O verdadeiro triunfo dos porcos

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Miguel Szymanski

Acabei de falar para a fábrica Triumph, em Sacavém, que produz roupa interior para a marca e multinacional alemã de mesmo nome. Telefonei, porque a última notícia que vi online já tinha quatro meses e porque queria saber da sorte das 500 famílias, da zona da Grande Lisboa, que dependem da actividade daquela empresa.
Contaram-me a mesma história que se repete por todo o lado no país: toda a gente vai perder o emprego se não se encontrar rapidamente um comprador. O problema da fábrica têxtil Triumph, da fábrica de bolachas Triunfo há quatro meses ou do jornal Económico esta semana é que esse comprador nunca aparece. O comprador está a comprar imóveis na Alemanha, francos na Suíça ou a investir em produtos financeiros em Frankfurt e Londres.
No caso da Triumph a empresa está à beira de fechar, não por não haver encomendas ou por a fábrica não dar lucros, mas porque produzir na Ásia dá mais lucros e tem menos despesas sociais, ambientais e de segurança no trabalho. Esta tem sido a opção da maioria das empresas europeias que produziam em Portugal desde que o mercado internacional “se abriu” em 2005.
A decisão de abrir o mercado europeu ao exterior, praticamente sem restrições, foi excelente para uma economia como a alemã, que estava à espera de poder acelerar a produção em milhares de fábricas, todos elas prontas a começar a trabalhar a todo o vapor. A Alemanha começou a aumentar de tal forma as exportações de carros, máquinas e de centenas de outros bens industriais que a moeda única, o Euro, não está a resistir às assimetrias entre um centro produtor e exportador ao rubro e a periferia em recessão.
A decisão de abertura do mercado foi péssima para um país como Portugal, que nada mais tem para oferecer do que mão de obra barata e que não estava preparado para a concorrência feroz, sem regras e sem custos sociais. Foi péssima e foi comprada aos decisores políticos portugueses, demasiado incompetentes ou corruptos para evitarem o colapso da economia nacional.
Vai provavelmente acontecer com a fábrica têxtil Triumph o que aconteceu há quatro meses com a fábrica de bolachas Triunfo. Com o desaparecimento da pouca indústria que ainda resta a Portugal, quer produza roupa ou bens alimentares, desaparece também a capacidade para manter as empresas que fazem jornais, desaparecem as editoras e as livrarias. O que resta são quiosques e lojas de souvenirs que vendem memórias, latas de sardinha e sabonetes artesanais com design retro.
O mais grave é que desaparecem a pessoas. Na semana passada estive a fazer uma reportagem no Hospital São José em Lisboa e vi, por todo o lado naquele edifício público, dentro do próprio hospital, cartazes afixados de uma “feira de empregos”, uma feira para enfermeiros e médicos, a convidá-los a emigrarem para o Reino Unido, a Dinamarca e Alemanha.
O perigo já não é há muito o comunismo. O perigo é este capitalismo, que mata.

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