Boa vai ela!

Vivo afastada da comunidade portuguesa e porque a idade me tornou preguiçosa, só de vez em quando me dou ao trabalho de mudar de transporte duas vezes para ter o prazer de passarinhar pelo Mercado da Saudade. Isto é, por motivos gastronómicos. É ali que me abasteço do que é regra báseica da cozinha portuguesa.
Foi o caso há dias. E o acaso foi encontrar, à porta do café, um compatriota que não via há muito tempo. Homem estabelecido com negócio próspero. Mal nos cumprimntámos, logo disparou:
– Sabe que esteve aí um milhafre do governo do Passos?
– Qual deles? – quis eu saber.
– O Portas, aquele dos submarinos.
– Ah, mas esse é um milhafrão. E o que é que ele veio cá fazer?
– Veio promover o papel higiénico da Renova. E largar as postas de pescada do costume. Que aldrabão! Isto é sempre o mesmo, e nós estamos fartos de saber: quando estão falidos, vêm à emigração prometer farturas. Devem julgar que somos estúpidos. [Read more…]

Riso comovido

GaiolaDouradaPOSTERO Festival do Cinema Francófono deu a oportunidade aos portugueses residentes em Toronto de verem o filme GAIOLA DOURADA, com legendas em inglês. As duas sessões saldaram-se por outras tantas enchentes  e no final, os aplausos foram fartos, sentidos e gratos por haver uma organização a lembrar-se de proporcionar aos emigrantes um bom filme. Porque, como ficou selado por uma secretária de estado das das Comunidades, do PSD, há anos, os emigrantes portugueses distribuem-se pela Europa, África e o Resto do Mundo. [Read more…]

O lado errado da história

O Canadá mandou  uma delegação  de grande peso político ao funeral de Mandela:  o actual primeiro ministro, Steven  Harper, e três antigos primeiros ministros, os conservadores Brian Mulroney e Kim Campbell, e o liberal Jean Chrétien. A Mandela, desde que saíu da prisão e acabou com o apartheid, foi oferecida a cidadania canadiana, com passaporte e toda a parafernália burocrática inerente. Era, pois, um homem a quem o Canadá amava  e a quem honrava. O governador geral não foi ao funeral porque a chefe do estado canadiano, Raínha Isabel II,  já  estava representada pelo Príncipe Carlos. O mesmo se diga da Austrália e da Nova Zelandia. A Commonwealth não é uma treta: funciona e tem poder.

Brian Mulroney, em entrevista que todo o país viu, explicou o tratamento dado a Mandela: “em todas as situações, temos de ter o maior cuidado para não ficarmos do lado errado da história”.  E disse bem, porque é importante um país ficar do lado certo. Nenhum povo gosta de ficar do lado errado. Por uma daquelas travessuras em que a política é fértil, depois de Mulroney os barões do seu partido, o conservador, trataram de tornar impossível a eleição da primeira ministra provisória Kim Campbell, uma senhora que teria proporcionado ao país um enorme salto qualitativo, graças à sua notável qualidade política e cultural, o que representou uma garantida e duradoura estagnação. O Canadá não gostou de ter perdido o comboio da história e esse mal estar é cada vez mais evidente. [Read more…]

O Jornal de Angola

O primeiro jornal que os meus olhos viram foi o Província de Angola, que pontualmente entrava na casa dos meus pais. Parece que havia outro, o Diário de Luanda, tido e mantido pela União Nacional, mas esse não entrava lá em casa. Nem percebo porquê, porque devia ser feito por gente excepcional, a avaliar pelo trajecto de vários redactores. Um deles, Luís Fontoura, hoje figura de proa do PSD e da Maçonaria. Enfim, embirrações que eu não cheguei a entender. Eu fazia o ensino primário na Escola Sousa Coutinho, mesmo em frente da Igreja de Nossa Senhora do Carmo, onde fui baptizada. Por estar gravemente doente na altura de entrar na escola só o pude fazer um ano depois, mas aprendi as letras e a juntá-las, em casa, nos livros do Hans Christian Andersen e no Província de Angola. A pouco e pouco, fui tendo o prazer de ler a página infantil que era leira lavrada por Lília da Fonseca. Muitos anos depois, já na universidade e ganhando o meu sustento com uma pequena agência literária de exilados espanhóis nos Estados Unidos, herança benfazeja que me foi deixada pela poetisa angolana Alda Lara, eu haveria de conviver com Lília da Fonseca que tanta paixão punha na literatura infantil e no militantismo de esquerda.

