Um magno embuste e outras cartas

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Anda por aí um corropio por causa de uma tal de Magna Carta que faz 800 anos. É conhecido o fenómeno da manipulação da História ao serviço das ideologias, um clássico, e que pelos vistos hoje é assumido por uma facção da chamada ciência política, instalada na “universidade” da ICAR (um excelente local de exílio para académicos de carreira fracassada nas universidades laicas).

A tal carta resulta de um clássico conflito entre nobreza feudal e poder régio. Afirma direitos aos barões perante um rei fraco. Nada de especial, a História Medieval europeia está cheia disso. Fazer dela um documento fundador da liberdade das elites faz algum sentido, simbólico. Mas qualquer carta de foral que por esse mesmo tempo em Portugal defendia os direitos dos povos perante a prepotência senhorial, nas particulares condições portuguesas que levaram os reis a com eles tantas vezes se aliaram precisamente contra os nosso barões, que eram mais condes, é um muito superior exercício da liberdade, no sentido que lhe podemos dar nesse tempo.

Acresce que a palavra tempo não é intemporal: chama-se anacronismo à peregrina ideia de olhar para o passado distante ler uma palavra e transportá-la para o presente como se significasse o mesmo. Chama-se ignorância qualificar o a I República como terrorismo de estado (não que ele não tenha existido, mas o nosso estado sempre usou, é da sua natureza, o terror, e o século XIX é campeão absoluto nisso). Já omitir que as “crenças e preconceitos – a favor da propriedade privada ou da fé católica” foram o sustentáculo do permanente terrorismo chamado Estado Novo demonstra por omissão um claro conhecimento e defesa desse mesmo regime.

O ahistoricismo, ou seja, encontrar significados absolutos em conceitos historicamente localizáveis e relatizáveis, provoca-me uma particular irritação. Já não bastava algum filosofês, pelos vistos ainda tenho de o aturar numa suposta ciência que acima de tudo é pura ideologia política. Da parte do Espada, conhecido pelo seu terrorismo de controleiro no tempo de maoísta, e que mais tarde apagou da sua memória essa parte da própria biografia, ao ponto de negar ter conhecido os seus antigos camaradas, uma amnésia que um psiquiatra pode explicar mas apenas demonstra que o estalinismo dele nunca saiu, nada de novo na sua frente ocidental.

Ilustração: Carta de Foral da Guarda concedida por Sancho I

Comments

  1. AntónioF says:

    A ignorância, o anacronisno, a falta de rigor, a apropriação de pensamentos ou frases alheias como ssendo suas ou de seus amigos (não fosse a frase original ser de Agostinho da Silva, entre outras) e outros malabarismos pseudo-intelectuais, não se estranha nesse sítio, sendo que o maior de todos é a hipocrisia!
    Assim, não será de espantar se, num dia destes, por lá aparecer uma qualquer referência às qualidades civilizacionais da «Doação de Constantino» e outros documentos similares!


  2. Quem não conhece o propósito da vida e o que estamos aqui a fazer, neste e deste mundo, onde habitamos ;só se pode reger pelas filosofias do mundo e não percebe nada da evolução e progresso da humanidade !!! Os tempos actuais são muito diferentes dos dias de ontem que já são do passado !!! Os universos continuam em expansão ; e as revelações que o homem recebe para materializar os elementos em formas e situações que primeiro foram criadas espiritualmente não vão cessar enquanto o sacerdocio existir na terra !!! O Supremo Criador vai continuar a revelar ao homem tudo o que o homem quiser saber para o progresso da humanidade !!! É útil saber a história da humanidade para se poder avaliar como o homem era e como vivia no tempo passado,mas hoje já estamos noutro tempo !!!


    • E o caro comentador, que não liga às filosofias do mundo e tem a suprema clarividência de saber que hoje é outro tempo (magnífico axioma), e que, presumo, conhece o propósito da vida, recebe as suas revelações como?


  3. A verdade é que a liberdade liberal, que é a que hoje se glorifica, proclama um conjunto de direitos e liberdades individuais em abstracto, não se importando em garantir as condições materiais necessárias ao seu usufruto.

    Cada vez mais, temos direito à saúde, à educação, a habitação condigna, à propriedade, à justiça, à segurança, apenas na medida em que as pudermos pagar.

    Uma liberdade das elites, portanto, o termo é muito apropriado.

    E a Idade Média, como também se pode depreender, está aqui a dois passos, nesta espécie de feudalismo libertário que os neoliberais acabam de inventar…

  4. João >Mendes Pinto says:

    Realmente a carta não será assim tão «Magna » mas o que se passa ou passou em Inglaterra tem mais eco do que os pobres acontecimentos do Portugal feudal…

  5. ZE LOPES says:

    Lamento, mas o Espada não existe. talvez esteja a referir-se a John Charles Sword e é conhecido nos meios curchillianos como o “Winston da Reboleira”. Daí o desconto de 50% que lhe fizeram no jantar das “Sociedades Churchill” que decorreu recentemente em Londres.

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