O impensável crash

Depois daquela manhã tão estranha em que nos foi dado ver, em directo, dois aviões embaterem contra as Torres Gémeas de Nova Iorque, daquele 11 de Setembro que enterrou quase quatro mil pessoas, depois disso viajar de avião tornou-se uma grande maçada. O medo, claro, vestiu a roupa da resistência militante a cada um de nós – sabemos do risco dos jihadistas, mas entendemos que devemos enfrentá-lo porque a vida continua e não a queremos adiada. A maçada são os controlos de aeroporto, as horas de espera, uma seca. Tão grande é a seca que são hoje bastantes os empresários e profissionais de Toronto que, tendo de deslocar-se semanalmente a algumas cidades dos Estados Unidos, o fazem de comboio. Mesmo que a viagem seja de cinco horas, vale a pena porque é mais ou menos o que gastariam em aeroportos e no comboio, de perna estendidas, bem servidos, a poderem ir até ao bar, a baterem uma sestazinha, a irem adiantando o seu trabalho no computador, deitando um olhar preguiçoso e regalado à paisagem. Chegam ao destino repousados e calmos. É a humanização do trabalho.

A pouco e pouco, nesta cadência, atentos aos aviões, todos nós, de toda a parte, tomámos por garantido que os crimes na aviação são cometidos por fanáticos do Paquistão, da India, da Líbia, da Chechenia, das fileiras do dito Estado Islâmico, esses tarados que, à sombra duma religião mal interpretada, se julgam a viver tempos de apocalipse em que querem representar o papel de salvadores não se sabe bem de quê. E, quem sabe, se os crimes não podem vir até de gente da Europa do Sul, de sangue quente e coração pesado de queixas. Andámos todos nesta convicção. A Alemanha, também. Apesar de, não há muito tempo, ter desaparecido para os lados do Indico um avião com 250 pessoas a bordo, de que nunca foram encontrados traços ou rastro. Um mistério. Quando um avião da Lufthansa embateu contra os Alpes franceses, na sua rota de Barcelona para Dusselforf, ninguém queria acreditar porque aquela companhia alemã é um mito do nosso tempo, uma garantia de segurança, eficiência e técnica. Pensou-se logo em terrorismo. Quando se apurou ter sido um acto premeditado do jovem co-piloto Andreas Lubitz, o mundo, incluindo a Alemanha, foi sacudido como que por um terramoto. O crime tinha por autor um jovem ocidental, da classe média alta, nascido e criado num país rico. Ao que se diz, pertubado mentalmente, mas que isso não tenha sido detectado, espanta e choca.

Relendo atentamente o que se passa com o tal Estado Islâmico, verifica-se que são já milhares os jovens, nascidos e criados em países ricos, embora filhos de imigrantes, quase todos eles com cursos superiores e desafogo financeiro, quem agora faz decapitações, viola mulheres e as põe na prostituição, mete bombas e armas nas mãos de crianças, incendeia e passa tudo a ferro e fogo, incluindo museus onde se guardavam peças de arte milenar. E vem por arrasto lembrar quantos jovens, sobretudo nos Estados Unidos, têm invadido escolas e abatido a tiro quem encontram pelo caminho. São todos perturbados como o Lubitz? E se o forem, porque será? Que educação lhes deram os países ricos? Inculcaram neles valores morais ou deixaram-nos medrar em ghettos de luxo? Onde é que os países ricos falharam? Porque manter um jovem em óptimas condições físicas, sem mais nada, é como criar um doberman sem disciplina e sem carinho: mais cedo ou mais tarde, ataca, morde e mata. Estas perguntas têm de ter resposta, há que meditar urgentemente em tudo isto. Porque estamos a viver um tempo grave.

Comments

  1. niko says:

    estou de acordo com o seu comentário, e em Portugal com é ?


  2. Os jovens estão num disponibilidade vazia, já dizia Ortega Y Gasset na primeira década do século XX. A sua profecia, cumpriu-se: “…Esta é a horrível situação íntima em que se encontram já as melhores juventudes do mundo. De puro sentir-se livres, isentas de entraves, sentem-se vazias. Uma vida em disponibilidade é maior negação que a morte. Porque viver é ter que fazer algo determinado – é cumprir um encargo –, e na medida em que iludamos pôr em algo a nossa existência, desocupamos a nossa vida. Dentro em pouco ouvir-se-á um grito formidável em todo o planeta, que subirá, como uivo de cães inumeráveis, até as estrelas, pedindo alguém e algo que mande, que imponha um afazer ou obrigação.”

    Ortega y Gasset, in ‘A Rebelião das Massas’


  3. Grave? Que amor. Eu não creio que seja grave, é muito mais do que isso.

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