A lição da Grécia

Ser português é trazer a Grécia dentro de si, diluída em azul e branco, há mais de mil anos. Porque o império grego não nos colonizou, com tropas de ocupação e impostos pagos a Atenas. Os seus barcos vieram em paz à nossa costa e, por via do comércio, os homens falaram, conheceram-se, entenderam-se, misturaram-se. E parece que muito e bem, tal é o laço afectivo. E isto faz-me lembrar o sábio Agostinho da Silva quando aconselhava Portugal a acabar com consulados e embaixadas, a granel, e a abrir tasquinhas com pastéis de bacalhau e tinto, se queria penetrar no coração dos povos.

Para mim, o sentir desta realidade começou com os compêndios de História do Prof. Mattoso quando, no Colégio de Tomar, eu lia e relia o encanto grego, e não ligava peva às arengas desbragadas do Ti Ilídio, antigo mestre de artes e ofícios em Angola por conta das chamadas Missões Laicas que a exaltação maçónica de Afonso Costa inventou para anular as missões católicas que sacrificadamente cumpriam o seu dever desde as descobertas, estado de coisas que terminou com o advento do salazarismo e abriu caminho ao bom homem para ensinar história aos meninos nas margens do Nabão. Mais tarde a pintora Sara Afonso, viúva de Almada-Negreiros, havia de trazer-ne a Grécia, sob a forma de sobressalto, quando, uma vez por semana, comia comigo o bife da Brasileira, no Chiado, e se ficava a conversar tarde fora, acendendo sucessivos cigarros com o auxílio duma enorme caixa de fósforos. Estávamos no final de 1974, já com as nuvens negras do PREC a esvoaçar, e Sara Afonso transmitiu-me a sua angústia: será que teremos um destino igual ao dos gregos, esses que, perdido o império, ficaram como que paralisados? Não estaríamos nós desmotivados desde a perda da India, onde tínhamos investido tudo? Quantas vezes tenho pensado nestas conversas! E hoje, tenho amigos gregos em Atenas e outros em Toronto. Nesta crise temos estado irmanados no desgosto, na revolta. E agora, na esperança.

Porque a eleição do Syriza, que a direita dos interesses aponta histericamente como um perigo comunista iminente, possivelmente aliando-se à Rússia e fazendo de Tsipras um novo Fidel Castro, traz a esperança de um povo que, humilhado, espezinhado, com fome, sem habitação nem cuidados médicos, desmunido de tudo, deu vazão à sua mais do que legítima raiva honrando o imbatível estatuto da Grécia, Mãe da Democracia, varrendo a testada através do voto. É por demais evidente que a vitória se deveu ao voto massivo de pessoas ligadas ao PASOK e aos partidos de direita, o que diz muito da revolta daqueles que viram como os seus líderes se puseram de cócoras diante da Alemanha de Merkel. Foram os patriotas gregos a dizer, alto e bom som, que querem uma Alemanha europeia mas não uma Europa alemã, por razões de tenebroso passado que ninguém esquece. Menos ainda os povos, como o grego, que foram invadidos, torturados, fuzilados, reduzidos à miséria pelos nazis. E que, como acontece em todas crises europeias, tinham no seu território neo-nazis, como os têm a França, a Alemanha e vários outros países. Patriotas gregos que lembram muito bem a conferência de credores da Alemanha, no termo da 2ª Guerra Mundial, e entre esses credores estava o estado grego, que concordaram em perdoar 50% da dívida aos germânicos para que eles pudessem reconstruir o seu país. Podiam eles aceitar, sem revolta, que a Alemanha, rica do que consegue sacar aos países do sul através dos seus bancos sem moral nem princípios, se comportasse com tamanha crueldade? Grande parte da dívida grega foi aumentada pelos ruinosos negócios que a Grécia fez com a Alemanha, como foi a compra de submarinos, graças a governos de direita, aliados a um PASOK (socialista) sem dignidade nem honra, todos eles autênticos rafeiros obedientes da Merkel. Há quem, por cortesia, lhes chame bons alunos. A Alemanha, através desses partidos venais, contribuiu em muito para a corrupção que aflige a Grécia. Tudo somado, só pode saudar-se a vitória do Syriza e contribuir com a nossa esperança.

