Em louvor e glória dos egrégios avós


antonio mattoso

Anda pela nossa extrema-direita dita liberal uma vaga de revisionismo histórico (ou de regresso à historiografia à moda do séc. XIX, mas essa deixo para outro dia).

Agora é o Ferreira, putativo candidato a salazarinho que quer fazer “fazer uma carta aberta aos portugueses a explicar porque é que a história é muito maior do que se diz. Escrever uma carta aos portugueses sobre “A tua história foi muito maior do que te dizem”, por exemplo. É que nós somos mesmo bons.” Modéstia e ignorância.

Já o ex-maoísta, ex-pioneiro do eduquês de Boston, ex-formador de professores mal formados, ex-autor de um blogue que apagou porque ali defendeu a escola pública contra os ataques da dupla Valter/ Rodrigues, aliás também ex-apagador de calúnias sobre um conhecido cronista que se lixe a colega que as reproduziu e deu com os costados em tribunal, e actual e único grande defensor do Crato e do “ensino” vocacionado para a mão-de-obra desqualificada e barata, Ramiro Marques, vem em defesa, imaginem, de Putin, e proclama que o Ocidente tem motivos para se orgulhar do seu passado e para celebrar os seus valores comuns. Não há sítio melhor para fazer isso do que as escolas.

De que falam eles quando se orgulham? Suponho que da História de Portugal versão Mattoso pai, o autor dos manuais únicos e obrigatórios do salazarismo.

Da fantástica teoria do ermamento, tão bem baptizada como do rolo compressor por Borges Coelho, uma imbecilidade do tamanho da ideia de que os cristãos (já agora uma religião que nos foi imposta pelo colonizador Constantino) perante a chegada do mouros foram todos a correr ou coxear até às Astúrias, prosseguindo para a mítica Reconquista, em que de modo algum os senhores mouros e os senhores cristãos se aliaram e desaliaram.

Do heroísmo de Aljubarrota onde apenas nobres combateram, esquecendo que a humilhação castelhana foi sentida precisamente porque camponeses de pé descalço derrotaram a fina flor da cavalaria portuguesa mais a nada hermana.

Dos feitos gloriosos de além-mar, incluindo um dos mais terríveis massacres (mulheres e crianças de braços cortados lançados ao mar) que a História mundial das ignomínias contempla, de um fabuloso império onde a ganância e atraso substituiu o comércio pela militar conquista, a corrupção se instalou e naturalmente mais depressa se desfez que demorou a ser feito, a lógica que o ano de 2015 anuncia ser berrada pelas efabuladores de Ceuta, que já guincham chamando glória à conquista de Ceuta, provavelmente o mais tolo e ruinoso investimento do estado português, passe o anacronismo.

Do colonialismo sobretudo: a glória da rapina, da perpetuação do esclavagismo sob a forma de contratado até 1962, da exploração dos recursos alheios, dos massacres consecutivos dos povos ocupados, tão bem assumidos onde se defende que nada tirámos porque aquilo era nosso, lógica capaz de acabar com a propriedade privada, entro-te em casa, proclamo: isto é meu, e portanto dos teus bens posso livremente dispor.

Deve ser destas estórias (perdoem-me o anglicismo) que se orgulham. Ora a História é uma ciência que não trata nem do orgulho nem da vergonha, mas dos sucessos e insucessos havidos.

Não nutro nenhum desses sentimentos pelos meus antepassados, que fizeram mal umas vezes, outras bem, outras assim-assim, tal como hoje assim mesmo fazemos, nem faltava mais nada: nenhum povo tem uma História nesse aspecto diferente, nenhum povo foi superior ou inferior aos restantes, cada um faz o que pode, sabe, e a bem dizer a mais não é obrigado.

O que já não pertence à História (embora seja seu objecto de estudo), mas à política, é essa devoção por feitos que foram crimes, por glórias que resultaram em fracassos, como se ao invés de com eles aprendermos o desígnio fosse desaprender com as lendas e falsificações da historiografia passada. É política e é um clássico; chama-se nacionalismo, pai de tantas guerras, inspiração predilecta de tanta ditadura, precisamente o que se deve evitar, aqui ou na Rússia, tal como precisamente a História nos ensina.

Esse apelo ao orgulho nacionalista tem tanto de absurdo como de pragmático, é por demais conhecido o seu papel. E bate certo, nacional-liberalismo é um designação perfeita para o tempo que nos querem fazer atravessar.

