A política monetária do BCE

Logo European Central Bank

Logo do BCE – representa uma moeda de euro encravada numa valeta

O Banco Central Europeu anunciou no inicio de Março mais um conjunto de medidas de política monetária. Apesar do comunicado do banco não referir os motivos (o que se compreende, os cidadãos não são preocupação do BCE), a imprensa não tardou em anunciar as consequências destas decisões.

O objectivo principal do BCE é manter a inflação dentro de uma determinada faixa logo abaixo dos 2%. Segundo o BCE isto permite à economia usufruir dos benefícios da estabilidade de preços. Apesar do BCE apenas ter mandato para assegurar a estabilidade dos preços, são mais ou menos transparentes as intenções deste em tentar intervir na economia (o que é bastante compreensível, se tivermos em conta a inabilidade completa dos outros órgãos europeus em combater a crise).

É evidente que estes esforços não têm surtido o efeito desejado:

Euro_area_annual_inflation_and_its_main_components_(%),_March_2014_-_February_2016

Inflação anual na zona euro de Março de 2014 a Fevereiro de 2016, fonte Eurostat

Estas políticas não têm tido efeito a nível do mandato principal, nem os efeitos esperados a nível da economia como um todo. O crédito é o sangue da economia e, passados oito anos de crise, continuamos sem crédito.

Porque motivo estas políticas não funcionam?

A meu ver podemos apontar as seguintes causas:

  • As empresas já estão muito endividadas, acabam por chegar a um ponto onde não se podem endividar mais. É claro que o abaixamento da taxa de juro de referência é sempre bom, mas não serve de estímulo;
  • Os bancos têm de manter os rácios de capital dentro de faixas legalmente definidas pelo que não podem emprestar arbitrariamente;
  • Os bancos têm grandes problemas nos balanços, utilizam este dinheiro grátis para fazer roll over da dívida, adiando desta forma estes problemas. Não têm grande interesse em aumentar os respectivos activos. Na prática estão insolventes dado que os activos presentes nos respectivos balanços estão avaliados de forma muito, mas mesmo muito, optimista;
  • Como há uma grande falta de crédito novo na economia a lei da oferta e procura acaba por aumentar o preço do dinheiro para o consumidor final. Isto torna proibitivo para muitas empresas o financiamento na banca;
  • Os bancos centrais continuam a anunciar programas de compra de activos, é um óptimo negócio para os bancos: obtém dinheiro grátis ou quase (juro baixo) → compram produtos financeiros → descarregam com lucro esses activos nos bancos centrais.

Tenho consciência da importância destas medidas do BCE, sem elas, muito provavelmente, a economia europeia já teria colapsado (dado que o sistema financeiro não teria resistido e com a queda deste o resto da economia também não iria aguentar). Mas, o estado actual das coisas, faz-me lembrar um doente terminal cuja vida é suportada por máquinas. O doente não melhora.

Conseguem os leitores identificar mais causas para a ineficiência das medidas do BCE?

Comments

  1. Nightwish says:

    Com toda a austeridade, não há ninguém a quem vender, logo também não há motivo para pedir empréstimo e investir nem para dar aumentos, logo não há ninguém a quem vender…

  2. titio2002 says:

    Possivelmente o João Miranda do Blasfémias tem uma explicação melhor… No entanto, esta chega para mim, e concordo com as razões apresentadas, em particular os activos dos bancos, em particular imobiliário, está sobrevalorizado, Os problemas recentes com prejuízos nos bancos indicam isso mesmo.

    • joão lopes says:

      o blasfemias destila odio contra tudo e todos,qual a diferençao com o EI?


  3. Nada como ter dinheiro em papel nos dias que correm, preferencialmente espalhado e com diferentes divisas…


    • É verdade, tanto cá, como no Japão, o que não impediu o BCE de persistir com as mesmas políticas… Estarão loucos?

      Já agora, começo a pensar que o melhor é comprar terrenos (assim tivesse dinheiro para tal)…

      • Rui Silva says:

        Isso podia ser uma boa ideia, mas como o Estado tem rédea solta no que a impostos diz respeito, a tentação de subir impostos sobre imóveis é muito grande. Não podemos pegar nos terrenos e fugir com eles dos Infernos Fiscais. O melhor será comprar ouro/prata e guardar em algum sitio mais seguro , os vulgarmente chamados Paraísos Fiscais.

        cps

        Rui Silva

      • joão lopes says:

        terrenos,sem duvida.já faltou mais para ver pessoas a comer notas de 500E ,porque não tem comida decente para comprar(um tomate/batata/alface de horta não tem nada a ver com produtos da agroindustria).ou seja,seria uma ironia demoniaca que houvesse notas a voar e falta de comida.

