Terrorismo, medo e manipulação

ISIS

(Tão provável como encontrar armas de destruição maciça no Iraque. Ou no que sobrar dele…)

Por estes dias, os líderes terroristas Barack Obama e David Cameron afirmaram, em artigo conjunto, que não se deixam intimidar por assassinos. Pudera! Seria a mesma coisa que o líder dos Crips se sentir intimidado por um carteirista amador de LA. Obama e Cameron não têm motivos para temer um pequeno grupo de rebeldes fanáticos com recursos praticamente inexistentes quando comparados aos seus. Querendo, lançariam imediatamente uma esmagadora ofensiva e limpavam-lhes o sebo a todos. Mas essa talvez não seja a solução que lhes interessa. Os conflitos são tão mais rentáveis quanto mais se prolongam no tempo. E quantos mais holofotes para ali apontarem, menos haverão que apontem noutras direcções mais incómodas.

É realmente interessante a forma como o tema do Estado Islâmico é abordado, quer por determinados líderes políticos, quer pela comunicação social. Fala-se de uma enorme ameaça que basicamente consiste em “meia dúzia” de paranóicos com o Corão numa mão e uma AK-47 na outra enfiados nas montanhas (gajos destes estão sempre enfiados nas montanhas), que podem, com relativa facilidade, ser arrasados caso exista verdadeiro interesse e determinação numa solução dessa natureza. A ameaça existe mas apenas para quem lá está. Exactamente o que é que estes selvagens trouxeram de novo para o resto do mundo temer? Atentados terroristas? Isso qualquer organização terrorista consegue fazer. Invadir países vizinhos? Isso já é o dia-a-dia no Médio Oriente. A questão está precisamente na dimensão do problema, artificial e exponencialmente aumentada por lideranças políticas oportunistas e por uma comunicação social quase tão irresponsável e paranóica como os próprios fundamentalistas.

Em certa medida, o aparecimento do so called Estado Islâmico é um produto da política externa norte-americana, seguida religiosamente pela pandilha do costume. É claro que fundamentalistas islâmicos já cá andam há muito tempo, mas invadir o Iraque com falsos pretextos e manipulações à mistura ou financiar terroristas quando conveniente deu uma forte ajuda à coisa. Saddam Hussein era efectivamente uma besta mas a sensação que fica é a de que foi pior a emenda que o soneto. As permanentes invasões e ingerências na soberania dos já voláteis países do Médio Oriente por parte dos cruzados da democracia ocidental são terreno fértil para que discursos sectários acompanhados de doses industriais de ódio e violência conquistem o seu espaço no crescente arrebanhar de mercenários dispostos a tudo, muitos deles provenientes do próprio Ocidente. A ausência de valores morais e éticos no modus operandi dos Estados Unidos e seus principais aliados, que invadem, corrompem, torturam, massacram e apoiam os ditadores que lhes são convenientes fazem o resto. Mas dai até considerar esta nova Al-Qaeda uma ameaça sem precedentes vai um longo caminho. Já o sentimento de insegurança que advém deste tipo de discurso serve a retórica do medo, permanentemente regada e adubada por Washington desde o 11 de Setembro, e cujo objectivo não é mais que a redução dos direitos civis através de leis como Homeland Security e Patriot Act . Terrorism, terrorism, terrorism.

A questão é de tal forma singular que já se desenham as mais improváveis coligações, com a perspectiva de Irão e EUA unirem esforços para combater a ameaça dos fundamentalistas. Os eternos inimigos preparam-se para colocar de lado as suas diferenças e trabalhar em conjunto pela prossecução de um objectivo comum. Melhor: os EUA juntam forças com aqueles a quem sempre acusou de fundamentalistas – e de financiar organizações terroristas – para combater fundamentalistas. É um dado histórico que nem os mais utópicos se atreveriam a antecipar. Quase tão adorável como a parceria entre a Exxon-Mobil e o governo no russo na exploração de petróleo. Alguém falou em sanções?