Sobre João José Cardoso

Comments

  1. Gostei desta volta ao texto…
    Um abraço.

  2. “Do colonialismo sobretudo: a glória da rapina, da perpetuação do esclavagismo sob a forma de contratado até 1962”

    Admito que na lei (que não tentei encontrar) a data de 1962 expresse o fim dos “contratados”, mas tal não se verificou. Em 1969 chegavam às fazendas de café no norte de Angola, populações da região centro que eram transportadas em camionetas de caixa aberta em que o espaço vazio só dava para se sentarem no chão meia dúzia de cada vez, pois todos os outros teriam que estar de pé. Chegados ao local eram armazenados em barracões, sem água nem luz e o pavimento para melhor conforto era em terra. Os barracões ficavam fora do arame farpado onde se encontrava a casa do representante do fazendeiro (não me ocorre o nome porque eram conhecidos).
    O salário era ao ano, pelo que logo que chegavam tinham que se endividar, pois tinham de comprar ao chefe da fazenda o peixe seco para matar a fome. Chegado o fim do ano eram feitas as contas e claro deviam mais do que tinham que receber.
    Só lhes conheci as lágrimas e a frase, ai ué.
    Para melhor compreensão do terror do que estou a falar,devo dizer que a referida fazenda se encontrava totalmente isolada, pelo que nem a fuga aqueles seres humanos tinham como alternativa.
    Horário de trabalho: não havia relógio.

  3. BustyGirl says:

    Faltou-te mencionar o filho da puta do teu tritritritritritritriavô que arrastava a coitada da tua tritritritritritritritriavó pelos cabelos para fora da caverna. Um machista troglodita do pior.

  4. Nightwish says:

    Pois, esta direitalha tem problemas com a história…

  5. noman'sanisland says:

    e o milagre de ourique, joão josé cardoso! o milagre de ourique…
    este ramiro é um bafio. espero que não seja professor de História.

  6. Acho que há dois temas diferentes neste texto que são um pouco misturados. O primeiro é o da história “objectiva” (dentro das limitações técnicas da ciência/arte) e aí claro que temos que contar tudo, não apenas o agradável. Fomos de facto cruzados vingativos, mercadores mesquinhos e piratas sem escrúpulos na construção do Império. Não há duas formas de olhar para a coisa. O segundo tema é mais complexo, tem relação com a nossa actualidade, o facto de sermos “Ocidente”. E aí penso que os complexos de culpa são um empecilho ao reconhecimento de algumas verdades. Sim o exportámos o nosso sistema económico (muitas vezes absurdo) para o resto do mundo mas também é igualmente verdade que qualquer cidadão ocidental, que não caia na pobreza (aqui entramos de novo no problema económico…), tem uma qualidade de vida e segurança imensamente superior a qualquer outro ponto do planeta. E não falo apenas de um ponto de vista materialista. Tem escolhas e opções na sua vida que fora do tão estigmatizado “Ocidente” pura e simplesmente não existem. E isso é algo que de facto podemos e devemos ter orgulho e devemos defender contra incursões.

    Nota: é de uma fina ironia que o sector político mais interessado em “dourar a pílula” no que toca à análise histórica seja o que mais ataque o que o Ocidente moderno de facto é.

    • Só a palavra Ocidente é todo um programa (a Ocidente de quê?) e borra a pintura. Se centrar a História na Europa, não vejo o seu papel objectivo na miséria dos outros continentes, nem na exportação de alguns dos seus valores tradicionais, como a corrupção.
      Por outro lado há países noutros continentes onde se vive tão bem e tão mal como aqui, e não estou a pensar nos EUA.
      Agora, se de capitalismo falamos, claro que o prefiro a regimes de absolutista para feudal que ainda por aí andam. E não prego a indemnização aos povos espoliados mas muito simplesmente que se assuma a História como ela foi, sem complexos de superioridade nem inferioridade. No passado já não se pode mexer.

      • Todos centramos a história a partir do ponto (geográfico e temporal) onde nos encontramos, não se trata de uma falha mas de uma tendência natural. Interesso-me mais pelo que me está próximo do que por aquilo que me é distante. É humano e não uma tentativa de distorção.

        Eu não discordei de nada do que disse, a história é o que é. Se foi feia e sangrenta é dessa forma que deve ser recontada. Mas no presente o termo Ocidente tem um significado, que não resume à lei económica do mais forte e é algo que vale a pena defender.

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