Notas soltas sobre as Presidenciais 2016

Acompanhei as Presidenciais 2016 com pouco interesse, visto que não existiu nenhum debate sobre Portugal, sobre o seu futuro e sobre a forma como nos devemos organizar – as reformas só serão possíveis depois de uma reflexão profunda sobre o país, criando consciência pública sobre a necessidade urgente de resolver os nossos problemas organizativos, de representação, de deficiente responsabilização, transparência e ética. Alguns dos candidatos tentaram colocar esses temas em cima da mesa, sem grande sucesso infelizmente, pois a força mediática desviava a atenção para os aspetos mais populistas. Prevaleceu a notoriedade pública e o prestigio mediático, o que é uma pena, mas é o que é. Ficam, no entanto, algumas notas que vale a pena realçar.

Abstenção: 51% dos eleitores inscritos não foram votar, o que em si é já um número assustador, mas é particularmente grave o desinteresse dos jovens. Se há alguma coisa que nos deveria fazer refletir é isso mesmo, o crescente desinteresse dos jovens pela vida pública, pelas decisões tomadas, pela participação na eleição daqueles que, mal ou bem, os vão representar e decidir por si.

Marcelo Rebelo de Sousa: Esta eleição foi o resultado de um processo longo e meticuloso, em que Marcelo se preparou ao milímetro para ser eleito. Foi muito eficaz nessa sua estratégia, na qual contou com a sua inteligência, capacidade de comunicação e invejável carreira profissional. Ouvi o discurso que fez ao final da noite. Muito bem construído, a contrariar a minha perceção de que, mais tarde ou mais cedo, não resistirá a ser o Marcelo da intriga, da análise e dos factos políticos. Marcelo ganha de forma avassaladora (2,41 milhões de votos) tendo em conta o momento que vivemos – teve  mais 300 mil votos que a PàF e ganhou em todos os distritos, incluindo Beja-, pelo que tem legitimidade política e pessoal para fazer a diferença. No entanto, como muito bem nota Nuno Garoupa, não entrou no eleitorado de esquerda e teve menos votos do que Cavaco em 1996 (2,6 milhões) e em 2006 (2,7 milhões). Este resultado irá, no entanto, provocar transformações profundas no centro-esquerda (onde me situo) e no centro-direita, como argumento mais abaixo neste artigo.

Maria de Belém: teve uma derrota de muito grande dimensão, o que vindo de uma ex-Presidente do PS que contou com enormes apoios de socialistas influentes, e que de certa forma desafiava António Costa (basta lembrar a forma como foi anunciada a candidatura, no mesmo momento em que António Costa dava uma entrevista importante a um canal de televisão), tem um significado político muito claro no interior do PS.

Marisa Matias: tem um resultado surpreendente, face às expectativas iniciais e às sondagens, fez uma campanha muito interessante, tentando colocar de forma clara temas importantes a debate (tarefa que em minha opinião só foi acompanhada por Henrique Neto e a espaços por Sampaio da Nóvoa), e reforça a posição da sua área política (o BE) no panorama partidário nacional – fixou o seu eleitorado que resistiu à  lógica do voto útil. Na verdade, a afirmação sucessiva do BE, a sustentabilidade das suas votações, tem um efeito óbvio no PCP – que teve um resultado humilhante (183 mil votos), muito perto do obtido pelo Tino de Rans (152 mil votos) – mas também constitui uma ameaça ao PS, pois o partido estará em condições de disputar o eleitorado do PS mais à esquerda. O resultado obtido por Marisa Matias é talvez, do ponto de vista político e de futuro, um dos mais importantes desta eleição.

Sampaio da Nóvoa: não resistiu a uma certa pulverização de candidatos à esquerda, nomeadamente na sua área política, e não foi capaz de combater de forma eficaz a notoriedade pública de Marcelo Rebelo de Sousa. Era um combate desigual e, nestas circunstâncias, praticamente impossível de vencer. Deixou no entanto um registo de uma pessoa séria, competente, focada no interesse público e que percebe com clareza os desafios colocados a Portugal. Espero sinceramente que esta derrota eleitoral não signifique o seu desaparecimento da cena política.