Como está à vista de todos, esta tragédia executada pela Alemanha e alguns países sem escrúpulos, ao que dizem a mando do Clube de Bilderberg, atingiu também Portugal, Espanha, Itália, França, Irlanda e Chipre. Não será de espantar que, mesmo antes das eleições gregas, nesses países tenham começado a germinar formações de esquerda, em geral dirigidos por jovens mas a que aderem de bom grado milhares de pessoas de todas as idades. Em Espanha é o PODEMOS. Em França, o NOUVELLE DONNE, o FRANCE DEBOUT, o FRONT DE GAUCHE (e daqui saíu um grande livro, Raison d´ Esperance, de Clémentine Autin). Em Itália, o PARTIDO DEMOCRATA, a que pertence o primeiro ministro Matteo Renzi, que acaba de conseguir a eleição do presidente da República. Todos estes partidos com confortável presença na grande imprensa internacional e na TV. Em Portugal, a cisão do BE está ainda a levedar e espera-se que ponham de lado o que os divide. O PCP perdeu o comboio da história com a queda do Muro de Berlim e o seu infeliz protagonismo durante o PREC, é uma carta fora do baralho. O PS faz muito bem em demarcar-se do PASOK, esperando-se que tenha mão forte e palavra destemida nos meses a vir, de modo a garantir ao povo que a direita no poder saia de cena e seja chamada às suas responsabilidades, que são imensas, pois destruiu o tecido económico, aniquilou a classe média, reduziu milhares de pessoas à miséria, corrompeu instituições, apenas e só por sede de poder e servilismo perante o estrangeiro.

A revolução, agora, chama-se voto. Tal qual fez o Syriza. Só assim poderá ser salva uma Europa entregue a Neros de offshore.

Comments

  1. Maquiavel says:

    Leitäo, comec,aste bem, mas a meio perdeste-te. O Partido Democrata de Itália é tudo menos o SYRIZA, o Renzi é tipo Hollande ou Seguro. Ou muito me engano ou será o novo PASOK.

  2. MJoão says:

    O PS pode demarcar-se do PASOK, o que se não demarca é de ser a outra face do PSD.


  3. Matteo Renzi, primeiro-ministro de Itália e líder do Partido Democrático (filiado na Internacional Socialista), ex-Partido Democrático de Esquerda, ex-Democratas de Esquerda, ex- Partido Comunista Italiano.
    Com esta polivalência pode dar um grande contributo para que tudo fique assim…

    • Maquiavel says:

      O Partito Democratico tem desses ex todos mas também correntes ex-Democrazia Cristiana. É um verdadeiro centräo.
      Renzi vem das fileiras do Partito Popolare Italiano, precisamente o sucessor da Democrazia Cristiana; de Esquerda tem muito pouco ou nada.


  4. Leitão está equivocada(o).
    Quem nos trouxe até aqui tem muito pouca, ou mesmo nenhuma, consistência para nos livrar deste pesadelo. O baralho com que quer jogar está viciado, logo é batota. Para um jogo sério o baralho deve ser composto, acima de tudo, por BE e PCP, e por aqueles que estão dispostos a confrontar a UE. A ligação do Syriza ao GI só tinha um objectivo: uma maioria e uma base social de apoio para enfrentar a UE. Não se pode contar com o Costa para esse combate. Faz-se de morto, ou diz vacuidades (draguisses e junckerisses) para entreter até ao penúltimo dia. Não se espere dele a recusa do T. Orçamental, a reestruturação da dívida, a recusa do T. Transatlântico (que vai rebentar com país), a suspensão imediata de todas a privatizações (1ªs medidas do Syriza). Hollande e Renzi são da família do Costa e está tudo dito. A pasokização ou psoesização são inevitáveis.

  5. tozezito says:

    “Mais tarde a pintora Sara Afonso, viúva de Almada-Negreiros, havia de trazer-ne a Grécia, sob a forma de sobressalto, quando, uma vez por semana, comia comigo o bife da Brasileira, no Chiado”,,,
    Está visto…o ilustre autor de tão adolescente redacção acabou por cair direitinho na “esquerda” betinha, apreciadora do bom caviar e do “filet mignon”.

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