Crónicas Desportivas (1) – Vardy again…

O primeiro golo (e que golo) do Operário Jamie Vardy ao serviço da selecção inglesa, selecção que prezo pelo facto de, vedetismos e empresários à parte, ser um conjunto formado pelos melhores indiferentemente dos clubes em que jogam. Bastará ver que a convocatória de Roy Hodgson para os dois compromissos desta janela internacional (e mais que prováveis convocados para o Europeu que se irá disputar em Junho) contou com a presença de jogadores de clubes como o Stoke, Southampton, Manchester City, Chelsea, Liverpool, Everton, Tottenham, Manchester United, Arsenal e Leicester.

Jamie Vardy é o Homem (The Man), expressão que os ingleses utilizam frequentemente para quem está a mudar o rumo da história.

Desde Gary Lineker que a Inglaterra já não via um avançado tão completo em todos os aspectos da posição: capaz de jogar dentro ou fora da área, como ponta-de-lança, segundo avançado ou extremo, possante sem ser demasiado alto (1,78), com uma condução de bola e dribling acima da média e com uma capacidade de finalização (em potência, a um toque dentro da área, de cabeça) que não está ao alcance de qualquer um. Convém referir neste aspecto que até há bem pouco tempo, o futebol era para Jamie Vardy um hobbie que não pagava as contas lá de casa, sendo bem conhecido do público em geral o seu percurso civil como estudante do ensino superior em regime nocturno ao mesmo tempo em que trabalhava numa fábrica.

Saído das divisões secundárias inglesas para um modesto clube que até à presente temporada teimou em nunca assentar na Premier League, o Leicester, na mais cara transferência até hoje realizada por um clube semi-profissional (o Leicester, na altura na Championship, equivalente ao 2º escalão pagou em 2012 1 milhão de libras ao modesto Fleetwood Town da 5ª divisão; Conferência Britânica) Jamie Vardy já fez história na Premier League ao tornar-se o primeiro jogador a marcar em 11 jornadas consecutivas e ameaça fazer mais história se continuar a auxiliar o Leicester na sua cavalgada pelo histórico título inglês, título que a equipa nunca conquistou (ou esteve perto de conquistar) ao longo da sua história.

A epopeia de Vardy na presente temporada (não nos podemos esquecer de outros jogadores influentes na turma de Leicester como Kasper Schmeichel, Wes Morgan, Robert Huth, Christian Fuchs, Mark Allbrighton, Shinji Okazaki, Riyah Mahrez ou Ngolo Kanté; está a quebrar alguns enguiços (o principal é a possibilidade do modesto Leicester vir a ser campeão ao leme do improvável “natural born looser” Claudio Ranieri, treinador que se arrisca, depois de passagens por clubes que lhe deram outro tipo de condições e matéria-prima para arriscar lutar por títulos como Chelsea, Napoli, Fiorentina, Valência, Parma, Juventus, Inter ou Roma) e promete para já por os clubes grandes a pensar, não fosse o facto dos 5 directores-executivos dos mais importantes clubes de Inglaterra (United, City, Arsenal, Liverpool e Chelsea) já se terem reunido secretamente com um dos fundadores e organizador da empresa que organiza a International Champions Cup (evento de pré-temporada realizado nos Estados Unidos da América, China e Austrália) Stephen Ross (proprietário dos Miami Dolphins da NFL; os outros proprietários da competição são Matt Higins, o antigo director-executivo, ou em inglês, General Manager dos New York Jets e Charlie Stilliano) para estudar a possibilidade de, de acordo com que tem vindo a ser aventado pela imprensa inglesa nas últimas semanas, ajudada pela imprensa alemã mais próxima do Bayern de Munique, outro dos interessados devido a sua actual estratégia de expansão para mercados como a India, China e Austrália, arranjar os sponsors necessários (sendo nessa parte a parte na qual entram os magnatas na NFL; ao nível de receitas provenientes de todo o tipo de sponsorship, o futebol europeu ainda tem muito a aprender com o que é feito pelos gestores das franquias desportivas Norte-Americanas) para criar uma competição paralela ou até alternativa à Liga dos Campeões na qual só teriam direito a participar as melhores formações mundiais, com prémios e receitas  vindas da publicidade e da cedência de direitos televisivos superiores aos que actualmente são pagos pela UEFA.

De certa forma poderemos dizer que na presente temporada, Vardy e os seus companheiros não só estão a conseguir vencer os grandes dentro de campo como estão a semear o medo entre os clubes grandes visto que com o mais que provável apuramento do Leicester e do Tottenham (actual 2º classificado da Liga) para a Liga dos Campeões da próxima temporada, vários grandes ingleses ficarão de fora no acesso aos milhões distribuídos pelos prémios daquela competição, prémios que tanta falta fazem aos ditos para manterem as suas estruturas opulentas, manterem a hegemonia interna dentro do futebol inglês e alimentarem as suas pretensões internacionais. Há bem pouco tempo, existiu quem defendesse que o Leicester não deveria ir à Liga dos Campeões da próxima temporada. 

O motivo que leva os grandes chefes do futebol inglês a declarar tal ambição resume-se à falta premissa que o Leicester é um clube pequeno e como tal incapaz de gerar mais-valias financeiras para a competição. Contudo, as mais-valias desportivas dos grandes clubes ingleses, contratadas a peso de ouro e pagas a peso de ouro, tem jogado uns furos abaixo daquilo que tem jogado o Leicester de Vardy e Ranieri.

Enquanto o título não vem (como adepto do Tottenham preferia que a Taça viesse parar a White Hart Lane) Jamie sorri e marca de calcanhar à Alemanha, desfazendo as célebres palavras do seu “mentor” Gary… Afinal, a Old Albion é capaz de vencer os Alemães no coração de Berlim. A selecção de Roy Hodgson parece-me estar no caminho certo para realizar uma boa campanha em França.