Dos outros candidatos realço Henrique Neto, um homem sério, capaz, coerente, com experiência demonstrada e que apresentou um discurso focado nos principais problemas nacionais, apontando as fragilidades do sistema e a necessidade urgente de reforma. Não tem, no entanto, notoriedade pública e foi incapaz de criar empatia com o eleitorado. Noutras circunstâncias, com uma comunicação social mais preocupada com o debate e confronto de opiniões e propostas, talvez o resultado fosse outro (teve 39 mil votos) e tivesse algum significado político. Mas é um homem cuja experiência e valor deve ser aproveitada.

Como referi acima, o centro-direita e o centro-esquerda vão sofrer alterações profundas depois desta eleição. A liderança dessa mudança, a sinceridade e capacidade de agregação com que for conduzida, ditará o futuro a médio e longo-prazo. É um enorme desafio, em primeiro lugar, para António Costa, que é de todos aquele que me parece que percebeu melhor o momento. Esta vitória de Marcelo, que recusou sempre que esta eleição fosse uma 2ª volta das legislativas e afirmou sempre a sua vontade de trabalhar com o Governo em funções colocando o foco na estabilidade, constitui uma nova posse de António Costa, e reforça a sua estratégia tirando espaço a quem aposte na queda do Governo (sai também reforçado no interior do PS, apesar da derrota do “seu” candidato). A PàF morre definitivamente e os dois partidos que a constituíam estão numa grande encruzilhada, pois percebe-se, com esta vitória de Marcelo, que não representam atualmente este espaço político. Veremos como “aprende” a nova liderança do CDS, como se renova e como adquire um discurso menos liberal e mais focado em aspetos sociais, e como reagirá o PSD – um partido descaraterizado, sem causas, aparentemente afastado das pessoas e das suas preocupações, sem programa e sem rumo.
Tempos interessantes pela frente e, surpreendentemente, de renovada esperança.

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Meu caro Norberto Pires:
    Na sua muito bem escrita crónica, relevo dois pontos de discordância. Por um lado, Marcelo Rebelo de Sousa limitou-se a aparecer. Não foi fazer a rodagem do carro como “o outro”, mas podia ter dito e feito o mesmo.
    Os media fizeram o trabalho por ele. Foi uma vitória em casa com árbitros e juízes de linha todos do seu lado.
    Como disse aqui neste espaço, numa outra crónica, esta vitória está completamente inquinada à nascença. O povo já demonstrou, na sua maioria que não tem consciência cívica (a começar pelos 51% de abstenção) e isso também foi particularmente visível nos tais 300.000 votos ( que com toda a certeza foi buscar ao PS) que passaram da dita esquerda para a direita.
    A maioria deste povo não sabe o que quer, a não ser as mini-férias, as férias e uns jogos de futebol.
    É óbvio que se respeita o resultado, mas a análise requer equidade, algo que não existiu em todo este processo.
    Os jovens são a parte não visível deste iceberg político.
    Seria bom percebermos porque os jovens, salvo os que fazem carreira nas Juventudes partidárias, se alheiam do processo político. A responsabilidade está completamente nesta classe política oportunista e corrupta e, para fechar o círculo, nestes media que se associam a quem lhes assegura o futuro, distorcem a informação e condenam ao ostracismo o contraditório, funcionando como caixas de ressonância dos novos senhores feudais.
    Sobre Maria de Belém, completamente de acordo consigo. E só espero que António Costa seja capaz de separar o trigo do joio, enviando para o PSD os “rosinhas” que têm vergonha da cor encarnada, onde entram espécimes como Maria de Belém, Assis, Canas e outros que falam em esquerda, mas estão mais à direita que o PSD.
    Respeito profundamente o homem de direita convicto, mas tenho uma má vontade especial aos ditos “traçados”.
    Cumprimentos.


