Assunto nosso

Já tenho idade suficiente para lembrar-me que houve tempos, e não tão remotos, em que se morria decentemente, que é como quem diz em casa, rodeado da gente com quem se tinha vivido, e morrer era uma coisa normalíssima, que acabaria por acontecer a todos e que não requeria medidas excepcionais, além dos paliativos possíveis. O quarto do doente não era território tecnológico, como o é agora a enfermaria do hospital, com máquinas a apitar e enfermeiras a interromper a sopa para medir glicoses e temperaturas, e médicos sempre cheios de pressa porque lhes pedem que se desdobrem em vários e que rematam tudo com um vamos ver isso, vamos ver isso, para logo se sumirem pela porta.

O quarto do doente era o quarto de toda a vida, o seu, com a colcha herdada de uma tia solteirona, o Cristo na parede, a foto do casamento, a cama onde a quase viúva se sentava ao lado do marido a fazer tricô, com os netos que entravam a pedir dinheiro para um gelado, o filho a contar à mulher a discussão com o patrão, e o doente era um moribundo mais ou menos conformado, mais ou menos paciente, ora tinha um feitio dos diabos ora era um santo, que ia pedindo que lhe chegassem coisas, ou que já não abria os olhos nem sabia quem era, e a quem se tentava amenizar os dias que lhe restavam.

Ai meu Deus, caralho, podia queixar-se o doente, ao que a mulher responderia com branda repreensão que nem quase a fazer contas com Deus tens tento na língua, ao menos não digas isso em frente das visitas. E havia visitas, muitas visitas, incluindo crianças, que isso de morrer, salvo quando acontecia em circunstâncias particularmente penosas, não era nada que os miúdos não pudessem ver. Morriam os avozinhos, morriam as vizinhas, morriam todos os velhos que conhecíamos, depois de terem passado semanas, meses ou até anos na cama, e eram velados em casa, com o caixão no meio da sala ou no quarto, conforme o espaço e o número de veladores, e todos tinham oportunidade de despedir-se, de afagar a mão gelada ou beijar uma face hirta, e as crianças não só entendiam que a doença e a morte eram parte da vida, como reconheciam a diferença entre a pessoa que haviam conhecido e o corpo rígido que ficara, o que é talvez a grande iniciação à metafísica, quando não à religiosidade.

Não se morria, na maioria dos casos, em hospitais, rodeado de estranhos, crivado de cateteres, tubos, eléctrodos, medidores de tensão arterial, ao lado de outros estranhos igualmente crivados, a ouvi-los tossir pela noite dentro, a acordar com os seus desvarios, homens e mulheres senis, a gritar pela mãe às quatro da manhã. Não se recebia visitas só entre as três e as cinco, não se tinha de ouvir a conversa das famílias dos companheiros de cela enfermaria e os seus conflitos que, vistos de fora, são sempre mesquinhos, não se morria uma morte discreta, silenciosa, amortalhada nos lençóis do hospital com o seu deslavado logotipo, um caixão retirado à socapa da enfermaria durante a madrugada, para que quando a viúva chegar pela manhã já possa encontrá-lo na morgue.

Morria-se com a família toda à volta da cama, com os amigos na sala a jogar cartas, com a vizinha a trazer uns rissóis porque a quase viúva não tinha cabeça para ir para a cozinha, com um pintas que ninguém conhecia a vir saber notícias do doente e a deitar a mão a um rissol, quando não era a uma carteira. E o moribundo tinha tempo, ainda antes do último suspiro, para pedir desculpas, para dizer obrigado, para contar que havia um envelope com notas escondido na gaveta de baixo da cómoda, para confiar o relógio do avô ou a gabardine boa.

E no final havia pranto ou alívio, ou os dois, mas também havia azáfama porque era preciso lavar o morto, vestir-lhe a roupa que já estava escolhida, penteá-lo, engraxar-lhe os sapatos que tinham ficado murchos no armário de há tanto que não se usavam, pôr-lhe duas gotinhas de perfume para cheirar bem a quem viesse dar-lhe um beijinho. E por vezes havia alguém mais requintado que se lembrava de ir comprar um ambientador para que a sala não empestasse. A primeira vez que vi uma embalagem de spray ambientador foi para tal efeito e passei a infância a achar que semelhantes coisas serviam para perfumar velórios.