Comments

  1. Concordo consigo quando afirma que o Saddam era uma besta e que a intervenção no Iraque foi um tiro nos pés do Ocidente.
    Já não concordo e acho que está a menorizar esta cambada de extremistas islâmicos que perseguem e matam tudo que mexe à sua volta. É que desta vez há milhares de jovens nascidos e criados no Ocidente que fervorosamente apoiam e lutam ao lado desses selvagens do Estado Islâmico – e já não são só filhos ou netos de emigrantes provenientes de ex-colónias francesas, holandesas ou inglesas; desta vez há jovens que saem do Alentejo ou de Sintra e se juntam aos fanáticos adoradores do Islão guerreiro e vingativo.
    Esses jovens, quando regressarem à terra onde nasceram, virão com a cabeça feita – vão ser mártires e vão ser muito felizes lá no céu deles.
    E já viu os milhares de jovens sem trabalho, sem futuro, que enxameiam as periferias das grandes cidades europeias? Já viu o potencial de conversões que há nesses grupos de gente sem esperança?

    • Os jovens sem trabalho tem que fazer pela vidinha como todos os outros. As dificuldades da vida – porque quase toda a gente passa ou passou – não podem ser desculpa para comportamentos violentos nem merecer tolerância.

      • Você tem algum filho ou sobrinho em idade de iniciar a vida activa?
        É que essa conversa – que há muito trabalho – é treta, é propaganda dos Governos que querem passar a mensagem que estão a governar muito bem.
        Tome nota: não há trabalho – nem bem, nem mal pago!

        • Resposta à pergunta: sim, tenho. Uma dúvida; são os governos que criam empregos? Creio que não. Infelizmente os governos apenas complicam, criam regras, normas, institutos, impostos e tachos.

          • Nightwish says:

            Acha mal, especialmente em tempo de crise.

          • A sua ideia de Governo é muito pobre. Simplificando, para si, há os governos que criam emprego na Função Pública e há os outros, os executivos leves e portáteis, estilo António Borges.
            Nem tanto ao mar, nem tanto à terra e um Governo como o actual cuja política se resume a promover activamente a emigração, empobrecendo ainda mais o país, não nos serve para nada. Para si, pelos vistos, serve.

      • não podem Luís. da mesma forma que a sede pelo petróleo alheio não pode servir de justificação para invadir estados soberanos protegidos pelas mesmas leis e convenções internacionais que os seus invasores.

        • É uma leitura amigo… Comum e políticamente correta. Na verdade o “ocidente” apenas “luta” pelo acesso ao mercado do petróleo. Ele é comprado e enriquece os bolsos árabes. Muito desse dinheiro vai parar onde se adivinha… Quanto a convenções, seria melhor começarem por respeitar as mais básicas, como a dos direitos humanos (e nomeadamente a igualdade de género). Toda aquela zona mete nojo, não aprende, é violenta, supremacista e perigosa.

          • “Na verdade o “ocidente” apenas “luta” pelo acesso ao mercado do petróleo.” – a sério Luís? Uma coisa é uma leitura, uma opinião. Outra é ser fundamentalista. Ou você acha que a proliferação de bases militares norte-americanas pelo Médio Oriente, a invasão do Iraque ou o patrocínio a regime violentos como a Arábia Saudita acontece porque querem apenas o acesso ao mercado? E falando em direitos humanos, os 3 exemplos que acabei de referir representam, sem excepção, a permanente violação dos mesmos.

            Generalizar sobre o Médio Oriente como se todos fossem selvagens é errado. Ignorar a barbárie que o Ocidente lá tem levado como se fôssemos melhores que eles é lamentável.

    • Eu não estou a menorizar nada Rui. Eu estou pura e simplesmente a afirmar que esta ameaça não é diferente de tantas outras que já existem. O recrutamento na Europa também não é novidade mas beneficia do agravante de viverem numa Europa onde a corrupção e a impunidade para com a criminalidade financeira impera. O potencial de conversão de paranóicos também não é novidade. O meu ponto, no qual insisto, diz respeito à forma como este problema está a ser artificialmente aumentado pelos media e por determinados responsáveis políticos.

  2. O texto expressa a opinião fofinha com que uma certa esquerda gosta de se masturbar ao mesmo tempo que se embrulha no Keffiyeh queimando decibéis no apoio direto ou subtil aos fascistas islâmicos. Infelizmente esta postura está a passar de moda porque o Estado Islâmico descobriu que os pescoços da esquerda são mais gostosos… Enfim, amores incompreendidos…

    • Nascimento says:

      Masturbar enquanto fica sem cabeça?Olha,não tinha pensado nisso…e uma “certa” direita?Vai de “marcha á rè”?O Reich tinha razão: “é tudo uma questão sexual”…para “certas” pessoas…não tão “fofinhas”!

