Os homens não usam gravata

Fazer uma gravata a alguém consiste em ir pelas costas e apertar-lhe o pescoço com o braço. Uma boa definição do objecto mais ridículo que pode conter uma indumentária moderna.

Ter o pescoço amarrado com um trapo qualquer sem utilidade alguma seria puro masoquismo se a sua imposição não fosse sádica. Recorda-me sempre a lenda patética do Egas Moniz, da família amarrada pelo pescoço.

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Tendo sempre recusado tal nó (e não me venham com os protocolos, já tive de invocar o mesmo direito que os eclesiásticos a tapar o pescoço de outra forma, abençoadas camisolas de gola alta) e se não entendo o seu uso compreendo o gosto de alguns pelo penduricalho, tal como compreendo os homossexuais, gostos não se discutem e cada um é como cada qual, já a sua obrigatoriedade sempre me fez espécie.

Vem tudo isto a propósito da escandaleira e tolice, para moderar a linguagem, que aí anda porque a maioria dos novos governantes gregos não usam gravata. [Read more…]

Momento de humor: Luís Montenegro fala sobre dignidade

Luís Montenegro mostrou-se desagradado com a intervenção de José Carlos Saldanha na Comissão Parlamentar de Saúde, tendo declarado que esse episódio “não dignificou o trabalho parlamentar”.

Na minha opinião, no entanto, o que verdadeiramente não dignifica os trabalhos parlamentares é termos uma maioria de deputados, para não dizer a totalidade, que está na Assembleia da República para votar, dar a pata e rebolar, de acordo com as ordens das direcções dos partidos, quando foram eleitos para representar o povo.

O que verdadeiramente não dignifica os trabalhos parlamentares é termos deputados que conseguem afirmar que as pessoas não estão melhores, ao contrário do país, que, esse sim, está muito melhor, como se fosse possível um país ser o contrário dos cidadãos.

O que verdadeiramente não dignifica os trabalhos parlamentares é termos deputados que pensam que os problemas pessoais dos cidadãos podem condicionar o desempenho do trabalho parlamentar, porque, para estas gravatas amestradas, esse trabalho, já se sabe, não é resolver os problemas dos cidadãos.

O que verdadeiramente não dignifica os trabalhos parlamentares é haver um deputado que pensa que os dramas pessoais não devem ser levados para o “seio do debate político”, porque, para estes cabides de fatos caros, o debate político e parlamentar deve estar o mais afastado possível dos dramas pessoais, essas coisas que levam os doentes a gritar que não querem morrer e outras incomodidades.

O que verdadeiramente não dignifica o trabalho parlamentar é termos Luís Montenegro a chefiar uma das bancadas parlamentares.

Evidências

Se não mudarmos a Europa, a extrema-direita irá fazê-lo”. – Tsipras

AvançAR

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Ao contrário do que afirma Ana Drago nesta entrevista recente à SIC Notícias, a chamada plataforma cidadã Tempo de Avançar não é, infelizmente, uma coisa nova. E não é nova porque lhe falta massa cidadã, justamente, isto é, uma participação inequivocamente emanada dos cidadãos, e dos cidadãos indistintamente considerados, ou seja, cidadãos não-afectos ao Bloco de Esquerda, por exemplo sob a forma de simpatizantes (e basta consultar a lista de primeiros aderentes – entretanto organizados em Conselho de candidatos efectivos – para ver a que ponto ela está capturada por esses simpatizantes e amigos mais ou menos próximos do BE).

Não vejo nenhum problema em ser-se simpatizante ou amigo do BE, era o que mais faltava. Já votei no BE – ah pois foi. Mas já vejo um problema em verificar a que ponto se está disposto a lançar mão de exemplos bem sucedidos ocorridos noutros países (o Syriza, o Podemos) para tentar construir, com evidente artificialidade, o que em Portugal não há (ainda): a emergência de um movimento de cidadãos ou de uma coligação de pequenos partidos reunidos em torno de um programa anti-austeridade, de defesa dos interesses democráticos e nacionais, e aptos (i.e., prontos e preparados) para governar – o povo do País e junto da UE. E essa demagogia, enunciada ainda no adro, entristece quem, como eu, está atento à marcha da procissão dos aflitos e descontentes com os partidos, e muito especialmente os da Esquerda.

Levado pela mão de figuras todas elas emanadas do Bloco de Esquerda – dissidentes de dissidências várias, como são os casos de Rui Tavares, Ana Drago e Daniel Oliveira –, o movimento Tempo de Avançar não parece, assim, ser substantivamente diferente do que ainda há semanas foi tentado por uma outra dupla de também dissidentes do BE: Joana Amaral Dias e Nuno Ramos de Almeida, fundadores do Juntos Podemos, ao que se sabe entretanto já dissolvido por novas (ou renovadas) dissidências. [Read more…]

Jornal de Notícias e AO90 prejudicam alunos nos exames nacionais

wp_20150206_08_53_59_pro (1)Esta semana, o destaque do Jornal de Notícias de 6 de Fevereiro foi aquele que se pode ver na imagem.

O JN é um dos jornais que, sem que se perceba porquê, decidiram adoptar o chamado acordo ortográfico (AO90).

Ora, o acento agudo de “pára”, segundo a Base IX, 9º, é para suprimir. No 5.4.1. da Nota Explicativa, os autores do AO90 tentam explicar por que motivo se tomou essa decisão, recorrendo, em parte, ao segundo mantra do acordismo.

A manchete do JN, dotada, eventualmente, de uma vontade própria, contraria, assim, a ortografia adoptada pelo prestigiado jornal. Embora defenda, no mínimo, a suspensão imediata do AO90, percebo que isso tenha de se fazer gradualmente: hoje, a manchete; a notícia local, amanhã. [Read more…]

Paula Teixeira da Cruz em reflexão depois do caso submarinos

“Não me pronuncio sobre Sócrates, mas temo pela separação de poderes se o PS ganhar as eleições.”

Hipótese

Nunca faltei a uma eleição, posso garantir-vos. Desde 1969, quando votei pela primeira vez. Nunca me abstive, anulei um voto ou votei nulo (isto não implica crítica a ninguém, cada um sabe de si). Achei sempre que há, entre as hipóteses oferecidas – nomeadamente nas presidenciais, já que nas outras eleições mantenho a escolha da estreia -, uma preferível.

Mas há dias, estando num café, da minha paz “gozando doce fruito”, fui surpreendido pelo habitual debate televisivo entre Santana Lopes e António Vitorino. Encolhi os ombros e voltei ao meu jornal. Mas uma voz surda, com um toque de raiva mal contida, fez-se ouvir: “ainda vamos ter de escolher entre estes dois **##~~&&**“»» na segunda volta das presidenciais”. A ideia foi-se-me agarrando aos ossos e comecei a sentir um vazio no eestômago.

É que a possibilidade, ridícula que pareça, cada vez se me afigurava mais possível. E, por uma vez – pela primeira vez! – ocorreu-me como seria agradável passar esse dia à beira-mar da manhã ao pôr do sol – quer dizer, do abrir ao fechar das urnas. Eu sei, não é bonito nem faz bem à saúde ter pensamentos tão sombrios com este frio. E sabe-se lá o que farei no próprio dia. Mas deixem-me gozar, por hora, esta pequena indulgência.

O Apeadeiro Feliz

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