A morte não era escondida, não era motivo de vergonha para quem a morria, era assunto do moribundo mas também dos seus familiares e dos amigos, e os médicos entravam na justa medida em que tinham de entrar. Restrições sem sentido, por exemplo, não tinham lugar. Um moribundo condenado podia comer uma bifana, beber um copo de tinto, fumar um charuto. Não havia razão para aplicar-lhe o castigo dos suminhos de fruta, do pãozinho sem sal, dos brócolos a vapor. Chamavam-se amigos desavindos para que o leito de morte pudesse também ser paragem de reconciliação. Apontava-se os nomes dos bisavôs de que já só o moribundo se lembrava para que algo ficasse da sua passagem pela terra. Rematavam-se os cabos soltos da vida, soltavam-se cargas com peso de anos para aliviar a bagagem de quem morria.

Talvez essa forma de morrer não seja compatível com o estreitamento do conceito de família ou com as pressões laborais que não permitem acompanhar um doente. Os tempos actuais exigem que morramos o mais depressa, asséptica e silenciosamente possível, causando o mínimo de incómodo, não pondo a causa a produtividade nem o tempo de entretenimento de quem nos rodeia. Parece-me triste que, tendo avançado tanto nos cuidados paliativos nos tenhamos esquecido do mais óbvio: já que tem de ser, melhor que seja na nossa cama, com os nossos livros ao lado, a nossa música a tocar, e entre os nossos, aqueles que se riem das nossas piadas e se lembram daquela vez em que. Se a história ficar interrompida, eles saberão completá-la.

Imagem: Michael van der Gucht (1660-1725), reproduzido por Assaf Kintzer 

Comments

  1. Catarina says:

    Obrigada por isto. É exatamente o que penso e provavelmente não seria capaz de o expressar tão bem.

  2. João Soares says:

    Assim sendo,a velha máxima , “nem o pai morre nem a gente almoça”,é hoje incompativel com a pressa de deixar mais uma cama livre na enfermaria para o paciente seguinte.

  3. Rui Esteves says:

    Esta crónica fez-me retornar à minha infância em Carrazeda de Ansiães, Alto Douro, onde vivi até aos 10 anos.
    Nessa altura – finais da década de 50 – eu andava na catequese e ajudava à missa como todos os outros rapazes da vila. Como éramos todos muito pequenos, 7 ou 8 anos, tínhamos funções menores no ritual da Igreja. Por exemplo, eu estava encarregue do cálice do incenso, embora o meu sonho fosse ficar com a campaínha.
    Quando alguém estava muito mal chamavam o padre para a extrema unção. E juntamente com o padre lá íamos nós todos ver o moribundo. E íamos não porque fizéssemos lá falta, mas por curiosidade. E ninguém nos afastava, ninguém achava pouco apropriado ver uma pessoa a morrer. Toda a gente falava baixo e bichanavam uns para os outros – “Está por horas, coitado”. E os coitados lá morriam – uns, amodorrados, imersos num torpor; outros, cheios de dores, gemiam e penavam, e, quando finalmente partiam, era um alívio – para ele e para todos os familiares que já ninguém aguentava mais. E, a espreitar, lá estávamos nós, assarapantados com tudo aquilo.
    No dia seguinte era o funeral e, se não tivéssemos escola, lá estávamos nós no cortejo fúnebre, atrás da carroça que levava o caixão. A viúva berrava em altos gritos que também queria morrer, amparada noutra matrona que, mais composta, lhe dizia palavras conciliadoras com a vida.
    E ficávamos mesmo até ao final, com a terra a ser deitada sobre o caixão. Bem diferente de agora.

