Obra da internet

Como é que um jornalista canadiano que nunca esteve em Paris acaba na primeira página de um jornal espanhol, com a legenda “Um dos terroristas” debaixo da foto do seu rosto?

Foi “obra da internet”, mas também podia ter sido do demo.

Assim aconteceu por obra e graça do jornal ultraconservador (o adjectivo é meu) La Razón, que não teve pejo em usar uma foto manipulada a partir de uma selfie do jornalista Veerender Jubbal. Onde havia um ipad, passou haver o Corão. E por cima da camisa passou a estar um colete de bombista. O tom de pele é perfeito para a mistificação e pronto, é só pôr a circular pelas redes. Daí até que um jornal preguiçoso e desonesto faça uso da imagem é só meia dúzia de shares.

A primeira página da edição de ontem saiu assim:

Veerender Jubbal acabaria por descobrir que tinha sido investigado, acusado e condenado pelos atentados na cidade onde nunca pisou. Protestou, evidentemente, e a resposta do jornal foi um singelo tweet a pedir desculpas. Já na edição em papel, e não na mesma primeira página, mas sim na vigésima, em rodapé, sem um único pedido de desculpas, o jornal justifica-se: se há um falso assassino, é por culpa da internet.

Ficamos esclarecidos. Se um inocente é rotulado de assassino é obra da internet. Se por acaso alguém o tivesse identificado e decidido fazer “justiça” pelas próprias mãos, teria sido obra da internet. Se acabasse morto por aquilo que nunca fez, seria, ainda assim, obra da internet. Nunca dos acéfalos irresponsáveis que vendem o rosto e o nome de um homem para aumentar tiragens.

(Via La Marea)

Comments


  1. Igualzinho ao meu vizinho da frente, bom tipo, que me pede o assador cada vez que quer grelhar o jantar para mulher e canalha dele. Igualzinho também, acho eu, aos bandidos que fizeram aquilo lá em Paris mas nada parecidos.

  2. Fernando Lopes says:

    Eu, com tez de cigano, temo para que possam servir as minhas fotografias.

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  1. […] Continua… […]