“Projecto Islão” – Ano I

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Tendo já dissertado por várias vezes sobre o surgimento do “Estado Islâmico” (“EI”) há um ano, faz sentido agora perceber a evolução dos acontecimentos e o estado a que chegámos.

Pensámos, pensei, que a mudança de Governo no Iraque em Setembro passado, cuja nomeação dos novos ministros da Defesa (Khalid al-Obeidy, parlamentar sunita de Mossul, ocupada aliás pelo “EI”) e do Interior (Mohammed Salem al-Ghaban, membro da organização Badr, Lua-cheia, a qual controla uma milícia xiita engajada na luta anti-“EI”), alterasse o curso dos acontecimentos.

Decorreram cerca de 40 dias, desde que o novo Governo tomou posse, até se chegar a acordo sobre ambos os nomes e estes tomarem posse. Julgou-se que uma composição governamental mais inclusiva, iria naturalmente alimentar uma secessão interna no “EI”, já que parte considerável da sua liderança e dos seus estrategas são ex-ba’athistas leais a Saddam Hussein e perseguidos pela nova liderança xiita. A “cenoura” da reintegração ali está(va).

Acontece que Saddam, após a 1ª Guerra do Golfo, iniciou um vasto programa de islamização das massas, utilizando naturalmente as estruturas do Partido Ba’ath para tal. Era preciso agradecer a Deus a manutenção do regime, facto vendido internamente como uma indubitável vitória sobre o Grande Satã, bem como entreter sunitas, xiitas e curdos, os quais partilhavam o sentimento de estar a praticar o bem. Deus é indiscutível.

Na senda do preenchimento desta grelha mental religioso-cultural, Saddam Hussein colocou na bandeira iraquiana a inscrição Allah’u Akbar, Deus é o Maior, anunciou a construção da maior mesquita do Mundo, deu sangue para que um Corão fosse escrito com o mesmo, reconstruiu mesquitas, deu um maior pendor ao ensino religioso, etc. Este tipo de feitos, sobretudo em ditaduras, rapidamente ganham a dimensão de mitos urbanos e entram no folclore e anedotário popular. Ou seja, criam empatias e consensualidades que permitem um conforto aparente, mas indispensável no pós-conflito. Prioritário é sobreviver.

O “EI” não foi partido por dentro porque os sunitas ba’athistas endoutrinados por Saddam Hussein, que o compõem, se identificam com a causa da construção do Califado. Só um e com dimensão planetária. Este é um dado importantíssimo para percebermos a motivação de quem adere a esta causa. Ou seja, o “Projecto Islão” atravessa os seus melhores dias. Tudo nele é progressivo, aliás, na linha do processo de Revelação, o qual se estendeu por 22 anos, 2 meses e 22 dias. Por exemplo, a proibição do álcool também é progressiva, entre outras proibições, muitas delas baseadas em ditos e feitos do Profeta (Hadith) e não com base corânica. Durante o processo de expansão do Islão fora da Península Arábica foi permitido o sincretismo entre religião e práticas culturais locais, para que o alastrar da nova ordem patriarcal fosse o mais eficiente possível. Digo-o desta forma, já que, sobretudo em África, o modelo matriarcal era predominante e concorrente a este que se impôs rapidamente, já que o homem percebeu a nova ferramenta que possuía para virar as relações societárias de poder em 180º e a seu favor.

Ora o sincretismo fora permitido inicialmente como um momento de entrada, para a facilitar, mas que depois, num permanente processo de rectificação ao longo dos tempos, iria paulatinamente corrigindo o tiro e conduzir as populações a uma correcta prática religiosa, menos colorida, sem cânticos, sem danças, sem celebrações, sem santinhos, niilista. Acontece que os sucessivos contextos históricos foram permitindo o instalar de “islões” em tudo sincréticos, já que confréricos, sufis na prática e nacionalizados regionalmente. Colonialismo, independências, Guerra-fria, pós-colonialismo. Parece-me mais correcto alinhar assim os conceitos, já que em tudo, aquilo que vivemos actualmente é o momento pós-colonial. A bola há muito que já tinha batido na parede e voltava para trás, mas agora está-nos a rebentar na cara!

São sobretudo estes momentos, colonial, pós-independências e Guerra-fria, que permitem um enraizar profundo de um Islão sincrético, porque Humano. Não é de estranhar que os wahabismos magrebinos tenham começado no pós-independência, como oportunidade de ruptura, mas também não se estranham as políticas dúbias desses regimes em cederem aos religiosos, para combaterem os comunistas. Bom, digamos que este largo período de mil anos (na perspectiva colonização árabe e otomana e depois colonização europeia), é equivalente a um marxismo-leninismo de impasse, de O Que Fazer? Um largo período com uma parte significativa de imposição de outros credos, ou mesmo da negação do divino. Um período de interregno na construção do “Projecto Islão”, cujo contexto actual permite avançar à velocidade do petróleo.