  4. Jorge Pinheiro says:

    A cronista já nos habitou a textos de altíssima qualidade.
    Este é simplesmente fabuloso e revela uma humanidade muito, muito rara.
    Não sei se se dedica à literatura mas seria uma pena não enveredar por uma carreira de escritora.
    Muito obrigado pelas suas palavras tão luminosas.

  5. sara monteiro says:

    Muito bom. Passei por acaso e vi isto. 🙂
    (gostei dos bróculos a vapor…:)

  6. A. Pedro Correia says:

    – Carlinha!… (desculpa dizer assim, tão quase paternalisticamente – no entanto com admiração e ternura -, mas é a coisa que se me oferece dizer, além de outra que resvala para o piroso mas também não resisto a dizer: às vezes, quando te leio, sinto orgulho por te ter conhecido e pena por te ter conhecido tão pouco).
    Se estivesse ao pé de ti, acho que te dava um beijinho. Senti (pensei) isso tantas vezes nos hospitais…
    Mais rissol, menos rissol, gostava muito de ter escrito este texto.


    • Ai as distâncias num país que é tão pequenino. Mas não deixes fugir esse beijinho que eu ainda hei-de recebê-lo, não sei se no sul ou no norte, mas em alguma paragem havemos de coincidir, de certeza. E podes chamar-me Carlinha quando quiseres 🙂


  7. Quero morrer rodeado da música de gosto…

  8. José almeida says:

    Excepcional. Mesmo falando na morte, é um consolo ler as suas crônicas. Depois de ler sou convidado a reler. Parece fácil mas acho que sei o quão difícil é fazer coisas simples. Parabéns.

  9. Joam Roiz says:

    É tão bom ler uma crónica como esta. Dando luz à morte, reconcilia-nos com a vida. Conhecida, ou não, o meu obrigado a uma grande escritora.


  10. Muito obrigada a todos. Que bom saber que algo do que aqui conto poderá servir de consolo, por débil que seja, a quem o lê.

  11. Miguel Oliveira says:

    Este texto bem escrito com humor e precisão descritiva fez-me pensar isto: esta proximidade com a morte “de todos os dias e feições” permitia obter dela, com o tempo, uma sã distância que só a experiência pode dar. Paradoxalmente, é esta distância permanente à morte que nos dias de hoje ensaiamos em desespero manter. E que, afinal, nos escapa quando, inevitável, tarde e sem experiência ocorre e nos surpreende. Porque a única experiência que dela vamos tendo é a da sua encenada distância. Valeu pelo dia todo! Bem haja.

  12. Paula Sofia Luz says:

    Carla, já lá vão uns anos quis fazer uma reportagem sobre isto. Não cheguei a encontrar ninguém, nenhuma família, que nas últimas décadas tivesse cumprido esse desejo. Depois saí do jornal e ninguém a fez. Ainda hei-de fazê-la. bj

  13. Ricardo Santos Pinto says:

    Em algumas zonas do Minho, o morto ainda hoje é velado em casa, no meio da sala, recebendo durante 2 dias a visita de família e amigos.


  14. Muito bem! Adorei o seu texto, por sinal, uma excelente crónica!
    Sem dúvida!…O ideal seria voltarmos a esse conceito de se MORRER COM DIGNIDADE, sem quaisquer restrições, e se possível, bem longe de NÓS – profissionais de saúde – que tampouco poderemos substituir o precioso APOIO EMOCIONAL da família e amigos do moribundo.
    E, todo esse ritual que descreveu é um BEM precioso, inestimável…poderá ser inclusivamente, uma doce e terna lembrança para todos os envolvidos…algo, impossível de todo de se concretizar, na nossa rede de cuidados continuados.
    🙂


    • Honra seja feita, diga-se de passagem, a essa gente extraordinária que assegura cuidados de saúde no SNS, gente comprometida com o bem-estar dos doentes e cuidadosa com as famílias. Salvo raríssimas excepções, só tenho motivos para agradecer-lhes.