    • Meu caro Ernesto Ribeiro, obrigado pelo comentário. Estamos de acordo no essencial e reforço essa preocupação com a participação dos jovens. Os números apontam para um crescente alheamento (menos de 2% dos jovens participam em organizações políticas ou cívicas) que só pode ter péssimos resultados no futuro. Estou de acordo consigo relativamente à comunicação social em Portugal. Não escrutina, não investiga, não coloca em dificuldades e é veio de transmissão de mensagens já pré-concebidas. Isso é muito preocupante, pois não há liberdade, nem democracia, nem escolhas conscientes, sem uma CS forte, livre e independente. Cumprimentos, J. Norberto Pires
      Nota suplementar: eu confio na capacidade de julgamento dos eleitores e, regra geral, não reclamo da sua decisão soberana 🙂

    • José Chorão says:

      Caro Ernesto Ribeiro: não ter votado não significa falta de consciência cívica; será assim em alguns casos; noutros casos, não votar (a abstenção é um direito de que não abdico) é um protesto contra a falta de qualidade dos 10 estarolas que se apresentaram a votos.
      Vamos lá falar a sério: alguém acredita que estes 10 candidatos sejam o melhor que Portugal merece?
      É que a Presidência da República é o mais alto cargo público, o de maior prestígio e dignidade. Eu posso indicar-lhe, sem esforço, 15 ou 20 portugueses que, qualquer deles, dariam excelentes Presidentes. Mas nenhum deles se mostrou disponível para tal cargo, ficando a disputá-lo uma colecção díspar de pessoas, respeitáveis, não digo o contrário, mas de muito fraca qualidade para ocupar tão alto cargo.
      Parece-me que Portugal merecia melhor que um comentador tresloucado e inconsistente. Os outros eram ainda pior. Era isto que nos devia fazer reflectir. E não criticar aqueles que preferiram, como protesto, não dar votos de confiança a um mal menor.
      Cumprimentos

    • Nascimento says:

      Mais uma vez na certeiro na analise .

  2. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    Boa tarde caro António Chorão.
    Não tomemos a nuvem por Juno. Tenho uma opinião muito negativa sobre a abstenção e abstencionistas isso porque a grande maioria deles, não têm o seu nível cívico ou político.
    Já aqui trocamos opiniões sobre vários temas e não tenho dúvida nenhuma que o caro António Chorão é um oásis no deserto da representatividade da consciência geral dos portugueses.
    Este povo que nem distingue a PàF do PSD/CDS (e são muitos, mas mesmo muitos), não me merece qualquer respeito cívico.
    É gente abúlica que, tal como a amiba, adapta a forma do seu corpo ao meio que o circunda. É gente de bandeira ou seja, um grupo de carneiros que segue desesperadamente o seu chefe.
    Repito: esta opinião é minha e apluica-se a uma maioria que, infelizmente, é silenciosa.
    É o povo que insiste nas fórmulas que o desgraçaram de um modo despudorado. É um povo altamente egoísta para quem a fórmula do futebol encaixa na vida social e política. É aqui que entra a bandeira.
    Infelizmente, esta é a percepção que eu tenho deste povo dos 3 F’s, a que se começam a juntar, perigosamente certos povos europeus, como o franceses, que sempre tomei como gente crescida. E é aqui que entram esses media, tão desmiolados ou oportunistas como o comum tuga.
    Portanto quando exprimi a opinião sobre os abstencionistas, é óbvio que não pretendi tocar em personalidades como o Sr., cuja consistência cívica, me merece todo o respeito.
    Não sou abstencionista – mas já votei nulo – o que quer dizer que compreendo a sua opção, embora a não siga, preferindo outras.

    Provavelmente haveria outro grupo de pessoas com mais valor que os que se não apresentaram a candidatos à Presidência.
    O problema é que fosse quem fosse que aparecesse, desde que não apoiada pela máquina partidária – a tal bandeira que neste país tudo governa, seria perfeitamente trucidado.

    Para terminar, a minha opinião não se destina a atacar ou criticar as pessoas responsáveis que optam por uma figura de votação que passa pela abstenção. É tão só uma crítica à irresponsabilidade que grassa nesta sociedade e que os faz eleger com maiorias absolutas constantes, personagens como Cavaco ou Marcelo, para depois passarem cinco anos a dizer mal das suas opções. E em podendo, voltam ao mesmo.
    E a juventude que não entra no naipe da discussão da vida cívica e política, é a outra face da moeda.
    Já pensou a quem vamos legar este cantinho à beira-mar plantado? Cumprimentos.