Mas quando eu andava de bibe, o Província de Angola, o mais antigo jornal da África a sul do Saara, era propriedade da família Correia de Freitas. Jornal prestigiado, bem escrito, sério e, ao contrário doutros em Portugal, muito mais avesso à autocensura e sempre às turras com os coronéis da dita. Refilava. O seu último proprietário e director foi Ruy Correia de Freitas, engenheiro de máquinas por Londres, um gentleman de grande aprumo moral e bondade. A exemplo de todos nós dessa geração, o Ruy também queria a independência, mas negociada, pelo diálogo, educadamente, como um filho que passa a viver por si mesmo, mas se dá bem com os pais. Uma independência sem ódio nem guerra, para prosperidade dos seus povos. Como nada disto agradava aos serventuários da União Soviética, quando Angola foi entregue ao MPLA, unilateralmente, o Ruy Correia de Freitas só teve tempo de meter a mulher e a filha na sua avioneta e partir para a África do Sul. Dali foi ao Brasil e ao Canadá, mas acabou por viver (e morrer) em Portugal, na maior modéstia mas sempre com imensa dignidade. Foi a “descolonização exemplar” – coisa que é dita por quem a fez mal. [Read more…]

Sejamos sérios

Diz-me o calendário que hoje é dia 6 de Agosto de 2013. Data assinalável a vários títulos.

Neste dia, há 68 anos, acontecia a bomba sobre Hiroshima. Eu era um garotinha atenta ao que ouvia à minha volta: a 2ª Guerra Mundial tinha acabado e em Luanda, onde vivia, tinha havido uma grande manifestação de regozijo, mas eu não percebi porque é que foi preso um homem que deu vivas à Rússia, um país aliado segundo diziam os mais velhos. Muitos anos depois, a conversar com o Raúl Indipo, do Duo Ouro Negro, entrámos nessas memórias e fiquei a saber que também ele tinha ficado confuso: julgou que estavam a dar vivas à Russa, má peça com toda a certeza porque quem a saudava era preso, mas ele nunca conseguiu saber quem era a matrona enquanto catraio. Naquele dia, há 68 anos, eu estava sentada na areia da praia onde vivia mais o Sérgio, o filho do cozinheiro que democraticamente andava na escola pública comigo por decisão da minha mãe. Contei ao Sérgio o que tinha ouvido sobre Hiroshima e adiantei que os americanos iam continuar a deitar bombas por todos os lados. Vem de longe esta desconfiança em relação aos camones e vá-se lá saber porquê. O Sérgio estava de olhos arregalados mas não tugiu nem mugiu. Quem o fez por ele foi o pai cozinheiro que, pelo anoitecer, se plantou diante da minha mãe com o filhote pela mão e declarou que ia dormir ao musseque porque queria morrer ao pé da família. O aranzel que aquilo deu. [Read more…]

Indignação contagiosa

São hoje muitos os países, em todos os continentes, em que imensas massas populares  inundam ruas e praças para exercerem o direito  à indignação. O fenómeno faz lembrar a revolta dos escravos e a queda do Império Romano: contagioso, imparável na sua confrontação com uma globalização perversa, de finanças sujas que pisam a pés os mais elementares direitos humanos e pretendem impor ditaduras que nada ficarão a dever à crueldade de outras que, na primeira metade do século passado, queriam obrigar ao pensamento único, ao racismo criminoso e outras lástimas de minorias acusadas, com razão, de explorarem o povo em seu proveito. [Read more…]

Coca Cola nas veias

Nos dias que correm tenho-me lembrado de uma alta patente militar, da oposição ao regime de Salazar, com quem tive uma conversa antes de 1974. Tinham ocorrido manifestações de estudantes que, pela primeira vez, partiram à pedrada montras de bancos para os lados da Escola Politécnica. O militar estava contra e achava incivilizado. Eu, subscrevendo Gondi quando afirmou que “quando os que mandam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito”, respondi enxutamente que preferia ver as pedras atiradas à cara dos governantes e que me nauseava uma oposição de opereta que não passava de cartas clandestinas e abaixo assinados que a Pide valorizava prendendo os seus signatários. Ele achou, escandalizado, que eu sugeria um desconchavo. Ficámos desentendidos. Mas não havia nada a fazer com um homem que acreditava no Pai Natal e na amantíssima esposa, uma que lhe fazia inenarráveis cenas de ciúmes e o deixou cego e paralítico com umas doses de arsénico quando se apaixonou por outro mais novo. Voltei a encontrá-lo depois do 25 de Abril, muito eufórico e a querer saber se a coisa tinha sido a meu gosto. Ficou fulo quando lhe respondi que tinha preferido uma revolução com grande fartura de pancadaria e contas ajustadas, mais me parecendo aquilo um golpe de floristas a prometer muita cobardia e confusão. Infelizmente, não me enganei. Aquilo que mais abominei no regime de Salazar foi a hipocrisia e a perfídia com que castrou o povo. Quando dali a pouco se cometiam as maiores tratantadas, vi com desgosto que ninguém tinha estaleca para pegar em democratas do 26 de Abril pelos fundilhos e atirá-los de janelas altas, pondo tudo na conta da “justiça revolucionária” propagandeada pelos arautos dos amanhãs que afinal não cantaram. Com isso tinham-se evitados grandes crimes sobre o corpo martirizado da Pátria, porque há uma gentinha neste mundo que só percebe e acorda à estalada. É uma perda de tempo a gentileza e as boas maneiras com tal gentinha.

