Estou-te a ver


vigilância

O “daesh” está a transformar-se numa espécie de franchising internacional para toda a espécie de psicopatas, oferecendo validação religiosa e moral para toda a sorte de psicóticos narcisistas. Por vezes, estes são tão alarvemente estúpidos – como acontece no assassino de Orlando – que se assumem simultaneamente inspirados pela Al-Qaeda, pelo Hezbollah e pelo Daesh, ignorando que estes movimentos são inimigos entre si.

Mas, não bastando isto, há ainda as desastrosas “respostas firmes” que, como foi óbvio a partir da tragédia de 11 de Setembro de 2001, desabam sobre os cidadãos e sobre as liberdades com tanto estrondo como as “torres gémeas”. A investida do Patriot Act foi o início de uma espécie de estado democrático-policial que vê agora iniciar um novo nível de delírio a avaliar pelos discursos de Trump e, em menor grau, de H. Clinton. Até a França já brinca aos “estados de emergência”, numa perigosa réplica da história de “o jovem pastor e o lobo”.

Os terroristas assassinam inocentes; os líderes políticos perigosos encarregam-se dos ricochetes sobre as liberdades. A palavra “totalitarismo” tantas vezes usada com o rigor com que se chama manteiga a qualquer margarina no desarme ideológico em curso há muito tempo, desaparece, agora, das vozes do poder, esperando, talvez, que não o reconheçamos quando o tentam espalhar como um vírus.

À nossa pequena escala, estas coisas têm os seus entusiastas. Ainda agora, em debate na RTP3, Bernardo Pires de Lima tenta, sensatamente, por tino no entusiasmo serôdio que o general Rodolfo Begonha parece sentir pela militarização destas situações. A palavra “prevenção”, tão relevante em medicina é, nestes assuntos, perigosa e, muitas vezes, tóxica.

Longe estamos de “As Leis”, de Platão, onde, ao menos, tínhamos a graça de argumentos articulados e inteligentes. Que podiam ser refutados. Agora, não temos senão o confronto entre o delírio do absoluto fanatismo e o cálculo canalha e frio do não menos absoluto cinismo.

E nós, os bons? Por mim, digo com Brecht:

“De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?
De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?
De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?
Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua! Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!
Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!”

(Bertold Brecht, in ‘Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas’; trad. Paulo Quintela)

Comments

  1. Nightwish says:

    Não duvido que a “escalada” de conflitos à volta do europeu se deve ao aumento da xenofobia causada por este tipo de discursos. Bem a calhar numa altura de desintegração europeia.

  2. Oh freguês, compre um e leve três. Uma autêntica e serôdia paródia.

  3. Acontece que o assassino de Orlando era muçulmano, e tentou se justificar para dar legitimidade ao ato que iria praticar, misturando tudo, Hezbullah (movimento xiita) e EI e al-Qaeda (ambos de cariz sunita). Simultaneamente outro homem que não era muçulmano quis atacar a parada de Gay Price em Los Angeles. Porque acontecia não ser muçulmano, e falhou na tentativa de praticar o ato, não interessa para a notícia.

    Todos os seguintes grandes números de assassinatos de gays, nunca foram analisados ou classificados como sendo terroristas, ou se tentou dar qualquer carater religioso, ou ideológico aos mesmos, ou se cupabilizou a cultura das pessoas que os cometeram:

    https://76crimes.com/100s-die-in-homophobic-anti-gay-attacks-statistics-updates/

    • Rui Silva says:

      Tayeb, num” mundo muçulmano”, a questão gay/lesbicas, nem sequer se colocaria, pois seriam dos primeiros a serem eliminados, as mulheres seriam poupadas pois prestam serviços sexuais e procriação.

      Rui Silva

      • Consegue explicar porque mataram tantos gays na América Central e Sul?

        • Rui Silva says:

          Não percebi a sua questão. pode reformular ?

          cumps

          Rui silva

          • Leia por favor o link na minha resposta. Afinal não é só um muçulmano que assassina gays. Parece que são massacrados nas Américas Central e do Sul.

        • joão lopes says:

          facilmente o tipo comprou armas e ainda mais facilmente matou.pelos vistos teria um “ligeiro” problema de afirmação sexual.E bebia muito.parece um argumento para o taxidriver.tudo o resto…é demagogia.

    • Nightwish says:

      Ao que consta, o Omar Mateen era tão muçulmano que gostava de ir beber para bares gay e fazer-se a colegas masculinos.
      http://guerraasanidade.com/?p=380

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