

Ao ler esta notícia pela manhã, fiquei a saber  que andei enganada por mais de 20 anos: afinal a proximidade nem sempre foi o oxigénio da imprensa regional, pois que agora é que se vai apostar nela.

E descobrir exemplos como o secular “Aurora do Lima” – que, nas palavras do director – se viu obrigado, ao fim de 150 anos, a contratar um comercial…é mais ou menos como ter um tesouro escondido no soalho da casa sem saber.

Por último, mas nem por isso menos importante, essa janela de oportunidades que nos mostra o presidente da Associação Portuguesa de Imprensa, João Palmeiro: “Estamos a dialogar com o Ministério da Economia para que na preparação do novo quadro de apoios comunitários os CAE (Classificação de Atividades Económicas) das empresas jornalísticas sejam aceites nas candidaturas ao Quadro de Referência Estratégica Nacional» (QREN), disse à Lusa o presidente da Associação Portuguesa de Imprensa (API), João Palmeiro”. Contando que não seja apenas um incentivo feito à medida para os suspeitos sujeitos do costume, tudo bem!

O disparate não limites, mas a paciência tem

Sinceramente, espero que um dia destes haja limite para a benevolência. Fomos nós que deixámos estes rapazes passearem as calças bege mais os sapatos de vela e os penteados à fosga-se pelo nosso país fora. O problema é que subiram ao palco e a plateia não pode fugir, porque as saídas de emergência são apertadas. Mas pode atirar-lhe tomates e calá-los, que ninguém merece ouvir tanta asneira junta.

Então hoje é isto: “Novo líder da JSD quer acabar com saúde e educação gratuita para todos”.

E enquanto deixarmos, continuará a ser isto!

Sinais preocupantes de um país a desnascer

Entre os anos 30 e 50 do século passado, a minha avó Maria teve 13 filhos. Três deles morreram à nascença ou nos dias seguintes, apesar de tanta experiência acumulada nela, à conta dos seus e dos partos das outras mulheres da terra. Um pouco mais tarde, na aldeia vizinha, a minha avó Leontina deu à luz dez crianças, sendo que a penúltima engrossou a monstruosa taxa de mortalidade infantil que, naquele tempo, não (se) contava. Mas a mim contaram-me elas as histórias das outras mulheres que perderam tantos filhos, num tempo em que o médico ainda se deslocava a cavalo entre as aldeias. Sem assistência alguma durante a gravidez e os partos, as mulheres experimentavam a fé e a sorte na sobrevivência familiar.

Depois veio o Serviço Nacional de Saúde, os avanços da medicina, o progresso possível num Portugal que, aos poucos, foi sendo ligado entre si por vias diversas de comunicação. E as reduzidas taxas de mortalidade infantil iam orgulhando o mesmo SNS, equilibrando assim, na balança dos números, os sinais preocupantes da demografia e da taxa de natalidade. [Read more…]

De pé, ó vítimas da fome!

Há qualquer coisa de estranho nestes dias de Novembro, nas notícias que se cruzam como dentes de garfo em bifes do lombo. Primeiro vem o PSD anunciar a aurora – como aconteceu ontem – pois que, lá no país deles, “os dados começam a ser favoráveis e os esforços valem a pena“. Depois, a realidade de um outro país, que (pelos vistos) desconhecem.

Uma professora partilhou um estado de desânimo numa rede social de hoje: “Doente.Depois da desistência de dois alunos porque não têm dinheiro para o passe, hoje um aluno desmaiou na aula por fome. Num 11º ano. Em Lisboa. Portugal. 2012″. Afinal isto já não se passa só com as crianças, cujos pais o Governo empobrece mas a quem há-de mandar uma assistente social para verificar a situação e, quiçá, institucionalizar (linda, a palavra). Afinal a fome começa a ser transversal. Afinal a minha amiga A existe, e sempre é verdade: deixou de pagar a água durante vários meses para poder continuar a comer massa e atum, ao jantar, mais as duas filhas. Tantos anos a viver acima das possibilidades havia de dar nisto.

Há alguma coisa de estranho nestes dias de Novembro. E nós bem sabemos o que é. Será que alguém pode contar à tia Isabel?