  15. António Fernando Nabais says:

    Tantos anos a viver no Grande Porto, para meu deleite, fazem com que, confrontado com o Belo e com o Humano, me saia, muito frequentemente, um incontrolado e murmurado “puta que pariu!” Trata-se, no fundo, de uma classificação instintiva que atribuo a tudo o que admiro ou a tudo o que me encanta, o que inclui trivelas do Quaresma, fotografias da Monica Bellucci ou as tuas prosas. Hoje não foi a primeira vez que um texto teu me levou a pensar e a dizer uma expressão tão desbragada. Se quiseres o meu contributo para a contracapa do teu primeiro livro, já sabes: será, no mínimo, original, depois das frases elogiosas que merecerás dos críticos, aparecer “Puta que pariu!” (António Fernando Nabais)


    • Se não fosse por mais nada, só a comparação com as trivelas e com a Belluci já chegariam para que eu ganhasse o dia. Um puta que pariu de alguém que eu gosto tanto de ler é um desses elogios que até fazem corar e não é pelo vernáculo. Venha o livro, a contracapa é tua.


  16. Passo a modéstia: Muito bom.
    E muito bem.

    O que me atrai neste blog é a carla.
    Aprecio a escrita e os temas.
    De facto, é uma pessoa com talento especial.

    Parabéns!

  17. Angelina Pereira says:

    Por acaso não concordo nada com o elogio fúnebre à morte no leito próprio… Antigamente (muito antigamente!) morria-se em casa padecendo de doenças que podiam ser muito bem curadas se houvesse auxílio médico e/ou hospitais. Sofrimento e mortes precoces desnecessárias, portanto. Não sou apologista do prolongamento da vida através de máquinas e manobras médicas excessivas (i.e.quando as probabilidades de sobrevivência com dignidade estão completa/ comprometidas) mas também não quero morrer enquanto se fritam rissóis e os meus netos entram no quarto a pedir dinheiro para gelados… A vida mudou, com tudo que traz de bom e mau. E morrer no hospital é um mal menor.


    • Ai sim sra. Angelina Pereira?…Em primeiro lugar, ninguém evocou aqui a prática da eutanásia, por conseguinte, “arrume” lá esse assunto!
      Então para si, o culto do MORIBUNDO em ambiente / contexto familiar, é ALGO “desnecessário”, sendo que “morrer no hospital é um mal menor”???
      -Oh valha-me Deus Angelina!…. Então a sra. preferia abdicar do suporte emocional dos que lhe são queridos num momento extraordinariamente difícil, sabendo HOJE, que é possível proporcionar meios que amenizam o ESTADO AGÓNICO…para ao invés disso, preferir vir morrer sozinha, ainda que connosco, isto é, rodeada de profissionais de saúde a correr de um lado para o outro e a desdobrarem-se para acudir a todos, na medida do possível… em ambiente impessoal, rodeada de bichezas e derivados, como legionella, baumannii, estreptococos, enterococos, pneumococos e todos os outros cocos que, muito provavelmente a induziriam a uma morte mais rápida???
      Bem…a senhora é quem sabe!…Todavia, queira Deus que nunca aconteça, não é verdade?
      Mas olhe, a questão premente aqui para além da temática da crónica, é o magnífico estilo literário da autora do artigo; como já o terei referido, um excelente artigo, com uma sensibilidade peculiar. Uma questão CULTURAL, percebe?
      Passe bem! 🙂

    • José almeida says:

      Angelina Pereira, provavelmente não lemos a mesma crónica. A Carla Romualdo fala da vida comum e do regaço que aquele lar proporciona. E quando o ‘regaço’ desaparecer, podemos nascer ou morrer em qualquer parte, deixando a morte de ser ASSUNTO NOSSO.

      Citando a Carla, ” …já que tem de ser, melhor que seja na nossa cama, com os nossos livros ao lado, a nossa música a tocar, e entre os nossos….”.

  18. BustyGirl says:

    Adorei o texto. Faltaram talvez as carpideiras uivantes, que tanto impacto me causaram nos funerais caseiros a que assisti na minha infâacia, Beira Alta.
    Muito obrigado.

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