Floriano

Nuno Calado Mateus

O único homem que exercia um verdadeiro controlo sobre estas coisas era um tipo chamado Floriano. Era ele quem fazia o tempo, provocando, a seu bel-prazer, a chuva, a neve, os dias de sol ou as trombas de água, desencadeando tempestades e canículas, produzindo, com um pequeno esforço extra, leves brisas e temperaturas amenas. As horas vagas, passava-as sentado numa cadeira, a pensar. E pensava coisas espantosas.

Quando um dia, preocupado com algumas ideias esquisitas que me tinham recentemente ocorrido, lhe perguntei qual era, na sua opinião, o futuro da arte, desatou-se estupidamente a rir e respondeu-me que essas coisas ninguém as podia adivinhar. Ele sabia.

Noutra ocasião, tendo-lhe revelado a minha disparatadamente comprida lista de dúvidas acerca da verdade, limitou-se a mandar-me olhar para as águas fugidias dum ribeiro, na altura engrossado pelas chuvas, que por ali passava. Como nenhuma explicação para os mistérios que me afligiam me tivesse sido dada durante os três dias inteiros que passei, sentado numa pedra, a observar, levou-me a atravessar um rio a sério, num barco a remos. Mas a única coisa que me disse, durante todo o tempo que demorou a travessia foi: «Reunir, e separar, são as únicas operações». Para bom entendedor, meia palavra basta…

«A quintessência das artes», segredava-me ele em dias sufocantes de calor, enquanto mergulhávamos nas águas encantadas dalguma praia perdida, «vai-se evidenciando à medida que a técnica humana se emancipa das suas raízes mágicas». Como eu não compreendesse, uma vez, para me provar o que dizia, deu-me a beber um precioso chá, no qual colocara não sei que diabo de droga que me deixou o dia todo pregado à cadeira onde me tinha sentado. Desde então, tudo o que vejo me parece uma pálida imitação da vida. E é por isso que só me sinto artista quando, nas noites de verão ou em dias, como hoje, em que a chuva tamborila nos vidros e nos telhados, me sinto vivo.

in Ether & Netheredição de autor, 2014.