Gastão era perfeito

Gastão era perfeito, como o da canção. Ainda hoje lembra, com prazer, o jubiloso dia em que descobriu as redes sociais e a possibilidade de nelas exercer e espalhar por toda a parte a sua perfeição. Adrede criou três perfis no facebook e um blog, tratando de se munir de heterónimos vários para intervir nos blogs e perfis alheios. Eles iam ver!
Abastecido destes recursos, Gastão não perdeu tempo a dar-lhes uso. E quanto mais os usava, mais omnisciente se sentia. E bom. Muito bom. Gastão sentia-se a pedra de fecho da abóbada universal da bondade e da correcção política. É verdade que, por vezes, perdia um pouco a cabeça ao comentar, usando pseudónimos indecifráveis, alguns blogs que visitava, mas temos de compreender, Gastão não era Deus. E, lembremos, até os deuses, por vezes, perdem a paciência.
A tarefa, porém, em que mais se sentia realizado era a de, com o sobrolho severamente erguido, criticar os seus amigos, amigos dos amigos e público em geral por não saberem gerir com a indispensável correcção as suas manifestações de bondade ou solidariedade. Por isso, ocupava muito do seu tempo na tarefa altruísta de educar o povo das redes sociais. Alguém se condoía da má sorte de um gato? Logo Gastão perguntava porque não fazia o mesmo com um cão. Se alguém se penalizasse pelos dois animais, logo o vigilante Gastão lembrava, implacável, que havia muitos animais de que o publicista se estava a esquecer. Se um incauto mostrava interesse pelos direitos dos animais em geral, Gastão, fulminante, perguntava-lhe se não comia bifes ou, argumento fatal, se não pensava antes nas crianças que por todo o mundo sofriam.
Quando a solidariedade revestia um carácter mais especificamente político, Gastão refinava. Havia um atentado em Portugal, Espanha, França e multiplicavam-se as manifestações de dor e solidariedade? Então, Gastão enunciava exaustivamente todos os lugares do mundo em que o mesmo teria ocorrido com maior ou menor gravidade, usando de um rigor do amanuense que faz um inventário, censurando os seus amigos por não se lembrarem, na sua dor, de todos eles. Chegava a chamar-lhes hipócritas, imaginem. É que ele era politicamente correcto, omnisciente na sua percepção do mundo. E se vislumbrava nas publicações dos seus alvos o mais pequeno vislumbre de emoção ou, pior ainda, sentimento, Gastão logo discorria analiticamente sobre as labirínticas razões das ocorrências em causa, censurando os seus amigos por não terem a sua clarividência e se deixarem obnubilar pelas emoções esquecendo a racionalidade mesmo que, ou sobretudo quando, os elementos em causa tivessem, em muitas outras condições dado provas de competência no exercício desse atributo.
A coroa de glória de Gastão foi, contudo – e ele lembra-a com a certeza de um dever cumprido – o correctivo infligido a um amigo que, numa publicação do facebook, lembrava a memória de sua desaparecida mãe no dia em ocorreria o seu aniversário. “ Como te atreves a mostrar a tua dor egoísta – escrevera Gastão, implacável – esquecendo de todas as mães desaparecidas em todo o mundo? De todas as raças, de todos os credos, de todas as nacionalidades!”.
Gastão estava firmemente convicto de que erguia alto o facho da razão e desprezava a fraqueza da emoção – sobretudo se as manifestações desta não tivessem um carácter universal e exaustivo, logo, despido de sentimento.
Esgotando o seu tempo e empenho nesta virtuosa cruzada, o nosso herói vigilante das consciências só não se apercebia de um facto que para todos era óbvio: de tanto se ocupar com a virtude e a correcção alheias, não lhe sobrara, a ele próprio, tempo para qualquer manifestação de solidariedade ou simples empatia fosse com quem fosse.
É que Gastão era perfeito e o tempo dos homens perfeito é sempre muito ocupado.

Comments


  1. Belo post.


  2. Uma descrição do que é um bom troll. Mas já reparei que militancia troll esmorece com o tempo se não receber resposta . Digamos que um sintoma forte mas passageiro; se lhes derem troco rejuvenescem com muito mais viço.