Dito isto, aquilo que eu gostaria de já ter transmitido nos parágrafos anteriores, é a importância e o prestígio que granjeia os aderentes à causa “EI”, tendo estes consciência que são os guerreiros de deus dos tempos modernos, revivendo as façanhas do Profeta e seus Companheiros, na expansão inicial da Última Profecia, de acordo com a própria Revelação.

Com o crescente grau de islamização das sociedades maioritariamente muçulmanas, a partir do pós-independências, o que está a acontecer é que os agora já adultos e alguns até já velhos, como os mais novos, estão de facto a ver o que projectam como réplica de conquistas passadas, bem como a realização de factos que pertencem à memória colectiva islâmica, como o de o renascimento do Califado se fazer a partir do Sham, Levante, que territorialmente ocupa parte considerável da Síria e do Iraque. Percebem porque é que eles vão todos de peito inchado? Vão ficar na História. Estão a fazer História!

É esta territorialidade que finalmente os veio fazer acreditar que é possível, com o bónus de se morrer pela causa “Projecto Islão”, a qual confere lugar assegurado no Paraíso. A criação deste precedente territorial inspirou grupos organizados, regra geral afiliados a uma nebulosa Internacional Terrorista sob o rótulo Al-Qaeda, a prestarem fidelidade ao novo califa, fazendo da parcela de território que ocupam, parte integrante do califado “EI”. Já é assim na Líbia, Argélia, Egipto, Nigéria, Iémen, Arábia Saudita, Paquistão e Afeganistão.

No caso da Síria e Iraque, acontece que o sucesso do “EI” também se pauta pela sua abordagem às populações. Ou seja, estas sabem que o seu modus operandi é brutal para quem não colaborar, mas receptivo e cooperante para quem obedecer. É assim que têm entrado nas cidades sem resistência e sem as destruírem. O exército iraquiano rebenta com meia cidade na entrada e outra metade na saída, na perseguição aos islamistas. As populações ficam, vêem a diferença e passam a palavra. Depois há também que contar com populações sunitas a receberem de braços abertos o também sunita “EI”, queixando-se das atrocidades e segregação sofridas pelos “heréticos” xiitas.

Numa cidade ocupada pelo “EI”, o padeiro é abordado e dizem-lhe “amanhã queremos pão fresco” e o padeiro responde, “mas eu não tenho dinheiro para comprar farinha” e o islamista diz “não há problema, amanhã eu ponho aqui a farinha que tu quiseres e tu fazes o pão. Dividimos despesas e lucros”. O padeiro fica radiante, pois tem trabalho, dinheiro e segurança, quando com o regime anterior tinha sobretudo que gastar dinheiro e tempo a pagar aos tipos que faziam o favor de o deixar produzir. A coisa tornou-se sustentável e a abordagem ao padeiro, é a mesma para com todos os outros negócios/comerciantes. Entretanto, no dia seguinte está um barbudo com uma kalashnikov à porta da loja e a clientela em filinha indiana, lá fora, a aguardar a sua vez para entrar. Na estrada, os semáforos e restantes sinais e regras de trânsito, são religiosamente cumpridos, sob o olhar inquisidor da nova ordem e, nem se ouvem buzinas.

Longe de mim fazer a apologia deste fascismo islâmico, ou de qualquer outro, mas a verdade é que o “EI” veio, curiosamente, estabilizar a vida a muita gente, dando em troca segurança, por via de regras simples, brutais, mas também consensuais, já que fazem parte de uma narrativa/memória colectiva, intimamente ligada ao culto do castigo divino. Neste capítulo, o que o “EI” faz é também proporcionar o circo para complementar o pão que ajuda a cozer, através de uma criatividade assassina, quase de desenhos animados ou de videojogos, que permite não apenas a criação de uma cultura do medo, mas também o gaudio da multidão no momento da execução. Atirar um homossexual do cimo de um prédio, ganha assim uma dimensão exótico-redentora, que só lhes pode assegurar a consensualidade de que estão a proceder bem e a acabar com o Mal.