    • José Chorão says:

      Caro Ernesto Ribeiro: tocou no ponto certo: o futuro.
      Os jovens estão quase totalmente desligados da política. Sentem um enorme desprezo por tudo o que rodeia a vida política, que consideram coisa de velhos e de gente corrupta.
      O problema é que isto afasta os melhores e abre o caminho a gente de cada vez menor qualidade. Os bons mantêm-se afastados disto.
      Estas eleições presidenciais já mostraram alguns candidatos francamente impensáveis num país desenvolvido e consciente, outros menos maus, mas nenhum verdadeiramente bom que mobilize multidões pela qualidade das suas propostas (e não pela demagogia bacoca).
      Isto é muito preocupante e não sei como devemos fazer para recuperar a política para os melhor preparados a servir o país e não a servir-se dele.
      Cumprimentos

      • Nascimento says:

        Quem são os Estadistas maravilha dos ”países desenvolvidos”? Quais países? A começar na França e andando por ai acima, só merdaleja por essa Europa. Tudo creme de la creme, tudo ESTADISTA!!! Ui…Que bosta.


  3. Quem lê algumas das cronicas do Professor Norberto Pires, mas sobretudo alguns comentários e apoios que atraem, não o conhecendo pessoalmente fica com uma ideia completamente errada da sua forma de estar na vida.
    Norberto Pires não é de todo um daqueles “iluminados” de gabinete sem o mínimo de noção da realidade, mas que acham que têm o “Rei na barriga” e passam a vida a passar atestados de indigência à maioria dos portugueses. Quem lê esta cronica mas sobretudo os comentários fica com essa ideia.
    É fácil concordar que uma grande franja da nossa população não tem formação politica para avaliar correctamente as diferenças praticas para o quotidiano de elaborados debates ideológicos, mas os resultados por localidade mostram claramente, que não são esses que provocam a alternância, e como tal não são eles de todo os responsáveis pelas más escolhas, que colocaram no poder gente que nos levou à dependência dos credores, à quase falência como país. Os responsáveis foram esses cerca de 300 mil, que se acham muito capacitados politicamente, a esmagadora maioria da classe media ou media alta, e que alteram o voto provocando a alternância. Nada contra, apenas o facto de que a situação do país mostrar que se têm enganado vezes de mais.
    Há mais de 40 anos que não gosto da forma de estar na política de Marcelo Rebelo de Sousa. Ele era o primeiro subscritor da única moção do 5º Congresso do PSD, que elegeu Sousa Franco contra Sá Carneiro e já nessa altura ele assumiu uma posição muito semelhante à que rebelou nestas eleições. Mais que um cata-vento MRS sempre foi na politica um meias tintas, aparentemente sem grandes convicções, facilmente moldável às situações desde que elas alimentem a sua enorme vaidade. MRS é um militante do PSD que não se sentiria desconfortável como ministro deste governo de Costa.
    Apesar disto discordo em absoluto que tenha sido a comunicação social que o elegeu, muito menos a iliteracia politica dos portugueses. Quem o elegeu, mais que a sua enorme capacidade de comunicar foi a avassaladora diferença da qualidade do seu currículo quando comparado com qualquer dos outros candidatos.
    Não estou também de forma nenhuma tão optimista/esperançoso com as mudanças, sem duvida necessárias. Primeiro porque não acredito de todo em António Costa. Quem não olha a meios para a tingir os fins não merece confiança! Também no PSD e CDS nada de muito novo acontecerá, isto porque o CDS, seja qual for a liderança, dificilmente passará de um partido de quadros. Bons quadros, mas sem o suporte de uma estrutura nacional, que os “alimente” de ideias, propostas e debate, que mudem algo na politica do país. Já quanto ao PSD mais que Passos Coelho é sobretudo a sua entourage que precisa de uma vassourada de cimo a baixo, pois pode mudar o discurso mas na verdade nada muda se não mudarem as pessoas e a exemplo de outros líderes, como Cavaco por exemplo, o maior problema de Passos são as más companhias, companhias que ele já mostrou à saciedade não é capaz de mudar, e muito dificilmente alguém, com o mínimo de credibilidade para ter hipóteses, se atreverá neste momento a defrontar Passos.

  4. Nascimento says:

    Ena pá,o que fazem as ”más companhias”… que bela posta,plena de ranço ”didático ”.Largueza freguês.