O que é que quer a Alemanha?

Grécia cadente

Há um novo ponto de bloqueio para que se encontre uma solução para a Grécia. Depois do quase acordo antes do referendo, Tsipras apresentou basicamente a mesma proposta na passada sexta-feira. O optimismo instalou-se e, seguramente, muitos europeus deram um suspiro. No entanto, ontem voltou-se à estaca zero depois de a Alemanha, pela voz de Schäuble, ter tornado público que o acordo não servia. Porquê? Porque as pesadas medidas pré-oxi estavam ausentes? Não, a capitulação grega foi clara. Porque os gregos se preparam para um volte-face depois da Europa dizer que sim ao acordo? Não, o acordo tem o aval do parlamento grego e de quase todos os partidos gregos.

A razão apontada pelos alemães para não aceitar o acordo foi falta de confiança, o que me leva a perguntar para que é que continuam em negociações. E talvez esteja nesta questão a chave para a vontade alemã. Dado que a presente proposta grega não difere substancialmente da outra pré-referendo e atendendo ao continuado impasse, já se percebeu que o problema não é financeiro mas sim político. Houve um país que desafiou a autoridade alemã e por isso deve ser punido com a expulsão. Não do país mas do governo. Schäuble não confia no Syriza e quer um governo da Nova Democracia. Esta é a questão da confiança.

Como se tem percebido pelas posições públicas dos países europeus, muito se tem apostado na vitória política, até mais do que na resolução dos problemas. Governos como o português teriam muito a explicar se outro país encontrasse uma solução que fugisse à austeridade e os governos do norte, com a Alemanha à cabeça, venderam aos seus eleitorados que a crise existia devido aos preguiçosos países do sul. Neste contexto, é insustentável eleitoralmente para estes governos que um país tenha conseguido uma vitória de Pirro, mesmo conscientes que iriam pagar caro ter ousado demonstrar que não se haviam rebaixado à Alemanha.

A questão da confiança traduz-se, na verdade, na titularidade da vitória política. Antes do referendo, o acordo que estava em cima da mesa representava a capitulação grega ao incluir praticamente todas as medidas que os credores exigiam e forçava o Syriza a ultrapassar as suas linhas vermelhas. Para governos como o alemão e o português era fácil ostentar a bandeira da vitória. Mas o referendo alterou o fiel da balança política. Se o presente acordo fosse aceite os gregos continuariam a poder dizer que tiveram voto na matéria e é isso que os opositores ao acordo não aceitam. Para poder ostentar claramente a bandeira da vitória, a Alemanha e os seus satélites precisam de quebrar os gregos. Por isso vão continuar a fazer de conta que negociam até que o governo grego saia de cena, mesmo que isso represente a completa destruição de um país.

Muitos acusaram a Grécia de traição ao trazer um referendo quando o acordo estava quase conseguido. Mas esta mesma traição foi o que fez agora a Alemanha ao fazer circular anonimamente uma proposta de grexit quando o acordo estava novamente prestes a ser conseguido.

Nesta luta pela hegemonia, as brechas já são públicas. A França já percebeu há muito tempo que o eixo franco-alemão deixou de existir e tomou o lado da Grécia. Os governos português e espanhol preocupam-se com as eleições à porta e colam-se a quem lhe impôs a austeridade. Os italianos deram um murro na mesa para se fazerem ouvir. Os finlandeses confiam na superioridade nórdica, achando que lhes bastará o seu petróleo numa Europa divida.

Depois de décadas de evangelização sobre a união europeia, a realidade demonstra que a Europa continua a ser um aglomerado das vontades políticas dos seus estados membros, incapaz de encontrar uma solução para o ataque que o gigantes das finanças lançaram ao euro.

