A voz do dono e os eufemismos do DN

Diário de Notícias, 14 de Maio de 2018

 

O Diário de Notícias, assim como uma grande parte da comunicação social portuguesa, fala em “confrontos” entre palestinianos e o exército israelita. “Confronto” seria se o embate se desse entre dois exércitos, ou entre dois grupos militares com o mesmo poder de fogo. Mas não é disso que se trata. Trata-se de mais um massacre, um acto bárbaro que fecha com chave de ouro o Festival da Canção. O director do Diário de Notícias costumava ser mais incisivo – e verdadeiro – com as palavras.

 

Imagem: The Guardian

Na Virgínia, um rapaz de 13 anos não pode comprar uma cerveja mas pode, legalmente, comprar uma arma

Em Junho de 2016, pouco depois de dois tiroteios em escolas públicas e do massacre em Orlando, a CNN acompanhou um rapaz de 13 anos numa sessão de compras. Foi-lhe vedado o acesso a tabaco, bebidas, bilhetes de raspadinha e pornografia. Mas pôde, legalmente, comprar uma arma de fogo.

Eis o país da fachada vitoriana, que mete um apito a cada ass, fuck e shit dito na TV, indo ao detalhe de meterem uma chapa à frente da boca do apresentador (porém, deixando som suficiente para se perceber o que é que foi dito), mas onde se podem comprar armas de fogo livremente. Gente louca, bem representada pelo maluco do Trump, que preconiza armar os professores como solução contra os tiroteios nas escolas.

Estou-te a ver

vigilância

O “daesh” está a transformar-se numa espécie de franchising internacional para toda a espécie de psicopatas, oferecendo validação religiosa e moral para toda a sorte de psicóticos narcisistas. Por vezes, estes são tão alarvemente estúpidos – como acontece no assassino de Orlando – que se assumem simultaneamente inspirados pela Al-Qaeda, pelo Hezbollah e pelo Daesh, ignorando que estes movimentos são inimigos entre si.

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O “Bardo” tunisino. Razões para o massacre.

O massacre do Museu do Bardo (21 mortos), em Tunes, tem razões claras, as quais tentarei sintetizar de seguida, sem no entanto cair no simplismo.

1º Há dúvidas sobre se o objectivo seria verdadeiramente o museu, ou o Parlamento, muito próximo (aliás a notícia começa a ser veiculada como sendo um ataque ao Parlamento), no qual decorria a votação de uma lei anti-terrorista. É esta a convicção do Ministro dos Negócios Estrangeiros Taieb Baccouche e de muitos outros tunisinos; Continuar a ler “O “Bardo” tunisino. Razões para o massacre.”

Egipto: Irmãos muçulmanos e militares disputam o poder a qualquer preço

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© Bruno Charoy

«Eis o que se pensa no Ocidente sobre a situação egípcia: uma experiência democrática estava em curso, o exército quis por-lhe termo, instrumentalizou o descontentamento popular para fazer um golpe de Estado. E lamenta a ingenuidade do povo egípcio, que preferiria submeter-se aos militares a confiar no presidente islamista que ele próprio elegeu. Incapaz de se vergar à longa aprendizagem da democracia, o povo egípcio teria esquecido todos os males que o exército lhe infligiu…

Não, o povo egípcio não esqueceu. Não esqueceu o que sofreu durante os dezasseis meses em que o exército governou de forma directa o país. A iniciativa que entretanto tomou não é, de forma alguma, uma escolha entre os militares e os Irmãos Muçulmanos. Ela representa uma nova etapa na marcha que empreendeu para afirmar a sua autonomia cidadã. Pois o povo egípcio deixou de ser um comparsa no teatro de operações do palco político. Adquiriu, desde Janeiro de 2011, um estatuto de actor autónomo e decisivo. E adquiriu esse estatuto, qualitativamente novo, não porque tenha derrubado o autocrata Mubarak, mas porque recusou a legitimidade do seu poder. Até então, no país dos faraós e dos sultões, esse poder não era apenas exercido sem limites e sem controlo. Era, ainda por cima, legitimado pelo conjunto da população.  Por que razão aceitava, com a naturalidade de uma evidência indiscutível, um poder em relação ao qual não tinha qualquer ascendente? Porque esse poder, parecia-lhe, emanava de uma instância superior, transcendente. Porque representava, aos seus olhos, o reflexo na terra de um destino celeste. Continuar a ler “Egipto: Irmãos muçulmanos e militares disputam o poder a qualquer preço”

Benghazi, crónica de um massacre anunciado

O ditador líbio cita Franco, comparando a entrada deste em Madrid à tomada de Benghazi. Sem capacidade militar para se defender da aviação, da artilharia e das tropas de elite de Gadafi, a população de Benghazi aguarda o massacre, enquanto muitos tentam a fuga. Gadafi ameaça:

“Estás son las últimas horas de esta tragedia, llegaremos esta noche y no tendremos compasión

Os resistentes preparam-se para morrer como os republicanos espanhóis, sabem que o gritar Não Passarão de pouco lhes servirá.

Entretanto o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma zona de exclusão aérea. Ver ingleses, franceses e americanos a intervir num país estrangeiro traz-me as piores recordações. Mas ver morrer os resistentes de Benghazi seria sem dúvida o pior dos pesadelos.

Neste conflito se decide a sorte das revoltas árabes que enfrentam ditaduras sanguinárias. A Arábia Saudita já invadiu o Bahrein. Esta é a última esperança de que evitando um banho de sangue os revoltosos de toda a região ganhem o alento necessário para a sua luta.