    • Luís se gosta de se masturbar com opiniões é lá consigo. Mas este texto expressa apenas e só a manipulação que existe por trás deste tema que não é diferente de outros que o antecederam. Não há aqui qualquer tipo de apoio aos fundamentalistas. E não são pescoços de esquerda ou de direita que estão aqui em causa: são pescoços de seres humanos que pagam ao mesmo tempo o radicalismo dos fundamentalistas e o imperialismo belicista do directório norte-americano. Colocar a questão em termos de esquerdas e direitas é absolutamente ridículo e limitado.

      • Caro João, tem razão sim. O meu comentário foi exagerado e provocatório. A intenção também foi um pouco essa. E sabe porquê? Porque estou farto e cansado de ver gente a condenar o “ocidente” e os “americanos” com muito maior zelo do que às ditaduras totalitárias e gente bárbara de outras latitudes. Parece que a uns tudo é tolerado enquanto a outros, que no fundo representam a nossa civilização, nada se compreende ou relativiza…

        • eu não faço diferenças e o texto acima também não. não vou entrar em comparações porque ao nível da barbárie e da violência, ainda não há rival para os norte-americanos. isso não significa que estes fundamentalistas não sejam uns autênticos animais. mas recordo-lhe que, não passou muito tempo desde que os “amaricanos” (prefiro a versão do RAP) andaram por aqueles lados a treinar e armar gente tão distinta como Bin Laden e sus muchachos…

  3. Nightwish says:

    Olhe que não, o Irão há algum tempo que já é considerado o buffer contra os sunitas, incluindo a Al-Qaeda.
    Já em relação à força do ISIS, sim e não. Nunca ameaçarão os EUA, mas podem destabilizar toda a região tornando o futuro imprevisível. Isso e o futuro do petróleo da região, claro.

  4. coelhopereira says:

    Uma coisa que é digna da mais alta nota é a plasticidade esquizófrenica da “vox populi” ocidental. Os fascistas de turbante do ISIS são os mesmíssimos que, quando matavam, aos milhares, cristãos na Síria ( que ainda hoje falam o Aramaico, a língua materna de Jesus de Nazaré), trucidavam Kurdos e degolavam Alauítas, eram “combatentes da liberdade”(?!!!) contra a ditadura de Bashar Al Assad. Quando passam a fronteira para o Iraque e, de forma infame, matam dois jornalistas americanos, o Ocidente chama-os de “terroristas”, descobre o seu amor assolapado pela minoria Iazidi e do nada inventa uma inquebrantável irmandade de sangue com os Kurdos, Kurdos esses que não lhe importou que fossem massacrados à larga pela sua aliada Turquia… É claro que na memória altamente selectiva do Ocidente nomes como Iraque, Afeganistão, Líbia e Síria há muito que “não interessam nada”. O que interessa é papar o isco e o anzol de um sangrento jogo viciado (a “guerra ao terror” e o instilar do medo que leva à mentalidade de “guetto” e à consequente necessidade da eliminação cultural, linguística, social, e histórica do “outro”) em que as cartas marcadas são baralhadas e voltadas a dar, pois o que é essencial é que o vencedor só possa ser, sempre, mas sempre, o mesmo. E esse vencedor não é, e não será, de certeza, nem aqui, nem em lado nenhum, o Povo.

    • Nightwish says:

      “Kurdos esses que não lhe importou que fossem massacrados à larga pela sua aliada Turquia”
      E que não se importaram que fossem massacrados após a primeira guerra no Iraque, incentivando-os a revoltarem-se mas deixando-os sozinhos.

      • coelhopereira says:

        Mas que agora são os “meninos lindos” dos EUA. ou não estivesse Obama, esse génio, a contar com eles para defender os poços de petróleo que tanto lucro dão aos seus queridos “sponsors” lá nos States.

        É claro que pouco interessa ao iluminado da Casa Branca que as toneladas de armamento entregues aos Kurdos ( mais os respectivos “conselheiros militares”) possam trazer em si o ovo da serpente de futuras desastrosas guerras, pois essa minoria, repartida pelo Iraque, pela Síria, pelo Irão e pela Turquia, bem pode posteriormente achar que se encontra militarmente madura para reivindicar um “Grande Kurdistão”. Evidentemente, ao espectador atento não pode espantar a falta de visão de médio e de longo prazo do continuador da bela obra de George Walker Bush: esse tipo de visão é apanágio de xadrezistas e todos sabemos que o menino dos olhos do senhor Barack é o futebol americano.

    • Assino por baixo Coelho Pereira. Pena que tanta gente se deixe levar por essa memória selectiva ocidental…

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