O desperdício em dia de recolha de bens para o Banco Alimentar

BA

Apesar da inenarrável Isabel Jonet, a acção do Banco Alimentar é de uma importância inquestionável, nomeadamente nestes tempos em que a pobreza avança de forma preocupante e sem precedentes na era democrática. Como vem sendo habitual nesta altura do ano, a instituição lançou uma campanha de recolha de bens junto das principais superfícies comerciais que o bom coração do português comum, como é seu hábito, decidiu abraçar.

Calhou de ser dia de ir às compras. Ao entrar num hipermercado da minha cidade, fui abordado por uma jovem escuteira que me entregou um saco e me pediu um donativo. Aceitei o repto e segui para a minha tarefa. Chegado à charcutaria, pedi 200 gramas de queijo e a funcionária, como é habitual, fatiou mais do que aquilo que pedi. Normalmente deixaria passar mas 240 gramas pareciam-me demais para as necessidades lá de casa pelo que pedi para retirar o excesso. A jovem acedeu ao meu pedido, retirou algumas fatias e enviou-as directamente para o lixo, prática comum nestes estabelecimentos. Dei por mim a pensar na hipocrisia que representa este desperdício, não da parte da funcionária mas da empresa que a isso a obriga, quando à porta do estabelecimento estão pessoas a recolher bens alimentares para ajudar os mais desfavorecidos.

Todos os dias são destruídas toneladas de alimentos em perfeitas condições porque a economia e as regras europeias a isso obrigam. Em nome do lucro e do consumismo sem freio, essas mesmas toneladas de alimentos, que tantas pessoas podiam alimentar, deixam de cumprir a sua função enquanto milhares de famílias, em Portugal e por todo o mundo, apenas conseguem fazer uma refeição decente por dia. Ou nem isso. Seremos loucos?

Foto@Banco Alimentar

Comments

  1. Ana Moreno says:

    Por isso existe a iniciativa “PORTUGAL NÃO SE PODE DAR AO LIXO”, que diz:
    Cerca de 360 mil portugueses passam fome. Enquanto isso, estima-se que todos os dias 50 mil refeições são desperdiçadas de norte a sul do país. O movimento Zero Desperdício está a aproveitar os bens alimentares que antes acabavam no lixo – comida que nunca saiu da cozinha, comida cujo prazo de validade se aproxima do fim, ou comida que não foi exposta nem esteve em contacto com o público – fazendo-os chegar a pessoas que dela necessitam. Ao entrar num estabelecimento com o selo Zero Desperdício, tem a certeza de que todas essas refeições são aproveitadas e encaminhadas para a mesa de alguém. Uma iniciativa em que os estabelecimentos e os seus clientes participam sem gastarem um cêntimo.
    http://www.zerodesperdicio.pt/

    Não a conheço, mas faz-me todo o sentido!

    • José almeida says:

      Acho a ideia “zero desperdício” muito mais interessante que o Banco Alimentar”. Só o facto de se chamar Banco, já me põe céptico. Depois, parece que a Junot deve ter um acordo com as grandes superfícies, porque equilibram o “cash flow” com estas iniciativas. Espero que o Zero Desperdício arranje publicidade grátis como a Junot, a assim poder levar o projecto em frente. Sinto desconforto e algum nojo quando se fala no Banco Alimentar.


  2. Plenamente de acordo com o post, é algo chocante, pior ainda quando imposto por lei o desperdício da comida que poderia ser canalizado para quem ela tanta falta faz.

  3. Rui Moringa says:

    Esta questão do desperdício levava-nos na discussão.
    Claro, por princípio estou contra o desperdício e tento não desperdiçar nada, mesmo em comida. Quando tenho excessos de fruta que colho na horta e outro tipo de produtos e não tenho capacidade de armazenar dou a pessoas amigas e da vizinhança.
    O consumismo, a ideologia que nos torna semelhantes e ratazanas de engorda é uma bestealidade. Mas quando falamos de comida, poderíamos falar de outro tipo de bens.
    Doar generosamente é uma virtude e um ato da consciência de cada um e de todos.

  4. Jaculina says:

    Nos hipermercados onde faço compras, o queijo ou fiambre fatiados em excesso vão para o balcão frigorífico e não para o lixo.

  5. Fernanda says:

    Em relação ao post do Carlos Garcez Osório, mais abaixo, escrevi o que se segue aqui, pois a mensagem recebida foi que:

    “O seu comentário aguarda moderação.”

    Se puderem, contribuam:

    – “Fortunas portuguesas aumentaram durante o resgate”

    http://www.dinheirovivo.pt/economia/fortunas-portuguesas-
    aumentaram-durante-o-resgate/

    – “19 dos 20 grupos económicos do PSI-20 (o índice da Bolsa de Lisboa) têm a sede em outros países, para auferirem de vantagens fiscais em relação a Portugal. A Holanda é o destino preferido das empresas do PSI-20.”

    http://www.esquerda.net/dossier/fuga-das-empresas-do-psi-20

    – “O ex-secretário de Estado dos Transportes vai receber 30 mil euros por mês para vender o Novo Banco. A notícia é do Jornal Público.”

    http://www.rtp.pt/noticias/politica/sergio-monteiro-vai-receber-30-mil-euros-por-mes-no-processo-de-venda-do-novo-banco_v877400

    – “Os últimos dias de indefinição política no país levaram alguns empresários a “retirar dinheiro do país pelos sinais negativos que foram dados em termos de fiscalidade”, revela o presidente da CIP – Confederação Empresarial de Portugal, António Saraiva.”

    http://rr.sapo.pt/noticia/40370/nos_ultimos_dias_houve_fuga_de_capit

    Se o Carlos Garcez Osório puder, alimente a ideia que pudemos ter ideias diferentes.


  6. “Dei por mim a pensar na hipocrisia que representa este desperdício, não da parte da funcionária mas da empresa que a isso a obriga”

    Neste caso em concreto, pode agradecer ao Estado. Isso são normas da ASAE. Produtos alimentares não embalados não são passíveis de devolução e, como tal, lixo.


  7. Um pouco mais de recolha de dados daria a resposta certa porque tem que ser assim.