Abstenção e responsabilidade

São insuportáveis os devaneios argumentativos de justificação da abstenção eleitoral. Tudo serve para responder a este mistério: a culpa é dos partidos, da meteorologia, dos astros, do karma. Tudo se invoca menos a responsabilidade – eu não disse culpa – e a deliberação dos próprios abstencionistas. Temos de deixar de vez este ângulo de análise que parece reduzir as pessoas, os cidadãos, a meros títeres de obscuras forças manipuladoras. Não se pense que ignoro a complexidade que envolve a formação das visões do mundo e idiossincrasias de cada um, bem como do papel dominante da ideologia. Mas o que nos resta de liberdade e autonomia individual tem de se erguer em nós e, chamado à decisão, tem de ser chamado à responsabilidade. Sob pena de questionarmos os próprios fundamentos e possibilidade da democracia, tenha ela a forma que tiver.

A abstenção é, pois, quer se queira quer não, um acto de escolha, por muito diversas que sejam as razões que a fundamentam, o grau de consciência que a informa, os efeitos vários que venha a ter. Mas não podemos omitir a responsabilidade, para que não se desvaneça a liberdade.

Comments

  1. José Chorão says:

    Eu abstive-me. E não foi uma escolha, foi uma consequência da falta de qualidade (na minha perspectiva, obviamente) de todos os 10 candidatos.
    Não sou obrigado a votar. Se o faço, escolho o partido ou candidato com cujas ideias me identifico. Se não existir nenhum candidato assim, não vou depositar o meu voto num qualquer imbecil, com o qual me não identifico, só porque tem de ser. Porque não tem de ser.
    Desde o comentador político cata-vento e aloucado ao padre-arrependido, desde o ex-reitor ao denunciador de tudo mas de ninguém, desde o calceteiro analfabetonto até ao “orador motibacional”, desde a mulherzinha da pensão vitalícia ao médico zangado com tudo e com todos, nenhum destes candidatos (NENHUM!) mereceu o meu voto.
    Nenhum destes 10, na minha perspectiva, merece presidir ao meu país. Por isso abstive-me. Sou um criminoso por isso? Não me parece. Criminoso e irresponsável seria votar num imbecil qualquer imerecedor do cargo.
    Nós não temos de votar num candidato “menos mau”. Eles é que têm de ser bons candidatos. Ontem não valeu a pena atravessar a rua. Tive pena, mas esta gente não me merece mais que uma enorme indiferença.

    • albanocoelho says:

      Explique então, por favor, porque não votou na Marisa Matias. É que não a identifiquei no seu comentário…

      • José Chorão says:

        Está lá explicado mas eu repito: porque me não parece digna de presidir ao meu país.
        Em linguagem desportiva: não alcançou os mínimos para ir aos Jogos Olímpicos. Na minha perspectiva, claro.


    • Note, José Chorão, que não faço juízos de valor sobre a abstenção e parece-me que deixei claro que se trata de uma escolha, de uma responsabilidade, não de uma culpa (tudo isto está no texto). Ao contrário do que diz, o meu texto não contem qualquer censura à opção de abstenção.O que afirmo, exactamente, é o direito à abstenção sem que seja sujeita a interpretações que anulem a autonomia de quem toma essa opção. A abstenção é uma escolha – que pode ter as mais diversas razões -, mas é uma escolha com consequências e um direito. Só recuso ao abstencionista que venha, mais tarde, a afirmar “que nada tem a ver com o que se passa” . Não me parece que seja o seu caso.

      • José Chorão says:

        Sim, eu entendi o seu texto e concordo com o seu ponto de vista. Não digo em lado nenhum que o senhor censura a opção da abstenção.
        A abstenção é um direito e eu exerço-o porque me recuso a votar num “menos ruinzinho” que os outros. A Presidência merece melhor que um mal menor.
        Eu gostaria de ter votado, mas recuso votar num bando de candidatos tão fraquinhos.
        A responsabilidade de tantos eleitores se terem abstido será, em parte (já que outros terão tido outros motivos), por não terem avançado outros candidatos que, na minha perspectiva, poderiam ser excelentes opções.

    • Nightwish says:

      Os donos disto tudo agradecem que os ache iguais aos outros.

      • José Chorão says:

        E os incompetentes agradecem que vote neles só porque se opõem aos “donos disto tudo”. Não me parece que seja requisito suficiente para ser Presidente.
        Opor-se aos donos disto tudo até a porteira do meu prédio o faz, com abundância de vernáculo; não me parece que desse uma boa Presidente. Mas você vota em quem entender. Eu também.


  2. Há abstencionistas convictos e depois!

    • albanocoelho says:

      E depois nada… Desde que não venha mais tarde afirmar “que nada tem a ver com o que se passa”, tal como na resposta acima.