Comments


  1. Reblogged this on O Retiro do Sossego.


  2. Mais algumas horas e saberemos o resultado, mas quer exista compromisso ou grexit a austeridade é para continuar, isso não restam dúvidas. A questão é serem impostas por Bruxelas ou decididas em Atenas. O problema parece ser mesmo a falta de confiança em Tsipras que convocou um referendo sem aviso prévio enquanto negociava. Imagina que recebe financiamento de emergência e decide sozinho um grexit, com mais tempo para o planear. Julgo que o Eurogrupo ainda hesita, face à incerteza que representa o Grexit, mas não há neste momento disponibilidade para mais acordos e assinaturas com Tsipras. Ao que parece neste momento o que está em cima da mesa é a garantia de excedente orçamental primário de 3,5% em 3 anos. Para o alcançar, algumas medidas serão impostas, abertura do comércio ao domingo, privatização da distribuidora de energia eléctrica, flexibilização laboral e mais algumas reformas… Isto representa as linhas vermelhas do Syriza ultrapassadas. E já se fala em troika para negociar o eventual 3º resgate. Após a retumbante vitória de Tsipras na passada semana, que inclusivamente decapitou a oposição ao ponto de não existir hoje alternativa caso se demitisse, levará algum tempo para organizar uma alternativa credível na Grécia, o seu avassalador triunfo resultou numa vitória de Pirro. Por tudo isto Tsipras ficou agora entre a espada e a parede, sem financiamento imediato, mesmo que o BCE abra a torneira será sempre com pouca pressão para acudir apenas à emergência, apenas receberá dinheiro após mostrar acção. Ou seja, começar de imediato a mexer na legislação e preparar privatizações. À medida que o fizer, poderá receber o financiamento solicitado. Se o fizer, será expectável um brutal aumento da contestação interna, inclusivamente dentro do Syriza, que poderá implodir. Caso não o faça, o resultado será o Grexit. Não vai conseguir mais tempo, por isso Varoufakis terá saído em alta.
    Quanto ao futuro do Euro ou da U.E. será outra questão e também questões diferentes entre si…

    • Nightwish says:

      Não, é tudo a mesma questão… O 3,5% são uma miragem e um absurdo. A crise chinesa vai mostrar que tudo isto foi inútil e que euro já tinha os dias contados.


  3. A guerra deixou de ser feita por trincheiras, baionetas ou ameaças de bombas atómicas.

    A guerra faz-se, novamente tendo a Alemanha no centro, apoiada por um novo Eixo.

    Aprende-se com a História? Não.

    Preocupam-se com o estado islâmico, qualquer dia às nossas portas e em força? Não!
    Preocupam-se em promover e mostrar ao mundo 1 união a sério, propiciadora de humanismo, progresso, democracia, liberdade e bem-estar dos seus cidadãos, dissuadora de fundamentalismos? Não.

    A guerra está aí e desenvolve-se em reuniões contínuas dirigidas por ignorantes.

    Mais do que a hipocrisia e/ou a incompetência, o perigo vem da ignorância da história do mundo. Da ignorância. E esta ignorância está a mostrar-se perigosa, muito perigosa.

  4. Pimba says:

    Quer apear o Tsipras para meter no seu lugar um “tecnocrata” fantoche e humilhar o povo grego.

    Einfach!

  5. MJoão says:

    Mas a guerra, infelizmente, virá. A “cintura” da Europa está em fogo. A Grécia não tardará a entrar em guerra civil e daí a um novo incêndio nos Balcãs é um passo de fósforo.

  6. Danielle Foucaut Dinis says:

    O que quer a Alemanha, é amedrontar os paises do sul e adverte-los a não recomeçar a piada de ter um governo hostil e frontal que diz NÃO como fez o Syrisa na Grécia! a DEMOCRACIA NÃO É PARA NÓS, São eles que mandam, e nós só nos resta tremer á espera dos dinheiros. temos que sair do Euro que há de nos levar ainda mais baixo do que já estamos.

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  1. […] activos gregos para banco de Schäuble e Gabriel”, lê-se no ionline. Soma-se a ganância à sede de poder que […]

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