        • Rui Silva says:

          Ironia ? Não !
          O monopólio de emissão de moeda e políticos irresponsáveis com acesso à impressora das notas, tem levado a essa situação em inúmeros locais do mundo. Ainda à pouco tempo vi uma foto no Zimbabue em que para comprar um quilo de fruta era necessário alguns quilos de notas . O cliente precisava de “um carrinho de mão” para levar as notas e a fruta podia ser trazida na mão.
          Em Portugal no inicio dos anos 80, sendo na altura muito novo para perceber o que se passava, lembro-me bem de inflação salvo erro a 20 e muitos %. Mas a nível nacional felizmente isso já não é possível.
          A nível europeu com Dragui no BCE , se não fosse a influencia alemã com certeza que já estaríamos com inflação mais elevada. E as notas já valeriam muito menos. É no que dá a monetarização sem racionalidade.

          cps

          Rui Silva


          • O problema é irmos no oitavo ano de crise sem fim à vista. Por este andar teremos de esperar pelo próximo ciclo de Kondratiev para voltarmos a ver alguma prosperidade.

          • Nightwish says:

            A Europa com uma deflação e a direita preocupada com a inflação. Anda nisto, a economia. E depois diz que os outros é que não percebem nada.

  4. Afonso Valverde says:

    Sair do euro em força. Sem capacidade de emissão total estamos nas mãos de estrangeiros.
    Os ingleses e dinamarqueses são burros?!!!!!
    BCE, é fugir dos alemães.


    • Emitir moeda significa desvalorizar a que existe, premiando o endividamento e penalizando a poupança. Com a agravante que diminui os salários, mesmo que muitos não o percebam. Quem gosta da receita que vá empobrecer sozinho. Continuo a dizer que vale a pena guardar notas, preferencialmente de diferentes divisas, em diferentes lugares…

      • Nightwish says:

        É normal, em cenário de deflação que queira ficar com as notas. O problema é que os bancos e as empresas também, e não havendo investimento não há crescimento e as rendas (de propriedade, financeiras, etc) continuam a ter que ser pagas. E os bancos a imprimir o mesmo, que tem de ser compensado de algum lado.


        • Uma boa razão para não se confiar no Estado e suas instituições, neste caso os Bancos centrais.
          Um dia terão que equacionar o que pretendem, não é possível emitir moeda indefinidamente nem aumentar as dívidas sem controlo. Aliás ninguém o defende, mas ano após ano a verdade é que as despesas do Estado (não importa agora quais) aumentam, tal como a dívida. Qual será o fim da história? Acreditar que vai haver um aumento do crescimento mais ano menos ano, é um conto de fadas, pressionados os governos podem optar por um aumento de proteccionismo, mas a verdade é que essa prática nunca criou riqueza onde quer que fosse. Os extremismos, sejam de esquerda ou direita, nunca me pareceram tão próximos…

          • Nightwish says:

            Não vou comentar o resto mais uma vez, mas vou só dizer que se não quer emitir moeda indefinidamente nem aumentar a dívida, não digo sem controlo, mas quando é necessário então não quer capitalismo. Era uma faceta sua que desconhecia.


          • Talvez seja altura de coneçar a distinguir liberalismo e iniciativa privada do resto, acredito no capitalismo mas abomino cartelização, proteccionismo e plutocracia

          • Nightwish says:

            Certo, mas não misture as coisas. Capitalismo sem emissão de moeda constante e sem dívida é coisa que nunca existiu, a existir não acredito que possa chamar-se capitalismo porque terá de funcionar de maneira diferente. Não há modelos, tanto quanto sei, pelo menos nunca foram testados, portanto dá igual.
            Já na cartelização acho que a história mostra que é o que acontece quando o estado sai do caminho, mas enfim.

          • Rui Silva says:

            A cartelização é uma actividade altamente instável. Dizem muitos estudos e a própria realidade. Os que se aguentam tem de uma forma ou outra a ajuda do poder politico.

            cumps

            Rui Silva

          • Nightwish says:

            Espera lá, a cartelização é por os bancos não poderem falir? Homem, isso economistas da esquerda à direita lhe dizem que não podiam sem causar o caos, e não estão a brincar.

          • Rui Silva says:

            Num sistema Capitalista um banco pode e deve falir se for mal gerido. Num sistema em que o poder politico obriga o contribuinte a pagar a má gestão dos accionistas já é socialismo.

            cumps

            Rui Silva

          • Nightwish says:

            O Rui nunca houviu falar do Big Oil, nem do payola, nem da clear channel, nem de nada do género. Tudo muito instável, sem dúvida nenhuma.
            Se os bancos falissem alguma coisa era positiva, provavelmente já tinhamos morrido à fome e de certeza não tinhamos electricidade para os aturar disparates de economês dos Ruis desta vida.

  5. Rui Silva says:

    Noticia de última hora: Baseado na douta opinião do dr. Nightwish a academia sueca anuncia a retirada do prémio Nobel a :
    John C. Harsanyi. e Reinhard Selten

    cps

    Rui Silva