Tunísia

Esta nova realidade cujo território-mãe é o Levante, na Síria e Iraque, mas depois, também pulverizado nos países mencionados por vários grupos juramentados, vem criar o ambiente propício para o surgimento de “lobos solitários”, precisamente por já não se sentirem sozinhos ao acompanharem este alastrar territorial, outra prova que o processo retomou a “senda recta”. Como se passássemos a ver o João Ratão a cair no caldeirão e a perceber que história da Carochinha se está a desenrolar mesmo à nossa frente. De repente a narrativa religiosa passou do éter para a rua. Acontece. Instala-se. Recruta.

A Tunísia, neste contexto, não se trata de um alvo de importância menor, muito pelo contrário. Trata-se do país onde as revoltas primaveris se iniciaram ainda em Dezembro de 2010 e o qual resolveu da melhor forma o processo de transição durante os últimos 4 anos, rematando o processo com a aprovação de uma Constituição que enfiou a famigerada Shariat num chinelo, quando o Artigo 2º define a Tunísia como um “Estado de carácter civil, baseado na cidadania, na vontade do Povo e no Primado da Lei”, apesar de o Artigo 1º mencionar o Islão como Religião de Estado. Tudo faz sentido, o Estado é laico, já que o Primado da Lei se sobrepõe à Religião e esta é ali mencionada, como o foi na Constituição de Habib Bourghiba, de 1959, assumindo agora a mesma dimensão histórica que o Preâmbulo da nossa Constituição. Mais à frente, o Artigo 6º consagra a “Liberdade de Crença e de Consciência”, impedindo os habituais redentores de perseguirem legalmente os apóstatas, sendo o Estado que protege o Sagrado e não os religiosos. O Artigo 21º garante os “Direitos e Liberdades Individuais e Colectivas”, sendo a lista longa, colocando o Ser Humano no Centro e não a Religião, para além de garantir a equiparação entre sexos. Ou seja, a Tunísia é, de facto, um Estado laico no coração do chamado Grande Magrebe, o arco que vai da Mauritânia até à Líbia. Um símbolo a abater, cujo modus operandi tem visado o sector turístico, vital para a a recuperação económica do país.

Diagnóstico

O grande problema é a reacção que a Ummah, a Nação Islâmica, está a ter relativamente ao que está a acontecer. Após o ataque ao complexo químico de Isère, França, na sexta-feira passada, O Colectivo Contra a Islamofobia em França (CCIF) num comunicado em resposta ao sucedido, enfatiza a islamofobia existente no país, aconselha à unidade e à vigilância e até apresenta um contacto mail para a denúncia (contact@islamophobie.net). Nem uma palavra sobre a violência indiscutível da mensagem corânica, nem uma palavra sobre a manipulação dessa mesma mensagem, nem uma palavra de repúdio sobre os manipuladores da mensagem.

Em Inglaterra, é curioso ouvir as famílias dos recrutados a queixarem-se que a polícia não faz nada! A fotografia da família “paquistanesa” pode resumir-se a uma alienação de rés-do-chão, na qual pais e avós se diluem nos musicais de Bollywood, enquanto filhos e netos se alienam no piso de cima, através da democrática internet. Que pena não consumirem apenas pornografia, como a esmagadora maioria dos internautas! Se os pais não sabem o que seus filhos estão a fazer no andar de cima da própria casa, como é que a polícia poderá saber?!

Aqui em Portugal, estive há pouco tempo numa conferência ao lado de um dirigente da CIL (Comunidade Islâmica de Lisboa), daqueles com responsabilidades de topo, o qual entre outras coisas, vendeu aos presentes a inexistência de problemas entre sunitas e xiitas, enquanto outro (muçulmano, não dirigente) consubstanciava esta e outras abordagens como sendo um problema político e não religioso. Como se o “Projecto Islão”, alicerçado numa construção religiosa, não tivesse um fim político e, como se uma construção religiosa, não fosse ela uma construção política desde o primeiro dia!

Em resumo, há um sacudir a água do capote permanente e uma culpabilização do exterior, face a um problema interno. Bom, talvez a partir de dentro tal não seja considerado como um problema, mas sim como uma oportunidade. Afinal, o que ontem estava ao nível da fábula, é hoje, 1 ano depois, uma realidade.

Raúl M. Braga Pires, a Low Level Researcher, em Lisboa e que escreve de acordo com a antiga ortografia!

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Comments

  1. As provincias do sul do Iraque estão a separar-se de Bagdad. Pena que os Bushs e seita afim não sejam julgados pelo resultados dos seus actos em todo o medio oriente. Claro que quem mais sofre é UE que está aqui a mão- ou seja optimas noticias para os anglosaxonicos dos dois lados do atlantico.

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