Boa vai ela!

Vivo afastada da comunidade portuguesa e porque a idade me tornou preguiçosa, só de vez em quando me dou ao trabalho de mudar de transporte duas vezes para ter o prazer de passarinhar pelo Mercado da Saudade. Isto é, por motivos gastronómicos. É ali que me abasteço do que é regra báseica da cozinha portuguesa.
Foi o caso há dias. E o acaso foi encontrar, à porta do café, um compatriota que não via há muito tempo. Homem estabelecido com negócio próspero. Mal nos cumprimntámos, logo disparou:
– Sabe que esteve aí um milhafre do governo do Passos?
– Qual deles? – quis eu saber.
– O Portas, aquele dos submarinos.
– Ah, mas esse é um milhafrão. E o que é que ele veio cá fazer?
– Veio promover o papel higiénico da Renova. E largar as postas de pescada do costume. Que aldrabão! Isto é sempre o mesmo, e nós estamos fartos de saber: quando estão falidos, vêm à emigração prometer farturas. Devem julgar que somos estúpidos.
Esse é o ponto: os governantes tendem a considerar que os portugueses, os emigrados e os residentes em território nacional, são estúpidos. Será por iSso que, com muita arrogância e nenhuma vergonha, podem ler os cartazes e ouvir os clamores de milhares de manifestantes que enchem as ruas constantemente, como quem cheio de paciência, está a avisar. Os cartazes e as vozes soltam insultos como pedras, mostram que o povo perdeu completamente o respeito pelos figurões do poder. E no entanto, esses figurões continuam a fazer o que não devem, assim levando o país para um abismo de que muito penosamente sairá.
Nenhum país normalmente governado, na Europa ou noutro continente, poderá perceber o que, em Portugal, se passa com a Justiça, a Educação, a Saúde, os cortes brutais nos salários e nas pensões de reforma, o elevado número de crianças que só têm uma refeição por dia, graças à escola, o número aterrador de desempregados e sub-empregados que os patrões exploram à tripa forra, e mais, muito mais, sem haja um presidente que meta o governa na ordem e defensa o povo destes malfeitores. Pior, nem sequer há demissões desses malfeitores, como é normal acontecer em países normalmente governados. No estrangeiro, não se riem de nós: têm pena de nós, o que é bem amargo.

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.