Assim seja, caralho*

Liberdade. Ser livre não é para todos. Primeiro, é preciso a consciência e a vontade de ser livre. Não se é livre sem saber que se é livre e sem assumir essa responsabilidade: as crianças, seres nefelibatas, não são verdadeiramente livres; não se é livre abdicando de o ser, o que sucede muitas vezes, entre outros motivos, por falta de coragem, por fragilidade de carácter, por cálculo de compromisso; não se é livre se, em prol de outros valores, mais ou menos venais, se aliena total ou parcialmente a possibilidade de ser livre. Para ser livre é preciso ainda contexto político e jurídico, ou fugir. A tudo acresce a medida. Muita gente seria, em hipotética igualdade de circunstâncias, intrínsecas e extrínsecas, diferentemente livre consoante o quantum de liberdade que lhe bastasse.

Acredito que poucos saberão dizer se são livres ou reféns das teias da sua liberdade. Embora lhes seja fácil identificar nos outros os traços de liberdade que admiram.

É aqui que me situo, eu que procuro ainda, desta forma analítica e ociosa, digerir a morte prematura de alguém que foi, para mim, sinónimo de liberdade e talvez o meu melhor amigo.

Fraternidade. Poderia também, nesta tentativa de exorcizar a perda desse amigo, acentuando-a, falar de fraternidade. Porque ele foi um irmão, cinco anos mais velho, que sempre me tratou com complacência e generosidade. Um irmão mais velho, sei porque também o sou, partilha com os mais novos o seu espaço, os seus gostos e, de forma mais distanciada, as suas actividades. É assim que os irmãos mais novos aprendem com os mais velhos sem os chatearem. Com uma excepção: aquelas actividades que descobrem juntos são conjuntamente vividas com o mesmo entusiasmo, com a mesma intensidade e com o mesmo prazer. Por exemplo, quando dois irmãos se iniciam nas artes radiofónicas em simultâneo, não sossegam enquanto não concretizam, através de experimentações musicais e literárias nem sempre improvisadas, todas as formas possíveis de afrontar os dogmas e as certezas dos sistemas e das instituições; e só descansam quando destroem, em directo, as suas próprias criações radiofónicas, desligando gradualmente todos os aparelhos que permitem a mediação comunicativa e informando com pedagogia os ouvintes dos passos seguidos até ao último pio permitido pela desmontagem do microfone.

Não há, no testemunho deste episódio dadaísta, qualquer conotação simbólica com a morte do meu amigo. É que a morte sempre foi, em toda a sua negação, combustível para alguns dos nossos programas de rádio, neles funcionando muitas vezes como factor, senão regenerador, pelo menos criador. Sempre fizemos dela o que quisemos, antes que ela nos fizesse o que já sabíamos que faria.

Além disso, a morte é agora indiferente ao meu amigo. A morte só afecta os que ficam e só esses conseguem fazer dela algo mais do que aquilo que é, como por exemplo uma ausência aflitiva, um fenómeno catalisador, uma piada de mau gosto, um elogio fúnebre.

Quero eu também dizer com isto que o fim de uma pessoa não pode ser confundido com o fim do que essa pessoa foi ou do que nos deixou, que permanecem incólumes. Que eu saiba, o meu amigo efectivamente foi aquilo que foi e, mais, o que eu quiser que ele tenha sido, para além do muito que efectivamente me deixou. Por exemplo, a convicção de que só é possível ser, como ele diria, puro, quando se vive com desprendimento, intelectual e material, e que só se consegue governar esse desprendimento quando se é puro. Não há volta a dar. Os meus amigos, pelo menos sonhados, são assim.

Voltando à rádio, os programas que fizemos, primeiro difundidos através da Rádio Universidade de Coimbra, que ambos ajudámos a nascer, e mais tarde endrominados em podcast via internet, eram pontes para outras paragens, começassem ou terminassem elas, quase sempre de madrugada, na casa-refúgio da Ferreira Borges. Mas em trinta e dois anos de partilha de opiniões, de comidas, de indiscrições, de silêncios, de bebidas, de anedotas, de desamores – os amores de um amigo não se partilham, decretam-se e aguentam-se do outro lado-, era ali que se corporizavam ou esfumaçavam ideias para novas criações.

Não obstante o seu distinto mau-feitio, não me lembro de uma única discussão enquistada com o meu amigo. Sempre nos respeitámos e as discordâncias eram ultrapassadas com condescendência porque no essencial estávamos de acordo. O essencial, para quem não sabe, circula despreocupado por aí e poisa frequentemente em Artaud, Camus, Céline, Pavese, Beckett, Cortazar, Pessoa, Cesariny ou Hélder… É engraçado porque também no necessório estávamos muitas vezes de acordo. Eu diria que nesta categoria estariam o Pacheco, o Pimenta, o Vian, o Bukowski, o Pynchon… Nunca tivemos esta discussão e esta daria certamente molho. Havia também, é claro, os desvarios pessoais e os ódios de estimação que nos infligíamos mutuamente, debruçados, com pompa e paciência, consoante o papel assumido, sobre um copo sonolento.

Igualdade. É muito menos provável que, sucumbindo à tentação de fechar o tríptico revolucionário, venha aqui falar de igualdade a propósito da morte do meu amigo. Como falar de igualdade, ele que acerrimamente por ela se batia no plano civil e social, quando no plano pessoal não voltarei a conhecer ninguém igual? Para haver verdadeira igualdade em matéria de João José Cardoso teríamos que morrer todos também.

Dias antes, sabendo já, sem mo dizer, que partiria, o meu amigo digitou, quando dele procurei saber: a luta continua. Talvez estivesse a ser irónico ou, ao citar um programa de rádio que mantivemos, a despedir-se. Mas no fundo tinha razão. Essa luta é a nossa única conquista. De minha parte, antes de me tornar igual a ele, tentarei continuar a luta com alguma da liberdade que lhe reconhecia.

PS – A Gisela pede para te dizer que gosta de ti, porque sendo muito para muita gente o eras também para ela.

* Verso final de um poema de Benjamin Péret emulando o Pai Nosso católico, em Os Tomates Enlatados (Les Couilles Enragées/ Les Rouilles Encagées), tradução Silva de Viseu, 1987, edição Antígona. A vírgula, que em bom rigor muda tudo, é de minha autoria. Deste modo, não estamos já perante o verso final de um poema de Benjamin Péret emulando o Pai Nosso católico mas perante um mero pastiche. Por outro lado, fazer pastiche de caralho para acentuar a inevitabilidade associada à expressão “assim seja” é um esforço de legitimação tão pífio como bater uma pívia, sendo aqui a pívia a tentativa de recuperar Péret para o título de um texto sobre alguém que nele em parte se revia. Assim, “assim seja, caralho” já nada tem a ver com o “assim seja caralho” que substitui o “e livrai-nos do mal” no originário poema. Aos leitores, pelo facto, as minhas sentidas desculpas.

Comments


  1. Oh meu caralho! esqueceste-te da 4ª a GUILHOTINA! sem ela nenhuma das outras funciona. Robespierre dixit…. e lixou-se com F.


  2. Que as 30 mil virgens sucumbam


  3. João José Cardoso, viverás sempre no meu coração.


  4. Eu não me esqueço de ti.