  3. José Chorão says:

    Vamos lá ver se nos entendemos: se à hora de almoço me estiver a apetecer uma boa posta de bacalhau assado e, no restaurante da esquina me oferecerem uma variedade de 10 pratos de carne mas nem sombra do apetecido bacalhau, a culpa é minha porque sou esquisito e não escolho nenhum dos 10 pratos de carne? Ou será do gerente que devia abrir um pouco mais a ementa e apresentar um bacalhauzinho digno desse nome?
    EU RECUSO votar num palerma qualquer só porque não há melhor opção. Tem de haver uma boa opção. Há alguns portugueses extremamente competentes para desempenhar o cargo de Presidente. Se nenhum desses se dispôs a candidatar-se, isso devia dar-nos motivo de reflexão, em vez de se desunharem a atacar quem não se contenta com pouco. A democracia merece mais que o bando de palermas que se candidatou.

    • Nascimento says:

      Olha lá a Democracia é isto mesmo. São pessoas que dão a cara e fazem politica como S. da Nóvoa e não pessoas como o cavalheiro que se julga acima de outros, e considera os ” outros” um BANDO DE PALERMAS!
      Estamos conversados quanto ao que o ilustrissimo cavalheiro considera ser uma Democracia… de chapeu na mão e curvado com o ” candidadto/a” com o qual o cavalheiro se identificaria … talvez um D. Sebastião ou um excelsio doutor da mula ruça…espera sentado e aproveita come o bacalhau á Tenrreiro.

      • José Chorão says:

        Caro Nascimento:
        pelo nome, vê-se que já nasceu.
        Agora veja se cresce.

        • Nascimento says:

          Não é preciso “crescer”, para perceber um velhíssimo discurso. O ” CHORO é” tão velhinho! é o discurso dos que ficam sempre á porta. É o CHORINHO dos que apontam falhas diversas ao ” sistema” politico, seja lá o que isso represente para eles, ficando depois cobardemente sentadinhos esperando que algo aconteça.
          Mas,como dizia a Micas cá da rua quando via alguém a “armar-se” em fina flor do entulho: -antes puta que QUADRILHEIRA-
          Agora vai brincar…

          • José Chorão says:

            Que nível…
            Ou falta dele…
            Mas a culpa é minha, quem me manda a mim…

    • Nightwish says:

      Na sua analogia vai a outro lado comer outra coisa, na política leva com o prato de carne que o poder mais gosta pela goela abaixo.

  4. Afonso Valverde says:

    Compreendo bem os vossos argumentos que classifico de responsáveis.Se não há candidatos que nos satisfaçam, não devemos votar em nenhum deles.
    Mas, não deveríamos utilizar o voto em branno ou nulo, uma vez que não existe a opção assinalada no boletim de voto do tipo (nenhum)?
    Eu penso que todos deveríamos ir ao local de votação e fazer uma opção, contemplando anular o boletim ou votar branco.
    Não ir e declarar-se abstencionista não perece o mais adequado sabendo-se que votar é um dever e um direito.
    No boletim deveria contemplar a opção: Abstencionista-abstenção?! Seria uma forma de ampliar a formalização de uma escolha.


  5. A DEMOCRACIA DÁ TRABALHO
    Ser cidadão duma sociedade democrática dá trabalho, demora tempo e é uma chatice. Só a tarefa de ler os programas de todos os partidos portugueses e os CVs dos principais protagonistas pode levar semanas. Mas depois de se ler tudo, conclui-se que é estúpida, a atitude daqueles que ditam sentenças do tipo “são todos iguais”. É evidente que não leram nada. Quem não encontra diferenças entre VINTE partidos diferentes, não se deu ao trabalho de as procurar.

    ABSTENÇÃO É PREGUIÇA
    O que incomoda na abstenção, é a falta de colaboração num trabalho importante. Não é uma questão de direitos ou deveres cívicos em abstracto, o problema é concreto. Temos uma tarefa difícil, da qual depende o nosso futuro, e os abstencionistas ficam encostados sem fazer nada. Isso tem consequências graves para a democracia. Se a maioria votar, devidamente informados, em vez de ficar em casa, consegue obrigar os partidos a prometer soluções viáveis e cumprir o que prometem. Isto vale bem o trabalho de ler uma dúzia de panfletos, pensar um pouco e pôr uma cruz no papel. Mas não é um trabalho que se deva deixar só a uns poucos enquanto a maioria anda a dormir.

  6. Camaradas says:

    Camaradas o voto devia de ser obrigatório pois assim alguns candidatos que não conseguem 50.000 votos ou 5 % da votação ficam sem direito ao guito dos impostos, mas se o voto fosse obrigatório já teriam direito a dinheiro dos impostos.

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  1. […] pessoas com mais de 15 anos, por isso, há pelo menos esse valor a retirar à lista de eleitores. A abstenção é uma questão de responsabilidade, mas é também uma opção política. É urgente a sua resolução enquanto o tempo das […]

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