Na minha geração houve muitos adeptos do politicamente correcto que é como quem diz, muitos com coca cola nas veias, sendo que a coca cola é a água suja do capitalismo. Que a terra lhes seja leve. Felizmente, quase 40 anos depois, há uma geração que se borrifa no politicamente correcto e trata os políticos desavergonhados como eles merecem ser tratados.

Afinal, há motivos para esperança. Bendita juventude!

Hora de escolher

A Europa sofreu muito até conseguir estabelecer o Estado Social. Portugal, apesar do seu vasto e rico império colonial, não escapou a esse sofrimento por lhe ter faltado o golpe de asa que fizesse o seu próprio sistema de vida.

Através da palavra escrita, pudemos saber como foi o calvário dos povos escravizados por um sistema económico-financeiro que por completo estava nas mãos dos poderosos. Os povos não tinham direitos, apenas podiam beneficiar da caridade que era função da variável do carácter de quem a praticava. O trabalhador, por muito talentoso e esforçado que fosse, era tratado por esmola na hora da doença, do desemprego ou da velhice. A prova de que a situação era insuportável e revoltante está nos inúmeros barcos que levaram milhões de pessoas aos países do Novo Mundo. Talvez esse Novo Mundo construído pelos desesperados e injustiçados seja tão céptico em relação à Europa precisamente por ter recebido os despojos humanos de um egoísmo oligárquico que a História julga sem contemplações nem desculpas.

A miséria deu em revolta. Depois de revoluções, guilhotinas, guerras, prisões, exílios, gulags, a Europa rendeu-se à evidência: os trabalhadores eram seres humanos que não tinham só deveres, também tinham direitos. O Estado Social estabeleceu-se pouco a pouco com toda sua panóplia de salários justos, feriados, férias pagas, fins de semana para descanso, horários de trabalho, pensões de reforma, direito à greve, assistência na doença e desemprego, serviços de saúde universais e gratuitos, etc. etc. A própria Igreja Católica estabeleceu a Doutrina Social, no século XIX, assente na pedra de toque: a economia estava ao serviço do homem e não o contrário. Nenhum país teve coragem para pôr em prática, de forma total, essa Doutrina. Foi pena. Tinham-se evitado muitos dissabores. Mas o preconceito tem força. Em todo o caso, muitos dos fundamentos do Estado Social passaram a ter lugar nas constituições dos vários países europeus. E porque a miséria e tratamento indigno dos povos levou a guerras, um grupo de figuras democráticas lançou as bases da hoje União Europeia para que a paz pudesse ser uma garantia. [Read more…]

Tempo de moderação

Em Novembro, mal o comércio começou a expor decorações de Natal, apareceu na internet um leia-e-passe alertando para a conveniência de as pessoas não desatarem a comprar presentes para a família e amigos porque, dizia o lembrete, tudo isso é fabricado na China. Sugeria-se, de modo empenhado, que se desse a preferência a dias de férias, na neve ou nas Caraíbas, a   tratamentos dentários, dietéticos ou outros, a estadias em spas, a cursos de ioga e ginásios, a bilhetes para espectáculos, a jantares em lugares agradáveis, a entradas em programas de museus, a livros e discos.  Insistia-se no facto de aos familiares e amigos serem mais úteis estes presentes do que  objectos que logo enfastiam e se põem de lado. O objectivo era claro: defender a economia canadiana das sinuosas práticas do capitalismo selvagem, esse que se dá como Deus e os anjos com o comunismo chinês, explorando ambos a mão de obra barata e rebentando com o comércio de qualidade que existe no Canadá e um pouco por toda a parte.  Aviso legítimo mas, ainda assim, próprio de país rico no que se refere às sugestões de presentes.

Depois, outro leia-e-passe apareceu aconselhando à sobriedade, demonstrando que é preciso manter o espírito de Natal, o amor da família e do próximo em geral, a alegria que se alimenta de valores espirituais e não de esbanjamentos que confrangem. Ora isto, em país habitado por imigrantes, só pode vir dos canadianos puros e duros, anglo-saxónicos e frugais, modestos e avessos a ostentação. Não são unhas de fome, são educados a não estragarem e esbanjarem. Eles têm razão. [Read more…]