Carta do Canadá: Maré Alta

Agora foi a Roménia. Acabo de ver a reportagem duma manifestação popular em Bucareste durante a qual milhares de pessoas gritaram que, se foram capazes de lutar contra a ocupação soviética, também o são para liquidar uma classe política corrupta. Porque, de fonte limpa, já se sabe que houve corrupção da grossa naquela discoteca que operava sem licença e na qual um incêndio matou um elevado número de pessoas. O primeiro ministro, um social democrata, teve a decência de se demitir imediatamente.

Nos dias que correm, torna-se cada vez mais grave a fraude cometida pela Volkswagen e outras marcas de renome da indústria automóvel da Alemanha. Passado o pasmo de se saber que, afinal, na pátria de Merkel também há grandes podres, segue-se a revolta internacional por um país arrogante, sobranceiro, que de forma tão cruel tem humilhado os países do sul da Europa e, principalmente, a Grécia. Os réis da competência e da auto-proclamada seriedade, estão aos nossos olhos como vulgares trapalhões. Pormenor que, até agora, só era conhecido pelos coca-bichinhos que se informam: na verdade, a Alemanha colaborou alegremente na corrupção dos partidos gregos do arco da governação lá do sítio e foi por isso que se mandou ao ar quando um atrevido Syriza sacudiu a Grécia pelos ombros e a acordou. Teve, ao menos, essa virtude. A Alemanha é, hoje, um caldeirão em fervura lenta, mas fervura que vai da esquerda à extrema direita. Ainda temos muito filme para ver.

Em Espanha, nossa vizinha, a corrupção tem sido tão grande e tão prolongada que os jovens do Podemos e do Cidadãos tiveram de saltar à rua e mobilizar o povo. Vai ser lindo.

Em França, quem desgraçadamente tomou a dianteira da revolta contra a corrupção foi a extrema direita. Um caso complicado a resolver.

Como complicado e dilacerante é o que se está a passar no Vaticano, porque também ali tem havido corrupção. Ora, se lembrarmos que Jesus Cristo varreu os vendilhões do templo a chicote, percebemos que corrupção à sombra da Igreja é uma coisa muito séria. Há uns bons pares de anos, numa situação chocante, tive ocasião de dizer a um arcebispo que nós, portugueses, não nos importamos muito se os padres tiverem filhos, porque a natureza tem uma força descomunal, mas nos mandamos ao ar se eles se meterem em negociatas com o dinheiro do culto. Ficou admirado nas teve a sensatez de acreditar e de agir em conformidade. Também neste caso, e até porque o Papa Francisco é sincera e universalmente amado, é de prever que apareçam movimentos a querer pôr ordem na casa. Tanto mais que, estando o Vaticano na Itália que sofre há tantos anos os malefícios da máfia, e do conúbio desta com altas figuras locais, tudo deixaria de ter sentido se a Igreja não limpasse as suas hostes.

Também se adensam os rumores de desleixo, incompetência, abuso, na União Europeia. Por isso a esquerda europeia se mobiliza e se une, tentando pôr fim a uma administração que, sobre não ter sensibilidade nem cultura política, tem fechado os olhos a vários desmandos.

Em Portugal também há corrupção. E mistério. Quem governa e quem anda na política de modo profissional costuma suspirar, diante das câmaras da TV e dos microfones da rádio, que “Portugal é um país pobre”. Se é assim, então donde vieram tantas centenas de milhões sugadas pela corrupção e pela incompetência ao longo dos últimos 40 anos? Caíram do céu? Ou o António de Santa Comba Dão tinha mealheiro escondido? Ou Portugal é um país que, se governado com competência e honestidade, podia viver bem em todos os escalões sociais? Uma coisa é muito certa: este estado de coisas não pode continuar. Os mais novos bateram o pé e não tarda nada, dão murros na mesa. Têm toda a razão, porque o futuro é deles. Portanto, é hora de limpar a casa lusitana. O resto é conversa da treta, muito própria de quem tem o rabo preso.

Comments

  1. Maria João says:

    Quem viu o filme “12 Anos de Escravidão” lembra -se certamente da cena em que cerca de dez ou doze negros livres iam de barco a caminho do mercado onde seriam vendidos e escravizados, guardados pelos três ou quatro bandidos que os haviam raptado. A dada altura o herói do filme pergunta aos restantes negros por que não se viravam aos raptores e invertiam a situação, justificando a sua ideia pela vantagem numérica. A resposta foi simplesmente nula por causa do medo.
    Percamos o medo de limpar os cantos sujos deste país. Nós, os portugueses comuns, podemos não ter esse poderio do dinheiro e do conluio que sentimos muitas vezes que existe. Podemos ficar atónitos e por vezes desanimados e até apáticos, e resignarmo-nos perante tanta corrupção – umas vezes obscenamente exibida, outras tantas subterrânea, mas sempre tóxica.
    Porém não nos deviamos esquecer que somos mais do que os corruptos que há anos e anos nos drenam os recursos e a alguns a vida!
    Nós somos mais! Muitos mais que têm o direito e o dever de exigir rigor e seriedade.

  2. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Vem-me à memória a frase de Attenborough que diz mais ou menos o seguinte: Pensar que há crescimento constante num mundo que tem limites, é uma estupidez saída ou de um lunático ou de um economista.
    E a resposta a todas estas trapaceirices, vigarices, corrupções, etc, etc, etc, repousa apenas no facto de cada vez mais estarmos entregues a decisores cuja base de trabalho são folhas de Excell.
    Quando as limitações surgem por qualquer moticvo, para se manter o “elan”, recorre-se às medidas que são bem conhecidas onde entra a mentira e a vigarice.
    O princípio de base repousa assim em dois pontos que se sucedem:
    1 – O que importa é facturar.
    2 – Quem vier atrás que feche a porta.
    E viva o capitalismo selvagem (neo-liberalismo) … que nos dá estes condimentos todos.

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